Uma gripe e umas termas na Indonésia

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Saí pelas 11 da manhã de Cimpancek e duas horas depois estava a entrar em Bandung, que é uma cidade agradável, com árvores nas ruas e um aspeto mais arrumado que Jacarta. O principal atrativo da cidade não o era para mim que ligo pouco a roupas. É que tem dezenas de lojas de “Stock off” com restos de coleções das grandes marcas, muitas delas fabricadas na Indonésia indo ali parar as sobras, com as etiquetas cortadas mas originais a uma fração do preço europeu. Ainda entrei numa e comprei uma camisola para o meu filho.

No dia seguinte saí do hotel já perto do meio-dia e, antes de deixar a cidade, ainda fui visitar o Museu Giologi que parece interessantíssimo mas infelizmente só tem os textos de explicação dos fenómenos geológicos e sobre os produtos extraídos da terra, como metais, petróleo ou carvão, em Indonésio.

Arranquei de Bandung pela uma da tarde e teria passado pouco mais de meia hora quando uma chuvada forte se abateu sobre a estrada. Parei debaixo de um telheiro de uma oficina onde já estavam duas “scooters” também a fugirem da chuva. Voltei a arrancar vinte minutos depois quando o tempo melhorou um pouco mas viajei o resto do dia sempre debaixo de chuva. Numa das vilas por onde passei havia enormes cheias e parei para filmar um pouco as “scooter” a atravessarem aquele aguaceiro e “cortarem” a água como se fossem barcos. Ali a vida não para quando chove.

Nesta parte central da ilha o trânsito melhora um pouco mas as médias continuam a ser muito baixas, com várias paragens e as “scooters” a passarem-me razias, em ambos os sentidos, de cada vez que passa a fluir menos. Esta é a principal estrada que atravessa a ilha de ocidente para oriente mas só tem uma via em cada sentido e é muito sinuosa de maneira que as ultrapassagens a que assisto são assustadoras. Quando estava parado junto a uma passagem de nível uma mulher que vinha numa “scooter”, com uma burca a fazer de capacete, como é comum, não conseguiu travar a tempo a bateu-me na traseira, quase me fazendo cair, mas não disse uma palavra ou fez qualquer sinal, simplesmente “furou” caminho e pôs-se à minha frente. Não resisti depois a passar-lhe uma razia, qual criança amuada, ao dobro da velocidade a que seguia.

Nesse dia comecei a sentir falta de força nas pernas e um cansaço maior que o habitual. Pensei que seria do frenesim do trânsito e parei numa pequena cidade a pouco mais de cem quilómetros de Bandung pelas quatro da tarde.

Só no dia seguinte percebi que estava com uma enorme gripe, certamente causada pelas chuvadas que tenho apanhado.

Durante o dia ainda percorri 170 Km até Baturraden, na montanha, mas à noite senti enormes arrepios de frio quando a temperatura andava a mais de 20º e na manhã seguinte não estava em estado de voltar à estrada, de maneira que fiquei um dia sem sair do hotel e dormi a manhã toda.

24 horas fechado num hotel onde me parecia ser o único cliente e com refeições que se assemelhavam às de um hospital de província levou-me a sair à rua no dia seguinte, mesmo se ainda não me sentia completamente curado da gripe.

Subi a montanha e entrei num parque natural por uma estreita estrada rodeada de densa vegetação. Fui ver uma fonte de água quente que sai de umas rochas a mais de 50º e corre depois para uma cascata cujas paredes ganharam diferentes tons de castanho e verde com a passagem desta água vulcânica. O vapor que sai daquela água envolve a paisagem da floresta, dando-lhe um ar misterioso.

Sentei-me num banco junto à passagem da água e um homem fez-me uma massagem aos pés com argila proveniente daquelas águas, que dizem faz muito bem à pele. Depois de massajar uma das minha pernas e pé com aquela argila virou-se para a cliente indonésia que estava sentada ao meu lado e disse: “veja a diferença na cor das pernas dele. Antes e depois”. Pela conversa parecia estar a sugerir que eu estaria com os pés sujos quando ali cheguei.

Antes de sair do hotel, situado numa vila já na montanha, tinha perguntado ao homem da receção se haveria por ali uma farmácia ao que ele olhou para mim como se não fizesse a mínima ideia de que tipo de estabelecimento estaria eu a falar, de maneira que quando saí da fonte de água quente, almocei num restaurante da montanha e desci depois até à cidade cá em baixo.