Há uma estranha ordem no caos do trânsito da India

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Saí de Agra às dez e meia da manhã a caminho de Lucknow que fica a cerca de 320 Km. Estavam perto de 40º e voltei a enfiar o fato completo e botas. Pensei que demoraria quatro a cinco horas a percorrer o trajeto mas a estrada era má, nalgumas zonas muito esburacada e o transito infernal na maior parte do caminho de maneira que demorei seis horas e meia para percorrer os pouco mais de 300 Km. Pelo caminho a dose habitual de animais na estrada, desde cabras a vacas, passando por um macaco que atravessou a autoestrada e até uma espécie de abutre que, no meio da via, se entretinha com os restos de uma ovelha atropelada.

O trânsito caótico obriga-me a uma atenção redobrada. Desta vez até um carro da polícia, a cerca de 120 Km/h, apanhei em sentido contrário na auto estrada para além de uma camioneta que me surgiu de frente, na sua faixa da esquerda, à saída de uma curva quando eu ultrapassava outra. Dessa vez assustei-me. Tive que travar forte e encostar à esquerda.

A maioria dos carros que circulam aqui levam os retrovisores recolhidos, para poderem passar mais facilmente por entre os outros na terceira faixa que eles inventam quando o trânsito está entupido e há só duas. Não é que fizesse alguma diferença estarem na posição correta porque nunca olham para eles.

A teoria é ir circulando pelos espaços livres de estrada, ultrapassando pela direita ou esquerda, conforme dê mais jeito e sem verificar se vem alguém atrás porque já se sabe que vem sempre. Só não há muitos mais acidentes porque têm uma grande vantagem na maneira de guiarem: não se vê ninguém a fazer movimentos bruscos. Os carros, motos e outros triciclos ou carroças que tal vão-se encaixando uns nos outros, como um puzzle, lentamente, de maneira que cada um vai percebendo para onde vai o outro.

Não há regras de trânsito a não ser a que diz ser suposto circular pela esquerda, mas mesmo essa não é seguida à letra por nenhum dos condutores. A polícia não manda parar ninguém por mais infracções que cometa pois eles próprios não sabem o que é ou não uma infracção e como na prática não há regras, também não há infracções. Eles estão na estrada apenas para ajudar a escoar o trânsito quando o engarrafamento é mais complicado. No meio de toda a confusão que isto provoca ainda não vi um condutor zangado a insultar outro ou em stress.

Tocam todos muito a buzina mas isso é por outras razões. A buzina tornou-se uma questão cultural e eles usam-na da mesma forma que nós colocamos uma música no facebook para os amigos ouvirem. Os camiões têm escrito na traseira “please horn” e os colegas cumprem, como quem dá música. Até os pequenos toques são ignorados pelos envolvidos com um simples olhar de indiferença.

Entretanto na parte da autoestrada que estava em pior estado acabei por cair num buraco dos grandes, com a suspensão a bater no fundo e um dos retrovisores a desapertar-se mas felizmente pneu e jante aguentaram bem a pancada.

Nestes trajetos pela província profunda, onde não existem sítios onde se possa comer qualquer coisa minimamente decente, costumo parar numa banca de fruta mais isolada e almoçar duas bananas e outras tantas maçãs. A fotografia é de uma dessas paragens em que chego sem ninguém por perto e passados cinco minutos tenho uma multidão a admirar a moto. Por vezes mal me consigo mexer.

Chegado a Lucknow tive que ficar no hotel menos mau que encontrei, para contrastar com o fabuloso de Agra. Aqui só o recepcionista falava inglês e tive que mandar mudar os lençóis da cama que tinham manchas de sangue enquanto o duche foi tomado de chinelos nos pés. Curiosamente o jantar, que é invariavelmente galinha cozinhada de uma ou outra forma, estava óptimo.

O dia de hoje foi muito mais tranquilo. A temperatura pelas onze horas estava nos 40º e decidi arrancar em jeans e sapatos. Felizmente.

A estrada para Gorakhpur, onde estou agora, estava em bom estado na maior parte do trajeto, para os níveis indianos e, embora tenha arrancado tarde, percorri a mesma distância de ontem em quatro horas.

Para cima de Agra deixam de se ver turistas e mesmo os hotéis são só ocupados por indianos. Por outro lado, à medida que vou para Norte e me aproximo do Nepal, onde espero entrar amanhã, há menos trânsito nas estradas que ligam as cidades e também por isso estas resistiram melhor às chuvas das monções, que recentemente acabaram.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica diariamente o seu livro de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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