Volta ao mundo de moto: Uma tempestade num parque de campismo da Austrália

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Os australianos que vivem fora das cidades, aliás como na maioria dos países, são muito simpáticos.

Estava ainda a instalar a tenda neste parque de campismo com uma situação fantástica sobre um rio quando veio uma vizinha fazer conversa. Lá partiu e passado pouco tempo apareceu outra:

– “You must be very tired. Will you join us for tea?”

– “Yes, sure”

Já eram seis e meia da tarde e achei estranho estar a convidar-me para tomar chá mas, conforme combinado, fui ter à roulotte da senhora quando acabei de montar a tenda. Só quando lá cheguei me lembrei que estes velhos chamam “tea” ao jantar. Lá estava ela a cozinhar uns legumes e bacon fantásticos e fiquei com aquele casal muito simpático a jantar debaixo do toldo que tinham montado junto ao rio. Muito bom.

Pelas nove da noite despedi-me e fui até à cozinha do acampamento, que nestes sítios funciona também como sala de reunião, com o computador debaixo de braço. Apareceu um gordo, divertido, com ar mais latino que australiano a perguntar de onde eu tinha surgido. Ficámos à conversa e pouco depois juntou-se a nós a mulher e outro casal amigo. Faziam parte de um grupo maior de amigos, mais de 40 casais, que todos os meses se juntavam, entre 20 a 30, para acamparem com as suas roulottes em diferentes parques do país.

Quando eles partiram para as suas casas ambulantes, pelas dez da noite, pude finalmente abrir o computador. Estava a ajudar a minha filha num trabalho para a Universidade quando se abateu sobre o acampamento uma tempestade, como ainda não tinha apanhado na Austrália, com chuva e ventos fortes.

Corri para a tenda debaixo de chuva porque tinha deixado a porta aberta. Entrei apressadamente, atirei o blusão encharcado que trazia sobre a cabeça para um canto e caiu em cima da almofada. Fechei a tenda com a chuva e vento a aumentarem de intensidade e voltei a ligar o computador para continuar com o trabalho. Pouco tempo depois acabou-se-me o crédito de internet. Li um pouco e adormeci pelas onze da noite, embalado pelo som do vento e chuva a baterem na tenda. Acordei às duas da manhã com a lateral da tenda a bater-me contra a cara. O vento tinha aumentado de intensidade e comecei a imaginar-me a levantar voo com a tenda. De vez em quando espreitava cá fora para ver se o rio, a não mais de meio metro abaixo do relvado, não teria aumentado de caudal a um ponto de entrar pelo parque dentro. Comecei a ter que segurar com as mãos a lateral da tenda com medo do seu colapso eminente. Assim fiquei até à seis da manhã, quando parou de chover mesmo com o vento a continuar a bater forte. Saí cá fora, coloquei a moto numa posição para proteger um pouco a tenda do vento e, estafado, fui tomar um duche quente. Voltei para a tenda e consegui dormir mais duas horas. Quando acordei a tempestade tinha passado.

As minhas vizinhas vieram perguntar-me como tinha passado a noite.

– “How terrible. I thought about you during the night”