Os trágicos amores de Monsieur Chatard

Um original e três cópias. Como todas as obras de arte, sobretudo as mais valiosas, o Bugatti Atlantic está envolto em mistério e lenda que vão desde as paixões de René Chatard até ao objeto de coleção do estilista Ralph Lauren.

O amoroso Monsieur René Chatard provavelmente teria passado por uma vida galante de bon vivant sem deixar marca para a posteridade e estaria longe de imaginar que o seu nome acabaria por ficar ligado de forma trágica à história de um carro de culto.

René Chatard, homem próspero e generoso nos souvenirs d`amour, comprou um Bugatti Atlantic Type 57C para a sua amante e foi precisamente ao volante desse carro que morreu em 1955, abalroado por um comboio, quando dava umas graciosas aulas de condução a uma nova conquista.

Os destroços do Bugatti ficaram a apodrecer na estação de Gien até serem vendidos a um sucateiro, onde foram descobertos em 1965 por André Berson que passou os dez anos seguintes a recuperá-lo. No exclusivo e elitista concurso de elegância de Villa d`Este de 2000 foi comissionado um minucioso trabalho de restauro ao grande especialista Paul Russel que devolveu a integridade original do chassis 57473, “The Holzschuch car”, como é conhecido, por causa do nome dos seus primeiros proprietários – um casal de idosos, que acabou por se desfazer dele por não ser propriamente o mais confortável dos carros.

Mas o que torna este Bugatti tão especial que permite que alguns dos seus antigos proprietários passem do anonimato à posteridade na história do automóvel?
Mais do que a raridade – apenas quatro foram construídos – o Bugatti Atlantic Type 57 é uma das obras-primas do design e arte automóvel do Séc. XX.
Se o escultor Rodin desenhasse carros, tinha desenhado um assim.

Coup de grace

Na ressaca da Grande Depressão e quando já soavam os clamores da II Guerra Mundial, a Bugatti precisava de fazer um gesto de afirmação de poder e supremacia, que mantivesse as criações da marca como símbolos de exclusividade, requinte e elitismo.
Ettore Bugatti, fundador da marca e genial designer de automóveis, costumava dizer que “Nada é demasiado bonito, nada é demasiado caro”. Mas “Le Patron” estava naquela época a passar as rédeas da empresa para um dos seus quatro filhos, Jean, que depois de ter sido impedido pelo pai de ser corredor de automóveis, dedicou-se a desenhá-los.
Em boa hora, porque numa época que os Talbot-Lago eram o supremo objeto de desejo automóvel na Europa, a Bugatti precisava de um golpe de génio para recuperar o seu estatuto de rainha das marcas de luxo.
Em 1935, o protótipo original – Competition Coupé Aerolithe – foi apresentado nos salões automóveis de Paris e de Londres e o seu design arrebatador e futurista, em conjunto com a sua mecânica poderosa, consubstanciada num motor de oito cilindros em linha 3.3 DOCH, formalizavam aquele que é consagrado por muitos historiadores do automóvel – como o primeiro superdesportivo de estrada.
Função e forma sintetizados num carro que pela primeira vez interpretava a aerodinâmica como leitmotiv do design – em forma de lágrima – uma interpretação estética e funcional que influenciou o futuro do design automóvel.
Foram apenas produzidos mais três “cópias” da original escultura sobre rodas, simplesmente chamados “Aero” com uma carroçaria fabricada numa liga de magnésio e alumínio – que o tornava leve, mas também inflamável.

O original de Ralph Lauren e a cópia de Jay leno

O primeiro carro de produção foi vendido em 1936 a Lord Philippe de Rotschild, gentleman racer e um dos homens mais ricos do mundo. Em 2010, o Museu Automóvel de Mullin na Califórnia arrebatou em leilão este exemplar por 40 milhões de dólares, batendo o recorde de carro mais caro do mundo que era pertença de um Ferrari 250 Testa Rossa de 1957.
O segundo carro – e o primeiro a ser batizado como Atlantic foi vendido oito meses mais tarde ao simpático casal Holzschuch, que o acabou por trocar por um mais convencional e confortável Bugatti Type 57. O terceiro e último Aero – o Bugatti Pope, foi vendido a um negociante britânico, R.B. Pope que era um homem alto e usava chapéu, e por isso pediu para a carroçaria ser levantada uns centímetros. Este exemplar é agora propriedade do estilista americano Ralph Lauren que o costuma exibir no Concurso de Elegância de Peeble Beech.

Dada a sua raridade, alguns colecionadores não se importam de ter uma cópia feita com alguns componentes originais. É o caso do comediante americano e furioso entusiasta de automóveis, Jay Leno.
Que diria o pobre Monsieur Chatard se soubesse que os seus trágicos amores lhe valeriam tão ilustre companhia na história?

Rui Pelejão

 

Grande Turismo

Share
Published by
Grande Turismo

Recent Posts

Kia Seltos para quem só quer gasolina

Para uma marca com 18 modelos lançados no mercado nacional, o Seltos a gasolina complementa…

2 hours ago

Vendas de elétricos Mercedes-Benz Cars crescem 51%

Por regiões, regista-se um aumento de vendas global da Mercedes Cars na Europa, na ordem…

2 hours ago

CEO da Volkswagen: “Há soluções mais inteligentes do que fechar fábricas”

Oliver Blume analisou o momento difícil do grupo, que conta com planos para despedir até…

4 hours ago

Espanhol Marc Marquez vence corrida sprint de MotoGP na Alemanha

O campeão do mundo em título liderou a corrida de início ao fim e confirmou-se…

1 day ago

Polestar com crescimento de 22% nas vendas no 1º semestre

O Polestar 4 é o principal produto impulsionador da marca.(Foto: Polestar) A Polestar, uma marca…

2 days ago

Paisagem espanhola inspira o novo Bentley Torcal

O Torcal será a quarta linha de modelos e fará parelha com o Continental GT,…

3 days ago