Uma pizza com um apache e uma Cuba na América

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Deixei Monument Valley pelas onze da manhã em direção a Oriente, através de longas retas traçadas no deserto. Fiz um pequeno desvio para passar em “Four Corners”, o único ponto nos Estados Unidos onde quatro Estados se encontram, os de Utah, Colorado, Arizona e New México. Isto é território Índio, que apanha grande parte do Arizona e regiões dos outros três estados.

Nos séculos XIX e XX houve vários acordos feitos entre o governo dos Estados Unidos e diversas tribos de Índios para definirem qual o território que eles poderiam ocupar mas tem havido sempre contestações por parte dos Índios. O que aconteceu na prática foi que os Estados Unidos deixaram para os índios, na sua grande maioria, terreno de deserto, estéril e seco, onde nem erva daninha cresce. Nalguns locais foi descoberto gás natural, os índios montaram algumas industrias e uns poucos fizeram fortuna mas a maioria da população dos Native Americans, como eles gostam de ser chamados, vive com muito pouco. Eles são totalmente diferentes dos americanos, não só na cultura como na maneira de pensar e agir. São muito espirituais e dão imensa importância à terra em si, onde os seus antepassados viveram e os descendentes hão de viver. Nunca aceitaram a ideia de lhes terem ocupado as terras que consideravam suas, não como propriedade física mas como local onde viveriam ao ritmo a que estavam habituados, de há muitas centenas de anos a esta parte. Não dão grande importância aos bens materiais mas, como qualquer mortal, gostam de ter o mínimo para viver. Por tudo isso sentimos uma certa infelicidade na expressão da maioria. São pessoas frias e à primeira vista parecem antipáticos mas quando falamos um pouco com eles percebemos que são boa gente. O índio que me atendeu no parque de campismo era tão frio e antipático que me fez lembrar os franceses que, com um pouco de conversa mudam de atitude.

Os americanos, de um modo geral, são o oposto. Simpáticos no primeiro contacto dizem-nos logo: Olá, como está você hoje? De onde vem? Para onde vai? Mas no fundo sabemos que obviamente se estão nas tintas para como nos sentimos naquele dia ou de onde e para onde vamos. Claro que é simpático da parte deles, mas as frases saem-lhes da boca para fora automaticamente, sem qualquer sentimento. A partir de ali a conversa raramente se aprofunda, porque os atrapalha, sem saberem como reagir.

As tribos, principalmente os Navajo e os Apache, os mais numerosos, sem poderem cultivar as terras que lhes calharam, dedicam-se a negócios pouco lucrativos de produção de colares e artefactos que vendem aos turistas, enquanto o seu governo recebe os impostos sobre a gasolina que se vende no território para além de explorarem os poucos locais turísticos existentes na região, cujo maior será Monument Valley, mas sem jeito nem convicção.

Quando deixei “Four Corners” parei na primeira cidade que encontrei, para almoçar qualquer coisa. Era Shiprock, uma pequena cidade dos Navajo, com menos de 9000 habitantes. Fui a uma pizzaria comprar uma dose com quatro fatias mas só tive fome para duas. Quando saí com a caixa na mão tentei procurar um Índio a quem a dar mas não foi evidente. Eles são incapazes de pedir, mas acabei por a oferecer a um que veio fazer conversa por causa da moto e ficou radiante, dando-me um forte abraço. Quando parti um outro viu a cena e veio-me perguntar se não tinha sobrado pizza. Arrependi-me de não ter ido comprar outra para este último mas só pensei nisso quando já tinha arrancado.

Passados uns quilómetros a caminho do Sul passamos por uma placa que indica território Apache. Nesse dia fui ficar a Cuba, a umas 70 milhas de Albuquerque. A senhora do Motel era espanhola mas de início até pensei que fosse cubana e perguntei-lhe se a terra se chamava Cuba por ter muitos cubanos.

– Não, aqui não vivem cubanos, mesmo se muitos vêm da Florida para aqui se casarem por causa do nome da terra. Penso que se chama assim porque em tempos idos era um local com muita água e portanto designaram-no como um depósito de água, “una Cuba de água”.

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