Um beija mão entre a mesquita e a igreja em Jacarta

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

 

Cheguei a Jakarta ao fim da tarde e, como de costume, fui enganado pelo táxi que me levou ao Hotel. Só que aqui é ainda dentro do aeroporto que têm uns balcões onde várias companhias vendem viagens de táxi por quatro vezes mais do que custam se apanharmos o táxi à saída do aeroporto. Achei logo estranho porque a menina do balcão me veio acompanhar até ao carro.

A primeira impressão que temos de Jakarta é francamente má porque fora do centro a cidade é feia e suja. Para além disso os dez milhões de habitantes parecem não ter onde estar e ficamos com a sensação que há gente a mais não só parada nas ruas como a circular de carro ou “scooter”.

A moto, a viajar de barco, só chegava dois dias depois de maneira que no dia seguinte decidi ir fazer um passeio turístico.

Fui primeiro ao Nasional Monument, uma torre mandada construir pelo presidente Sukarno em 1961 para celebrar a independência do país, com uma grande chama dourada em cima e que tem a particularidade de ficar iluminada de azul à noite. Não tentei entrar porque estavam filas assustadoras no túnel de acesso ao elevador que nos permite subir ao ponto mais elevado.

Cá fora, nos mal tratados jardins e acessos, decorria uma manifestação com muitos jovens de bandas pretas na cabeça e bandeiras brancas com carateres indecifráveis que vociferavam sob o olhar atento da polícia.

De seguida tentei visitar o palácio presidencial mas, mal atravessei a rua para chegar ao passeio em frente, o guarda que estava na guarita saiu e mandou-me atravessar a estrada de volta e não tirar fotografias. Só então reparei que realmente aquele passeio e a entrada do palácio estavam vazios.

Fui então num tuk tuk até um mercado de rua onde acabei por almoçar uma espécie de cozido onde reconheci batatas e couves mas em que o ingrediente principal era, segundo a mulher, peixe mas tinha a consistência de toucinho e calculo que fosse a gordura que está entre a carne e a pele de algum peixe de grandes dimensões. Como aquilo era tudo cozido achei que não me faria mal. E não fez.

Fui depois visitar a mesquita Istiqlal que é a maior do sudeste asiático. Impressionante em tamanho mas, pelo menos por fora, sem graça nenhuma. Em Jakarta não se vêm turistas nas ruas e muito menos na mesquita, de maneira que quando passei os enormes portões que dão acesso aos jardins que circundam a Istiqlal senti-me um pouco desconfortável, principalmente por estarem ali enormes grupos de jovens com as bandeiras e panos pretos na cabeça que tinha visto duas horas antes junto ao Nasional Monument.

Perguntei a uns deles o que representava aquela manifestação e, num inglês muito fraco, lá me explicaram que era a favor do movimento Hizbut Tahrir que defende a existência de um único Estado Islâmico no mundo, um Califato, sujeito a um único líder eleito, um Califa, que aglomeraria todos os estados Islâmicos atuais e a partir daí converteria todos os outros ao Islamismo. O grupo foi formado em 1953 na Palestina, é contra a existência de Israel e embora seja proibido em vários países, ganhou nova força com a guerra na Síria, onde são um dos movimentos que lutam contra o regime. Dizem não ter nada a ver com o auto denominado Estado Islâmico, que tanto tem aparecido nas notícias, mas pelos vistos compartilham algumas das ideias.

Estive uma meia hora numa interessante conversa com eles mas comecei a sentir-me desconfortável quando se juntou muita gente à nossa volta, principalmente porque eu era o único estrangeiro naqueles terrenos da mesquita onde estavam muitas centenas de pessoas. A situação ainda se tornou mais estranha quando um rapaz me veio agarrar a mão e a beijou. Achei que era altura de partir e despedi-me dos estudantes.

Do outro lado da rua desta enorme mesquita existe uma imponente catedral católica, que tinha sido mandada construir por Napoleão, quando ocupou a Holanda e com isso as suas colónias e reconstruída pelos holandeses entre 1899 e 1901. Entrei para ver. Estava arrumada e bem tratada mas não tinha uma única pessoa dentro.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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