Travessia nocturna para Sumbawa

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Quando voltei ao restaurante buscar a moto depois da visita às cascatas ainda tinha as calças encharcadas mas, como estava calor, decidi arrancar mesmo assim para ver se chegava à vila do porto onde embarcaria para Sumbawa antes de anoitecer. A estrada era espetacular, com uma parte montanhosa, mas bastante rápida e com o alcatrão a seguir as diferenças de inclinação do terreno, com lombas cegas e curvas com desníveis. Um gozo.

Passava pouco das seis e meia quando cheguei ao porto e me informaram que sairia um barco dentro de meia hora. A minha ideia inicial era ficar a dormir do lado de cá para não ter que andar de noite quando chegasse à outra margem, mas não quis desperdiçar a oportunidade, sabendo que no dia seguinte não só o movimento seria muito maior, como poderia mesmo não haver barco à hora que me desse jeito. Fiz assim a travessia já de noite.

Tinham-me dito para tomar especial cuidado nestas ilhas a oriente de Lombok. Aqui já não há turismo, as populações são mais pobres e há bastantes assaltos. Por essa razão deveria evitar, a todo o custo, andar de noite.

O barco levava não mais de uns 15 passageiros, quatro ou cinco camiões e outras tantas “scooters”. Não viajavam carros. Estacionei a moto, subi para o andar superior com um livro e sentei-me a ler. Passados uns dez minutos uma simpática gorda com um enorme tabuleiro de bananas chamou-me. “Bananas, my love”?

Lembrei-me que tinha almoçado há uma e meia da tarde e provavelmente não encontraria onde jantar na outra margem de maneira que lhe comprei quatro bananas que foram o meu jantar a bordo, acompanhadas de uma água.

Alguns dos passageiros meteram conversa, estranhando um estrangeiro naquelas andanças. Perguntei-lhes se encontraria hotel junto ao porto da outra margem e disseram-me que não. Teria que fazer uma dúzia de quilómetros até à primeira vila.

Um dos homens, de aspeto duvidoso, depois de várias perguntas sobre de onde eu vinha e para onde ia disse-me: “você é rico”. Respondi-lhe que não e cortei a conversa.

Desembarcado em Sumbawa pelas nove e meia arranquei, noite cerrada, por uma estrada quase deserta mas em bom estado a caminho de Alas, a tal vila que me tinham referido. Nesta ilha há praticamente uma única estrada, que a atravessa de ocidente para oriente. As derivações são estreitas vias, muitas das vezes em terra. Mas a ilha tem mais de 400 Km de comprimento.

Chegado a Alas perguntei onde havia um hotel e indicaram-me o que parecia ser o único. Um homem veio receber-me à porta e apresentou-me o filho, que “arranhava” umas coisas de inglês. Insistiu em mostrar-me o quarto, mas eu não só já imaginava o que me esperava como, sem alternativa, teria que aceitar fosse o que fosse. O lençol e as almofadas nem tinham um ar sujo, mas o endredon não tinha capa, o que não me espantou. Em Mataram, capital de Lombok, tinha insistido com o rapaz do Hotel para me fornecer um lençol para colocar debaixo do cobertor, sem qualquer sucesso. Aqui nem disse nada. Ou seja, limitei-me a dizer que estava ótimo.

A casa de banho era um buraco no chão com um tanque de água ao lado, que parecia de um lago estagnado, com aranhas a boiarem. Dentro do tanque a habitual tigela plástica que os muçulmanos usam para se lavarem com água retirada destes tanques. Não há duche e a única torneira corre para dentro do tanque. Lavar os dentes, por exemplo, é uma operação complicada porque evidentemente não utilizamos a água do tanque.

As paredes tinham sujidade acumulada de anos. Impensável andar ali sem ser de sandálias.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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