Das plantações de chá à blasfémia da cerveja

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Pela manhã, em Cameron Highlands, visitei duas impressionantes plantações de chá, que cobrem montes e vales a perder de vista. O ano passado tinha visto plantas de chá pela primeira vez na vida, quando andei pela província de Assam, na Índia. Fazem campos lindos porque não têm mais de um metro de altura e crescem de forma que parece que o topo foi aparado, formando uma espécie de tapete verde sobre elevado do chão. Magnífico

Depois de deixar as plantações segui as recomendações do meu amigo Russo e rumei a oriente. Desci a serra por outra fantástica estrada larga e de curvas rápidas e entrei depois numa zona de floresta tropical densa. O russo tinha-me avisado para atestar o depósito antes de entrar nesta zona e assim fiz. Durante 200 Km desta estrada larga que abriram através da floresta virgem não há restaurantes, habitações ou qualquer comércio ou construção. É uma estrada com muito pouco movimento e que não tem mais que floresta de um lado e outro. Paisagem fabulosa. De vez em quando parava para ouvir o chilrear dos pássaros na selva e excrementos de elefante indicavam locais onde teriam atravessado a estrada. De um lado e outro vi macacos saltarem entre os galhos das árvores.

Antes de entrar na zona de floresta felizmente comi duas bananas numa banca de beira de estrada que foram o meu almoço. Pelas quatro e meia da tarde cheguei ao Kenyir Lake, um enorme lago artificial criado quando foi aberta esta estrada, que ainda não aparece nos mapas ou no GPS.

Instalei-me no fantástico Hotel que construíram junto ao lago num “bungalow” com janelas amplas que abrem para um terraço com vista deslumbrante sobre a água.

Respira-se o silêncio naquele enorme lago, talvez do tamanho do nosso Alqueva mas rodeado de floresta virgem e salpicado de pequenas ilhas. Soberbo. No dia seguinte só arranquei por volta do meio-dia e continuei para oriente, até à costa. Desci depois rumo a sul, sempre junto a esta costa oriental e parei numa pequena estância de fraca qualidade mas com o atrativo de ser um “spot” de surf.

Antes de procurar onde ficar fui até à praia beber uma cerveja.

O bar do areal, que incorporava uma escola de surf, não tinha clientes e uma miúda mexicana, a ouvir boa música por detrás do balcão, estava com ar de não esperar ninguém e quase se assustou com a minha chegada. Recolheu os chinelos do chão e a “T” shirt que tinha em cima da mesa junto ao bar e pediu que me sentasse. Ficámos à conversa. Tinha ali chegado com 18 anos, quando viajava sozinha pela Malásia. Conheceu um rapaz local por quem se apaixonou e ali vive há seis, a fazer surf quando as ondas ajudam. Entretanto aproveitou para, durante quatro anos, passar os dias de semana em Kuala Lampur, onde tirou um curso de economia, mas de momento não tem outros planos senão para ali ficar, ao sabor das ondas.

Quando me despedi e pedi para lhe tirar uma fotografia junto a uma prancha de surf, tirou o pano que tinha à volta e fez pose de anuncio, em biquíni.

Fui procurar onde dormir e instalei-me numa espelunca das que já não conhecia desde a Índia. Uma mulher desdentada começou por me pedir o equivalente a 17 euros pelo quarto com ar condicionado mas baixou para dez quando lhe disse que não o queria ligar. Quando perguntei se tinha água quente desmanchou-se a rir a dar a entender que água quente só conhecia na panela da cozinha. Mas, com a temperatura exterior a 30º o duche frio soube-me lindamente. Na porta do quarto tinha um bocado de cartão daqueles dos ovos a arder no que pareciam preparativos para uma cerimónia Vudu. Quando lhe perguntei o que representava aquela queima explicou-me que era, simplesmente, para afastar os mosquitos.

Pelos trajes familiares, com mulheres e raparigas de cabeça tapada, constatei que eram muçulmanos, como a maioria da população malaia e nestes casos nunca resisto perguntar, ao jantar, se têm alguma bebida álcoolica.

Quando lhe perguntei se tinha cerveja a mulher tapou a boca para abafar o riso nervoso, como se eu tivesse dito uma blasfémia. Com medo de repetir o que eu tinha dito, olhou para o marido, um homem enorme, barrigudo e sério sentado em frente de uma televisão, para confirmar que estava distraído, e respondeu baixinho: “Não, aqui não temos isso”.

Há países como o Irão ou a Arábia Saudita onde simplesmente não se vende álcool em lado nenhum, mas nestes onde aceitam outras religiões e costumes os estabelecimentos que não pertencem a muçulmanos vendem, de maneira que a pergunta não é totalmente descabida.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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