Na Austrália, onde as formigas brancas têm um bússola no corpo

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Arranquei em direção a sul, pelas dez da manhã, com as temperaturas a continuarem a rondar os 40º. A estrada tem muito pouco movimento e as distâncias são grandes entre pequenas povoações. Cerca da uma da tarde, ao parar numa das poucas área de descanso, que se resumem a uma sombra com bancos e, às vezes, uma casa de banho, encontrei uma família francesa de uma mãe e três filhas, uma delas acompanhada do namorado. O casal estava a trabalhar em Katherine, ali perto, na apanha da manga e as irmãs e a mãe vieram visitá-los.

Contaram-me que 60 Km mais à frente havia uma nascente onde se podia tomar banho. Fui até lá dar um mergulho e por ali fiquei, montando a tenda no parque que havia perto.

Nessa noite caiu uma carga de água como não via há muito. Por sorte tinha montado a proteção para chuva na tenda e acabei por voltar a adormecer ainda com a chuva a cair. Acordei às oito da manhã debaixo de um sol lindo e 36º de temperatura. Antes de sair voltei a dar um mergulho junto às nascentes de água, transparente mas morna.

Decidi percorrer uma etapa mais longa, de 550 Km ainda para sul, que me levaram até Three Ways, o cruzamento onde iria virar para Oriente.

A estrada, de apenas uma via em cada sentido, é bem alcatroada. São longas retas, por vezes de muitas dezenas de quilómetros, com muito pouco movimento. Durante o dia cruzei-me só com dois ou três carros e outros tantos camiões. Esta suposta “highway” é ladeada de árvores de médio porte a maioria com os troncos queimados, propositadamente. Fazem estas queimadas controladas, poupando as copas, para evitar incêndios de maiores dimensões. Quando chega a época das chuvas, tudo volta a ficar verde. Chego a percorrer mais de cem quilómetros sem ver um carro, camião ou vivalma. As únicas construções são os montes em terra construídos pelas “termites” ou formiga branca, que chegam a atingir mais de dois metros. Curioso foi os que vi em Litchfield Park, em formato de uma espécie de lâmina, sempre construídos no eixo norte/sul.

Cientistas acharam estranho que estas formigas consigam construir esta espécie de abrigos para milhões delas sempre neste sentido, sendo elas cegas e portanto não se podendo orientar pelo sol. Depois de experiências em que através de poderosos ímans mudaram o campo magnético de certas zonas, levando-as a mudar o sentido das construções, chegaram à conclusão que elas têm uma espécie de bússola incorporada no corpo. Extraordinário.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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