Elon Musk é um visionário. Ou pelo menos, é assim que ele se vê. O empresário americano de origem sul-africana é um caso raro de uma celebridade da Internet que deu o salto para se tornar mundialmente famoso, graças ao sucesso da PayPal e ao estatuto de “cult hit” da Tesla Motors. Agora, pretende deixar o seu lugar na história com a criação do Hyperloop.

O Hyperloop surge, de acordo com a visão de Musk, da necessidade de fazer um transporte público capaz de cobrir grandes distâncias por uma fração do tempo atual. Musk fala em tempo de viagem de 35 minutos entre Los Angeles e San Francisco, na Califórnia, por apenas 20 dólares. Um voo dura uma hora e quinze minutos e custa mais de 150 dólares. O investimento projectado é de apenas 6000 milhões de dólares (um décimo do que custou a nova linha de comboio de alta velocidade da Califórnia), e seriam transportadas 840 pessoas por hora. O transporte de mercadorias está planeado para 2020 e o de passageiros para 2021.

Para conseguir esta redução de tempo, Elon Musk propõe o uso de carris magnéticos e um tubo de vácuo de 560 km, para ser atravessado a velocidade supersónica (1220 km/h). Uma ideia interessante, que deixou o público entusiasmado por trazer mais um conceito de ficção científica para realidade. No entanto, as críticas começaram a chover logo em 2013, com vários especialistas na área dos transportes a considerarem as perspetivas de Musk irrealistas, tanto em termos práticos, como financeiros. Em particular, foram criticadas as capacidades de transporte de 28 pessoas e o lançamento de novas cápsulas a cada 30 segundos, quando são necessários 70 segundos para uma travagem desde velocidade supersónicas.

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É claro, para engenheiros estas críticas só ajudam ao desafio. Para começar, a melhor maneira de reduzir os custos iniciais de desenvolvimento é garantir que meio mundo ajuda. E, ao fazer o projeto na Califórnia, Elon Musk conseguiu arregimentar as melhores mentes saídas das universidades locais ou que estão a trabalhar em Silicon Valley. Como rebuçado, a tecnologia não é patenteada e está a ser desenvolvida como open source, não envolvendo pagamento de direitos industriais.

O pagamento aos envolvidos no projetos seria assegurado através de participação na empresa responsável pela exploração comercial, com muitas interessados em usar a tecnologia. Na Califórnia, a Hyperloop One, composta por associados de Elon Musk, é a principal investidora no projeto. Além da rota entre Los Angeles e San Francisco, tem também propostas para fazer projetos semelhantes no Dubai e em Moscovo.

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Até há pouco tempo, a principal rival da Hyperloop One era a HTT (financiada por “crowd funding”) serve para espicaçar a rival, trabalhando não só na Califórnia,  mas também com interesse vindo de Abu Dhabi, da Eslováquia (Bratislava serviria como ponto de ligação entre Viena e Budapeste) e de França, em Toulouse. No entanto, nos últimos meses, Brogan BamBrogan saiu da Hyperloop One após desentendimentos com os sócios e, depois de vencer uma ação em tribunal, criou o seu projeto a solo, a Arrivo.

Noutros países, a TransPod pretende ligar as cidades canadianas de Montreal e Toronto, e na Europa projetos surgiram da parte da Delft (ligando Paris a Amesterdão) e Hyper Poland (com um projeto entre Varsóvia e Gdansk, idealizado num projeto universitário).

Todas as partes envolvidas no desenvolvimento da tecnologia estão a trabalhar contra o relógio para trazer os projetos da mesa para o mundo real o mais depressa possível. No início de 2016, Elon Musk tinha dado corpo a uma competição, o Concurso de Design Hyperloop, para criar o primeiro veículo protótipo, com os resultados a serem apresentados este ano, num concurso que teve lugar há duas semanas.

Foram escolhidos 27 projetos, todos de origem universitária, para construir uma cápsula capaz de circular no tubo de ensaio, de um quilómetro e meio. No entanto, apenas três projetos acabaram por ter um projeto funcional, e os resultados finais foram… dececionantes. O melhor que uma das cápsulas fez foi 50 metros, à velocidade equivalente a um metropolitano convencional. O engenheiro britânico Phil Mason, cujo canal thunderf00t foi um dos primeiros a fazer divulgação científica no YouTube, já tinha feito um vídeo a explorar as deficiências do conceito, analisou o falhanço do Concurso de Design.

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O sarcasmo de Mason à parte, Elon Musk está a colocar demasiada pressão no projeto. O que este resultado conclui é que a tecnologia ainda necessita de mais tempo para ser prática. O sucesso da PayPal resultou de uma convergência de interesses (Musk tinha abandonado o seu próprio projeto de pagamentos online para investir num rival mais funcional), numa área onde Musk era um especialista. Os carros da Tesla não são revolucionários, mas sim o resultado de evolução incremental, aproveitando uma tecnologia que é cada vez mais prática, e ainda são vendidos como objetos de luxo, de natureza exclusiva.

Mas projetos como o SpaceX e agora o Hyperloop necessitam de investimentos a que a sociedade civil tem mais dificuldade em aceder, e também precisam que a tecnologia amadureça para permitir que se tornem realmente alternativas práticas para o grande público. Musk está habituado a gerar interesse pelos seus projetos expondo-os aos media, mas neste caso o resultado foi prematuro.

M. Francis Portela

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