O maior diamante do mundo no país das vergastadas nas pernas

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Ontem e hoje andei a fazer visitas turísticas com a guia aqui do Hotel, a Bahar. Uma miúda muito gira que fala pelos cotovelos. Fomos primeiro visitar o Palácio dos Sultões na parte baixa da cidade, depois o museu das jóias, dentro do Banco Central Iraniano e hoje o Palácio dos últimos Xás, os Pahlavi pai e filho.

Com as voltas que demos pela cidade, comecei a perceber melhor os transportes públicos. Existe um metro, melhor que qualquer europeu pois foi construído há menos de dez anos e depois, além dos autocarros há não só os táxis normais como outros, idênticos, mas que fazem trajetos fixos e que estão parados numa praça à espera de terem dois ou mais clientes para arrancarem.

Estes funcionam como autocarros. Se houver três ou quatro clientes diferentes vão todos no mesmo táxi e cada um paga um preço fixo. Para além disso há as moto-táxi que são 125 cc que se desembaraçam do trânsito como ninguém e levam os clientes à pendura. Quando não morrem de ataque cardíaco chegam mais rapidamente ao destino. Como todos os transportes são baratos, mesmo para eles, fiquei com a sensação que só utilizam estes moto-táxi quando estão atrasados para qualquer encontro importante.

No metro existem carruagens reservadas para mulheres e, ao entrar no primeiro autocarro atrás da Bahar ela disse-me “Não. Não pode entrar por este lado. Vá pela direita” A parte direita da porta lateral encaminha-nos para a parte da frente do autocarro, reservada aos homens, enquanto as mulheres viajam na parte de trás. Elas podem vir para o nosso lado, embora não seja muito comum, mas os homens jamais podem entrar na parte das mulheres. As duas secções estão separadas por uma barra e pudemos ficar, junto à barra, a falar um com o outro. Não fiquei com a sensação que estivéssemos a pecar.

Quando vínhamos de regresso do Palácio ao meu lado, na parte dos homens, vinham duas mulheres sentadas. Às tantas uma levantou-se para sair e um homem, sem reparar que era uma mulher que ali estava sentada, preparava-se para se sentar ao lado dela. Quando reparou, deu um salto e fugiu para a parte da frente do autocarro, não fosse alguém ver que ele ia cometendo o sacrilégio de se sentar ao lado de uma mulher. A mulher também fez um ar indignado como quem diz: “olha a lata do bicho, que se ia sentar aqui ao meu lado?!”

Como já tinha referido as mulheres são obrigadas a andar com a cabeça tapada e quando, antes de ontem, perguntei à minha amiga Hasala o que acontecia se a polícia as visse sem lenço na cabeça, ela disse-me que iam presas e apanhavam umas vergastadas nas pernas de maneira que é remédio santo: nenhuma se atreve. O extremismo é tal para evitar contacto entre homens e mulheres que a Bahar me contou que o mês passado um polícia a viu a despedir-se de uns clientes, à porta do Hotel, de aperto de mão e veio confirmar se ela tinha dado um aperto de mão aqueles homens. Ela teve que negar veementemente para não ir parar à esquadra. E com isto tudo lá namoram e casam e têm filhos.

Visitei os palácios, tanto dos antigos Sultões como dos mais recentes Xás mas não me impressionaram por aí além. Claro que são fantásticos, mas não são de ficar com a boca aberta, a não ser pelos extraordinários tapetes. O que verdadeiramente impressiona é a coleção de jóias, entre as quais está o maior diamante do mundo e centenas de peças como espadas, frascos e caixas, acessórios para os cavalos, etc. com milhares de diamantes, rubis, esmeraldas, ouro e venha o diabo e escolha, de valor verdadeiramente incalculável, expostas no museu do banco nacional, protegidas por um sofisticado sistema de alarme e portas com um metro de espessura.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica diariamente o seu livro de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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