Em Darwin a pintar paredes e a contar pistolas

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Depois dos dez dias passados em Sydney voltei a Darwin para o mesmo pequeno hotel onde tinha ficado antes de partir.

Desta vez, já com o dono a apreciar as minhas facetas nas pequenas reparações caseiras combinei ficar por lá, à espera da moto, a troco de três horas diárias de trabalho.

Reparei um tubo que perdia água, uma torneira que pingava, a bomba que puxava água para o lago e as luzes do fundo desse pequeno “pond”. Depois, rebarbadora em punho, descasquei a tinta velha da vedação metálica à volta da casa e pintei-a de novo. Dez dias de trabalho matinal.

A moto tinha finalmente chegado a Darwin no dia em que aterrei vindo de Sydney mas o processo de desalfandegamento, que incluiu uma lavagem feita por eles no porto (ainda tinha traços de terra no radiador, depois da lavagem que eu lhe tinha feito em Timor antes de partir) e pela qual me cobraram 440 euros, durou mais de uma semana.

O dono do hotel tem quatro filhas com cerca de dez, catorze e dezoito anos e uma mais velha que vive com o namorado e nunca apareceu, durante o mês que por ali andei. As três mais novas têm todas ar de traumatizadas e nunca lhes vi os dentes.

Um dia que fomos jantar fora o homem contou-me que se tinha separado da mulher entre outras coisas porque um dia ela pegou numa pistola e desatou aos tiros dentro de casa.

A senhora costumava aparecer por lá, simpática, buscar uma ou outra das filhas. A partir daquele dia passei a estar mais atento quando ela chegava, não fosse puxar da arma sem razão aparente. Falava-lhe bem mas não a perdia de vista até entrar dentro de casa e, se possível, deixava um carro ou uma árvore entre mim e a mulher.

Vinha normalmente acompanhada de um irmão ou do pai. O irmão, muito simpático, parecia um profeta, com olhos azuis quase transparentes e uma enorme barba cinzenta. O pai era exatamente igual, mas ainda mais simpático e um pouco mais velho. Chegou a vir cá para fora fazer conversa comigo enquanto eu pintava.

Qualquer um deles poderia ser um daqueles personagens que aparecem nos noticiários americanos por terem morto três vizinhos de um dia para o outro e todos ou outros dizerem que achavam muito estranho porque “era um encanto dum homem”.

No dia 9 de novembro pude levantar finalmente a moto. Como tinha desligado a bateria, mesmo passados dez meses pegou à primeira. No dia seguinte tratei de lhe substituir as pastilhas de trás que estavam nas ultimas, a maneta do travão que não me lembro de estar torta mas deve ter sido resultado de alguma queda no transporte, e reparei o cabo que abre o fecho do banco, que se tinha soltado, certamente resultado de algum puxão que os homens da lavagem deram para abrir o banco.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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