Um mergulho na ilha Phi Phi

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Hoje, acordei já perto das dez, tomei o pequeno-almoço num restaurante a 300 metros de casa e, antes de deixar Phuket, ainda me fui despedir da menina, tão querida, com quem tinha estado ontem à noite.

Na noite passada ainda tive um episódio caricato quando, na rua dos bares, decidi tirar uma fotografia a dois travestis espampanantes, de plumas e saltos altos. Uma delas pediu-me para lhe dar 100 bahts e ficou furiosa por eu recusar, deixando de fazer a pose. Quando estavam distraídas com outros turistas, tirei a fotografia mas ela, ao ver, veio ter comigo e espetou-me as unhas na mão. Não lhe dei uma lambada porque tinha o dobro do meu tamanho e, no fundo, não saberia bem se estaria a bater num homem ou numa mulher.

Ao arrancar segui um trajeto indicado pelo meu amigo Ernest em que passei numa estrada de montanha linda, pelo meio das altíssimas rochas cobertas de vegetação que há nesta região e que formam uma paisagem exuberante.

Pelas quatro da tarde cheguei a Krabi, local onde tinha previsto ficar. Como a praia estava quase deserta e a areia dura, da maré vazante, desci a moto até ao areal e acelerei à beira mar pela magnífica praia.

Parei depois para almoçar, numa esplanada sobre o mar, o que me pareceu ser um choco gigante. Tinha um aspecto fantástico em cru, mas ficou muito duro depois de assado nas brasas.

Tratei de procurar onde ficar e acabei por voltar a instalar-me num “bungalow” de um parque natural aqui junto à praia. A menina da receção indicou-me que a password para o wifi era Phi Phi e perguntei-lhe se havia aqui maneira de chegar à ilha. Disse-me que o porto de onde saía um barco todas as manhãs para a paradisíaca ilha era mesmo ali, nas traseiras da receção, de maneira que tratei logo de comprar um bilhete para o barco do dia seguinte.

Pelas seis da tarde, com o sol a pôr-se mas uma temperatura de mais de 30º ainda fui dar um mergulho. A maré estava muito vazia, de maneira que andei pela praia de areia muito fina, quase terra, uns bons 200 metros antes de entrar na água e depois outros tantos, com água pelo joelho, até ter profundidade suficiente para poder tomar banho. Olhei para o lado e estava mais afastado da costa que duas ilhas dos seus 2 e 5 hectares que tinham quase deixado de ser ilhas, de tal forma baixou a maré. Uma visão deslumbrante com a água, onde apenas quatro ou cinco crianças brincavam, quase à temperatura ambiente.

Jantei por ali e deitei-me cedo.

A viagem de barco até à ilha Phi Phi, que demora cerca de hora e meia, é espetacular. Passamos por entre muitas pequenas ilhas desabitadas e, pelo caminho, o barco chega mais perto da costa noutro local, para embarcar mais pessoas que fazem o transbordo de pequenas canoas motorizadas, das muitas que têm aqui como motores de carro a diesel, instalados na traseira, que fazem a refrigeração através de um sistema com tubos onde circula água doce que mergulham na água do mar na parte de trás do barco. A saída da cambota liga diretamente a um longo veio, dos seus três ou quatro metros de comprimento, na ponta do qual está a hélice. O sistema não prevê marcha atrás e o ponto morto faz-se com o piloto a inclinar o conjunto motor/ventoinha para a frente, tirando-a fora de água. Engenhoso e eficiente.

A mulher da recepção em Krabi tinha-me dito que não teria problemas em encontrar onde ficar na ilha Phi Phi e, de facto, mal desembarcamos somos invadidos com propostas que variam entre pensões de 12 euros por noite a fabulosos hotéis, com “bungalows” em cima de praias desertas por 150 euros.

Fiquei-me por uma de 25 euros, bera mas junto a uma praia onde os bares com música “chill out” durante o dia e cadeiras onde ficar a ler e torrar ao sol se transformavam à noite em locais de festa e animação.

Ali não circulam veículos motorizados, à exceção de duas ou três “scooters” da polícia, de maneira que andamos do porto para os hotéis a pé, acompanhados de miúdos que, nuns carrinhos de mão, transportam as malas. Para alguns locais da ilha só se vai de barco.

Instalei-me na praia a tomar banhos sem fim naquelas águas paradas e quentes e almocei por ali. Adormeci depois ao sol e apanhei um escaldão na cara e careca como não me lembrava de alguma vez ter apanhado.

À noite, quando regressava do jantar, vinha a caminhar junto a um estrangeiro dos seus 40 anos quando as meninas de uma das casas de massagens nos chamaram. “É para si” disse-me ele. “Não. Pareceu-me ser para si”.

Conversa puxa conversa decidimos ir beber uma cerveja a um dos bares da praia. O Jeremy tem um trabalho curioso: Especializou-se nos Estados Unidos em “half pipes” e constrói-os contratado pelas estâncias de esqui. Esteve em trabalho na Austrália, onde eu não fazia ideia que existiam pistas de esqui, e ali passava férias antes de partir para um novo contrato na Suiça, onde passaria o inverno.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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