De scooter e cavalo até à cratera do vulcão

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Dia difícil mas sensacional. Felizmente acordei cedo e saí do hotel em Malang ainda antes das nove. A ideia para o dia era visitar um vulcão a cerca de 50 Km da cidade e depois seguir até Lumajang, a caminho de Bali. O Mount Bromo esteve em erupção há três anos e continua a fumegar.

Comecei por subir uma estreita estrada de montanha até à entrada da zona de reserva natural onde se situa o vulcão. Um dos guardas, com ar de pouco convencido, perguntou se eu pretendia ir até à zona do vulcão com aquela moto.

“Sim. Porque não?”

“Humm. Não me parece”.

Uns quilómetros mais à frente nova paragem junto a uma cabana de outros guardas.

“Acho que não vai conseguir passar com essa moto”

“Mas vejo jipes a passarem para baixo”

“Sim, os jipes passam”

“Então esta também haverá de passar”

Descarreguei as malas junto à cabana e arranquei por uma estreita estrada de terra em muito mau estado que descia até um árido planalto. Até aqui tudo bem e esta era a parte que eles achavam que eu dificilmente conseguiria passar com a “CrossTourer”.

Lá em baixo o trajeto a caminho do vulcão era por umas pistas em areia vulcânica onde a “CrossTourer” começou a escorregar muito, mas lá ia andando. Estes pneus que montei em Singapura já vi que são excelentes em estrada seca ou molhada e bons em mau piso duro, mas em lama ou areia têm muito pouca aderência.

Fui andando devagar pela pista de areia marcada com fitas, como no TT, até que comecei a apanhar muita areia solta. Aí a frente ficou muito difícil de controlar e acabei por cair contra um barranco. A moto, encostada ao barranco, não ficou completamente deitada mas tinha uma inclinação suficiente para não a conseguir levantar sozinho. Sem ninguém por perto desliguei a ignição e limitei-me a esperar, até que, passados uns dez minutos, apareceu um homem de pano aos quadrados enrolado à volta da cara e cabeça que parecia tirado do Sahara só que aqui, em vez de vir montado num camelo vinha numa “scooter” que, sem qualquer problema, atravessava a zona de areia.

O “leão do deserto”, que trazia um carregamento de ervas na traseira, lá me ajudou a levantar a moto e avisou que mais à frente o piso estava pior de maneira que decidi voltar para trás, até porque se começasse a chover teria muita dificuldade em enfrentar a última subida muito esburacada. De volta à base onde tinha as malas contratei então o meu salvador para me levar à pendura da “scooter” ver o vulcão. E assim foi. Percorremos os dois na “scooter” aquela meia dúzia de quilómetros através de um deserto de areia de lava até à base do vulcão onde a muita areia solta não deixava nem a “scooter” passar.

Aluguei então um cavalo a um homem que por ali estava com o qual fui até cerca de cem metros do topo. Aí, uns degraus cavados na montanha permitem-nos chegar à orla da cratera. É de facto impressionante. Embora sem atividade o vulcão continua a libertar um fumo intoxicante com um forte cheiro a enxofre que não nos deixa estar ali muito tempo. Apenas o necessário para fazer um pequeno filme e tirar meia dúzia de fotografias.

Pelos mesmos meios voltei à “CrossTourer” e parti então em direção à cidade de Lumajang. O trajeto é maioritariamente pela principal estrada que atravessa a ilha de Java de Ocidente para Oriente que tem apenas uma faixa para cada lado, com um alcatrão razoável mas em alguns locais muito remendado e com muito transito, aqui já de bastantes camiões e milhares de pequenas motos e “scooters”.

As estradas na Indonésia são muito ao estilo do que eram as portuguesas nos anos sessenta. Nesta zona era particularmente sinuosa, quase toda feita entre segunda e quarta velocidades.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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