Os trágicos amores de Monsieur Chatard

08/02/2017

Um original e três cópias. Como todas as obras de arte, sobretudo as mais valiosas, o Bugatti Atlantic está envolto em mistério e lenda que vão desde as paixões de René Chatard até ao objeto de coleção do estilista Ralph Lauren.

O amoroso Monsieur René Chatard provavelmente teria passado por uma vida galante de bon vivant sem deixar marca para a posteridade e estaria longe de imaginar que o seu nome acabaria por ficar ligado de forma trágica à história de um carro de culto.

René Chatard, homem próspero e generoso nos souvenirs d`amour, comprou um Bugatti Atlantic Type 57C para a sua amante e foi precisamente ao volante desse carro que morreu em 1955, abalroado por um comboio, quando dava umas graciosas aulas de condução a uma nova conquista.

Os destroços do Bugatti ficaram a apodrecer na estação de Gien até serem vendidos a um sucateiro, onde foram descobertos em 1965 por André Berson que passou os dez anos seguintes a recuperá-lo. No exclusivo e elitista concurso de elegância de Villa d`Este de 2000 foi comissionado um minucioso trabalho de restauro ao grande especialista Paul Russel que devolveu a integridade original do chassis 57473, “The Holzschuch car”, como é conhecido, por causa do nome dos seus primeiros proprietários – um casal de idosos, que acabou por se desfazer dele por não ser propriamente o mais confortável dos carros.

Mas o que torna este Bugatti tão especial que permite que alguns dos seus antigos proprietários passem do anonimato à posteridade na história do automóvel?
Mais do que a raridade – apenas quatro foram construídos – o Bugatti Atlantic Type 57 é uma das obras-primas do design e arte automóvel do Séc. XX.
Se o escultor Rodin desenhasse carros, tinha desenhado um assim.

Coup de grace

Bugatti_57SC_Voiture_Noire_

Na ressaca da Grande Depressão e quando já soavam os clamores da II Guerra Mundial, a Bugatti precisava de fazer um gesto de afirmação de poder e supremacia, que mantivesse as criações da marca como símbolos de exclusividade, requinte e elitismo.
Ettore Bugatti, fundador da marca e genial designer de automóveis, costumava dizer que “Nada é demasiado bonito, nada é demasiado caro”. Mas “Le Patron” estava naquela época a passar as rédeas da empresa para um dos seus quatro filhos, Jean, que depois de ter sido impedido pelo pai de ser corredor de automóveis, dedicou-se a desenhá-los.
Em boa hora, porque numa época que os Talbot-Lago eram o supremo objeto de desejo automóvel na Europa, a Bugatti precisava de um golpe de génio para recuperar o seu estatuto de rainha das marcas de luxo.
Em 1935, o protótipo original – Competition Coupé Aerolithe – foi apresentado nos salões automóveis de Paris e de Londres e o seu design arrebatador e futurista, em conjunto com a sua mecânica poderosa, consubstanciada num motor de oito cilindros em linha 3.3 DOCH, formalizavam aquele que é consagrado por muitos historiadores do automóvel – como o primeiro superdesportivo de estrada.
Função e forma sintetizados num carro que pela primeira vez interpretava a aerodinâmica como leitmotiv do design – em forma de lágrima – uma interpretação estética e funcional que influenciou o futuro do design automóvel.
Foram apenas produzidos mais três “cópias” da original escultura sobre rodas, simplesmente chamados “Aero” com uma carroçaria fabricada numa liga de magnésio e alumínio – que o tornava leve, mas também inflamável.

O original de Ralph Lauren e a cópia de Jay leno

O primeiro carro de produção foi vendido em 1936 a Lord Philippe de Rotschild, gentleman racer e um dos homens mais ricos do mundo. Em 2010, o Museu Automóvel de Mullin na Califórnia arrebatou em leilão este exemplar por 40 milhões de dólares, batendo o recorde de carro mais caro do mundo que era pertença de um Ferrari 250 Testa Rossa de 1957.
O segundo carro – e o primeiro a ser batizado como Atlantic foi vendido oito meses mais tarde ao simpático casal Holzschuch, que o acabou por trocar por um mais convencional e confortável Bugatti Type 57. O terceiro e último Aero – o Bugatti Pope, foi vendido a um negociante britânico, R.B. Pope que era um homem alto e usava chapéu, e por isso pediu para a carroçaria ser levantada uns centímetros. Este exemplar é agora propriedade do estilista americano Ralph Lauren que o costuma exibir no Concurso de Elegância de Peeble Beech.

ralph-lauren-and-his-1938

Dada a sua raridade, alguns colecionadores não se importam de ter uma cópia feita com alguns componentes originais. É o caso do comediante americano e furioso entusiasta de automóveis, Jay Leno.
Que diria o pobre Monsieur Chatard se soubesse que os seus trágicos amores lhe valeriam tão ilustre companhia na história?

Rui Pelejão

 

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