Uma escolta no caótico trânsito da Indonésia

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Arranquei perto do meio-dia com a ideia de fazer tranquilamente os 150 Km que me separavam de Bandung até às quatro ou cinco da tarde.

Só que não previ a loucura que é sair de Jacarta sem poder entrar na autoestrada pois as motos estão proibidas de as usar na Indonésia. É que esta ilha de Java que, não sendo a maior é a mais populosa, tem 140.000 Km2 ou seja, um tamanho de cerca de uma vez e meia a área de Portugal e nada menos que 135 milhões de habitantes que parecem ter cada um uma “scooter” ou moto de 125 c.c.

É a loucura total. Passadas duas horas de um para arranca entre milhares de motos e carros, debaixo de uma temperatura de 38º, com uma humidade altíssima e níveis de poluição assustadores, comecei a sentir as mesmas tonturas que tinha tido uma vez na Índia que acho se devem a uma baixa tensão. Parei para descansar uma meia hora durante a qual bebi um litro de água e fiquei novo.

Pelo caminho apanhei, por sorte, a feira de antiguidades da Jalan Surabaya que é fantástica. Um dos comerciantes, enquanto me mostrava um maravilhoso escafandro, réplica dos utilizados pela marinha norte americana durante a segunda grande guerra, contava-me que já tinha tido a visita dos Clinton’s e de Mick Jagger, por mais que uma vez.

Tinha deixado a feira há pouco quando um miúdo numa 125 meteu conversa nuns sinais luminosos. Perguntou-me de onde vinha e quando lhe disse Portugal ficou espantado por eu vir sozinho: “Alone? Crazy, crazy”.

Achei graça ao miúdo e quando nos sinais seguintes me perguntou se não queria ir até casa dele que era ali perto, imaginei uma mãe a cozinhar um almoço maravilhoso e disse-lhe que sim. O miúdo dos seus vinte anos foi então à minha frente a afastar o trânsito em sinais com as mãos e pernas, tanto o que vinha no nosso sentido como em sentido contrário, qual policia motorizado.

Levou-me por umas ruas estreitas até um beco onde vivia. Entrámos então numa barraca com três pequenas divisões onde morava com um casal amigo. Na primeira divisão estavam uma moto e uma scooter meia desmontadas e com peças amontoadas no meio de muita tralha. A divisão seguinte era o quarto onde dormia o casal amigo com um colchão no chão, lençóis revoltos com ar muito sujo, vários cinzeiros cheios de beatas e papéis e lixo à volta. Não teria mais de dois metros por três e o único sítio sem ser o colchão do casal onde alguém se pudesse sentar era uma almofada onde descansava um rafeiro, com três meses de idade, a quem tinha caído o pelo quase todo e que os amigos do rapaz disseram ter sido causado por uma alergia. A miúda da casa deu uma limpeza rápida no cubículo, que consistiu em levar os cinzeiros lá para fora e amontoar a um canto papéis e lixo e ficámos os quatro ali em pé à conversa, pois a divisão seguinte era a cozinha que calculo fosse também quarto do rapaz e onde não me atrevi a entrar.

Ofereceram-me café mas disse que tinha acabado de beber muita água e tinha que voltar à estrada para tentar chegar ainda de dia a Bandung.

Depois de uma sessão fotográfica na barraca e junto à moto lá consegui arrancar, novamente guiado por este amigo com vocação para polícia de trânsito a quem desta vez recomendei que não mandasse afastar os outros carros do meu caminho pois dava muito nas vistas.

Voltei ao inferno do trânsito Indonésio onde não se vêm tantos camiões como na Índia mas muitas mais motos que parecem um enxame de abelhas a atacar quem lhes foi ao mel.

Só tinha tomado o pequeno-almoço às dez da manhã mas durante o dia não passei por nenhum restaurante com aspcto minimamente limpo onde me apetecesse almoçar de maneira que às cinco da tarde começou a chover e decidi parar numa destas tascas de beira de estrada. Um simpático velho disse-me que pusesse a moto abrigada da chuva quase dentro da tasca e a mulher veio perguntar o que queria. Em cima da mesa tinham uns peixes e outros fritos com aspeto de terem passado pela frigideira há mais de um mês de maneira que lhe pedi quatro bananas que vi a um canto e um chá que me soube maravilhosamente.

Quando arranquei estava a ficar noite e ainda faltavam 80 Km para Bandung que com aquele transito e estradas esburacadas era coisa para me levar a fazer em duas horas de maneira que, ao cheguei à próxima cidade, Cikampek, procurei um Hotel no GPS que me encaminhou para o único existente na zona. Não é dos piores onde tenho ficado e o pessoal é simpático.