Uma tarde de mecânica uma noite no ferry para a ilha de Flores

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Ao sair do hotel, pelas nove da manhã, o rececionista perguntou-me para onde ia e quando lhe referi que pretendia apanhar o ferry para a ilha de Flores disse-me que só havia um por dia que partia às oito da manhã. No dia anterior tinham-me informado que saíam barcos quase de hora a hora de maneira que decidi arrancar até ao porto, a perto de 60 Km de ali, para estudar a situação “in loco”.

Quando lá cheguei disseram-me que haveria um segundo barco à tarde que deveria partir por volta das quarto.

– Mas não tem horário? sai às quatro ou quatro e meia?

– Depende do número de clientes – respondeu

Eram dez da manhã e decidi então ir fazer a revisão à moto que tinha prevista para Timor. Calculava encontrar o filtro de ar já muito sujo porque sentia a moto a perder potência gradualmente e temia que as velas também estivessem no estado a que chegaram no Irão, onde a cerâmica queimou, em resultado da má qualidade da gasolina. Como nalguns destes países do sudoeste asiático o combustível também é de fraca octanagem achei que deviam estar a pedir mudança. E estavam.

A operação é demorada nesta moto porque temos que retirar o depósito de combustível, desligar uma série de sensores e as velas dos cilindros da frente do V são de difícil acesso.

Por outro lado este mecânico/viajante também trabalha devagar.

Quando tinha tudo montado de novo, pus a moto a trabalhar e não só a luz de avaria se mantinha acesa como a moto não se aguentava ao ralenti. Achei que teria deixado alguma ficha mal ligada de maneira que voltei a retirar o depósito para desligar e voltar a ligar todas as fichas. Nova montagem e os mesmos sintomas. Entretanto o tempo passava e eu via que quase de certeza perderia o barco daquela tarde. Na segunda desmontagem retirei também a caixa do filtro de ar e só então reparei que tinha deixado um pequeno tubo de vácuo desligado.

Sabia que era o suficiente para aqueles sintomas e quando voltei a montar tudo de novo, foi com confiança que pus a moto a trabalhar sem que a luz voltasse a acender.

Já passava das seis da tarde mas decidi ir até ao porto ver o que se passava. O barco ainda lá estava e disseram para me despachar que iria partir de seguida. Estranhei, ao entrar, só lá estar um camião dentro, mas estacionei a moto no local onde me indicaram e subi para a zona superior com bancos bastante cómodos.

Começaram então a ser carregados mais camiões mas, com o movimento já parado, pelas oito da noite fui perguntar porque não partíamos

– Estamos à espera de um cliente que está a chegar.

Quando o barco saiu eram nove da noite. Felizmente tinha um livro para ler e o tempo passou bem. Não tinha comido nada deste o pequeno almoço e no bar do barco arranjaram-me uma espécie de esparguete com o que penso seja tofu, que vem numas embalagens plásticas a que acrescentamos água a ferver. Não é muito mau.

Dormi uma três ou quatro horas e, pelas três e meia da manhã, fui acordado pelos altifalantes do barco a anunciarem a chegada.

Eram quatro da manhã quando saí do barco com a moto. Tinha ideia de ali ficar na vila a dormir mais umas horas numa qualquer pensão de esquina, mas estavam todas de portas fechadas de maneira que não tive outro remédio senão arrancar noite dentro.

Como o GPS deixou de funcionar há uns dias e não tinha a quem perguntar o caminho guiei-me pela bússola do iphone para me levar para oriente.

Ao sair da vila os altifalantes de uma mesquita acordavam os fiéis para as rezas matinais e pouco depois vi homens a deixarem as casas à beira da estrada para se porem a pé a caminho do local de culto.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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