No território do PKK e dos bebedores de chá

Ontem ao fim do dia, quando estava a arrumar a moto em cima do passeio, em frente ao hotel, voltei a cair. Ia em primeira pelo passeio, devagar e, para desviar de umas pessoas encostei demais a um pilar de cimento, bati com a mala esquerda no pilar e…. pumba, saltou a mala fora e eu caí para a direita. Felizmente só se partiu o suporte inferior da mala mas está lá no sítio e veio bem.

O dono do hotel convidou-me para jantar com mais um amigo e ficámos na conversa até tarde. Falavam os dois inglês. Já tinha saudades de ter uma conversa sem ser por gestos.
De manhã, quando saí do hotel, pelas 10.30, duas miúdas, por acaso bem giras, saíam do cabeleireiro ao lado com o ar de quem vinham de fazer um penteado lindo.

Com elas um tipo com mau aspecto que mandou uma afastar-se para eu passar. Até aqui tudo normal naquela cultura. O caricato é que as duas miúdas eram daquelas que usam um lenço a tapar a cabeça. E não o usam só para andar na rua. Quando o têm é para não o tirarem quando vão ao restaurante ou, calculo, quando têm alguém a jantar em casa.

Ou seja, o penteado maravilhoso é para ser visto não se sabe bem por quem. O que faz confusão é que nem todas andam com a cabeça tapada. Algumas andam vestidas à ocidental sem nada na cabeça enquanto as mulheres mais velhas e as novas com pais mais radicais vestem túnicas pretas com a cara tapada e só os olhos à vista.
O dia de hoje foi um passeio lindo. A cidade onde estava, Erzurum, fica num planalto, a 2000 metros de altitude. Comecei por rodar uns 150 Km nesse planalto, no meio de uma serra onde por vezes subia a mais de 2500 metros, para depois descer, junto a um rio, para perto do nível do mar, com a paisagem a ganhar alguns verdes e acabar num enorme lago.

Antes de descer do planalto o GPS enviou-me por uma estrada secundária onde poupava cerca de 30 Km. Hesitei mas acabei por aceitar o pedido do aparelho e andei por uma estrada primeiro muito estreita de mau piso para depois passar para uma em reparação onde cerca de 10 Km eram em terra com muita gravilha solta. Neste tipo de piso a “Cross Tourer” com estes pneus de estrada fica difícil de guiar porque vai como que a flutuar em cima da gravilha, a escorregar muito. Já estava habituado à situação e sabia que não podia ir devagar de mais. Correu tudo bem.
Rodei depois junto ao lago, com mais uma paisagem fantástica, com o lago dum lado e montanhas com neve no topo do outro.

Como já estou perto da fronteira iraniana, além de às vezes haver aqui ações revoltosas dos curdos do PKK, voltei a encontrar uma operação stop feita por militares armados mas, não me acharam com ar de terrorista, e mandaram-me seguir viagem. Vi aqui na net que tinham prendido na região 22 membros do PKK nas ultimas 24 horas. Aliás tenho a impressão que tenho aqui uma reunião política na sala do hotel manhoso a que vim parar, como de costume. Tive que vir para a sala porque a internet não funciona no quarto e estão três homens numa grande discussão em que a única coisa que percebo é Arafat. Um deles fala muito do Arafat. Deve estar a dizer: “quando o Arafat era vivo ajudava-nos sempre. Agora é uma desgraça, ninguém nos apoia e ainda acabamos presos”.
Muito chá bebem estes tipos. Qualquer motivo é bom para mais um chá. Já beberam três cada um. Eu que não bebia chá lá me tenho safado a beber só três ou quatro por dia porque às vezes não posso mesmo recusar. Agora já está aqui mais um copo à minha frente. Vou disfarçar.
Amanhã vou tentar passar a fronteira para o Irão, mesmo se ainda não tenho o Carnet da moto. Se não me deixarem terei que me instalar numa cidade deste lado da fronteira a esperar pela chegada do Carnet, que estão a tratar aí na Honda.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica diariamente o seu livro de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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Francisco Sande e Castro

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