Do Templo de Prambanan a um almoço ao som de Sinatra

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Quando deixei a cidade, passei no famoso Prambanan Temple, que fica uns 18 Km para oriente, na direção em que depois pretendia seguir. Só que, para apanhar a estrada principal à saída do Templo o GPS, como muita vez o faz, obrigou-me a dar voltas e voltinhas por estreitas ruas secundárias, muitas delas cheias de trânsito, de maneira que me atrasei bastante. Da parte da tarde apanhei depois uma fantástica estrada através da montanha que, felizmente, não tinha muito trânsito e deu-me imenso gozo o passeio que variava entre bom e mau piso e estradas mais ou menos sinuosas. Voltava a utilizar a sexta velocidade que até ali tinha engrenado apenas uma meia dúzia de vezes desde que entrara no país, tal é o congestionamento usual das estradas na Indonésia, principalmente nesta ilha de Java.

Só que, quando circulava em sexta a uns 110 km/h apanhei uma lomba inesperada, a moto levantou voo e quando aterrou a mala do lado esquerdo, que tem um dos apoios partidos desde os desastres na Índia, saltou fora e foi a arrastar umas boas dezenas de metros pelo alcatrão. Felizmente não se estragou mais do que estava. Voltei a colocá-la no sítio a arranquei. O passeio estava maravilhoso mas começou a anoitecer e não me aparecia um hotel à frente. Também não tinha comido mais nada depois do pequeno-almoço porque aqui, ao contrário da maioria dos países, não se encontram bancas de fruta na estrada.

Procurei numa cidade um pouco maior por onde passei mas o único hotel ainda estava em construção. No GPS indicava o mais próximo a cerca de 30 Km de maneira que fui à procura desse já noite dentro. O problema foi que o trajeto era uma sinuosa estrada de montanha onde a chuva tinha arrastado lama para o alcatrão e, para piorar a situação, a chuva regressava. Percorri estes 30 Km com noite cerrada e muita escorregadela na lama, mesmo a baixa velocidade.

Por fim lá cheguei a um Hotel de fraca qualidade mas que tinha um duche quente e uma galinha com massa para o jantar que até nem estava nada má. No supermercado do outro lado da rua encontrei um gelado para sobremesa.

Nesta zona central da ilha de Java há muito pouco turismo e é raro encontrar quem fale inglês. Neste hotel de província ninguém “arranhava” sequer de maneira que, para o pequeno-almoço do dia seguinte, depois de verificar que não tinham pão, tive que me contentar com o que me deram, ou seja um caldo de carne com bocados de carne dentro e batatas fritas de pacote partidas, a boiarem.

Arranquei depois pela mesma estrada secundária que ali me tinha levado e que, em algumas zonas, passava junto à costa. O estado do piso variava bastante ao longo do percurso mas de um modo geral era uma estrada que deu gozo fazer e tinha uma bonita paisagem à volta. Às tantas, do alto da montanha, vi uma praia lá em baixo. Dei lá um salto. Estava deserta e a manhã de sol linda de maneira que aproveitei para tomar um banho nu. Quando voltava à estrada encontrei um sinal que indicava uma reserva de tartarugas e dei lá um salto. Um homem informou-me que as recolhiam em pequenas para as entregarem ao mar em adultas, mas só vi cerca de uma dúzia de bebés tartaruga e três animais já com uns 50 cm de comprimento.

Pelas três da tarde parei junto a um homem com uma banca de estrada que vendia uns frutos do tamanho de ananases pequenos mas em que a casca é de picos. Pedi para me abrir um e comi aqueles bocados de polpa com caroços no meio que odiei, mas serviram de almoço. Apanhei depois a minha dose diária de chuvada forte e, pelas cinco da tarde, cheguei a Malang, uma cidade agradável por conservar uma temperatura mais moderada, influenciada por ventos marítimos e outros vindos das altas montanhas dos arredores e com um centro onde os jardins públicos estão bem tratados.

Na manhã seguinte fui visitar um mercado de pássaros onde, curiosamente, tingem os pintos de várias cores, para os tornarem mais atraentes, calculo, e um outro de flores. Dei uma volta pela cidade, almocei no Toko Oen ao som do Frank Sinatra e vim beber um café a um Hotel onde tinha ontem vindo jantar, vizinho daquele onde estou instalado e que tem uma decoração fantástica com peças antigas fabulosas. O Tugu Hotel é mesmo considerado por alguns guias turísticos como o principal museu da cidade. Adorei o Hotel e embora estivesse fora do meu orçamento para lá ficar instalado, voltei a jantar lá.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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