De San Francisco a San José, perdido nas montanhas

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

A moto desta vez vinha só com o vidro da carenagem e os retrovisores desmontados pelo que tratei eu de acabar de a desencaixotar e montar aquelas peças. Fui com um empregado da agência comprar óleo e gasolina, que tinham sido retirados para o transporte e, pelas quatro da tarde estava a caminho de regresso ao Fisherman’s Wharf em San Francisco.

No dia seguinte ainda fiz uma visita guiada à imprescindível prisão de Alcatraz, situada numa ilha na baía e onde Al Capone e outros famosos criminosos estiveram presos. Fechou em 1963 porque chegaram à conclusão que saía demasiado cara manter. A curiosidade foi que, em 1969, pouco depois do movimento hippie a favor da paz no mundo e contra a Guerra no Vietname fazer furor, um grupo de umas centenas de Índios resolveram ocupar Alcatraz como protesto por os terem corrido das suas terras. Ali estiveram durante quase um ano até os mandarem embora, mas a ocupação chamou a atenção para a causa dos Índios e obrigou o governo Americano a devolver-lhes um local onde viverem, mantendo as suas tradições e costumes. Aqui, tal como na Austrália, também houve uma época em que o governo decidiu retirar as crianças índias às famílias, para as educarem como ocidentais.

Nesse mesmo dia parti a caminho de Sacramento, a pouco mais de cem quilómetros, para visitar um museu de carros antigos e uma exposição do que aqui chamam RV’s e que são as motorhome americanas “que me encantan” como diria se fosse espanhol.

Na saída de San Francisco atravessei a “Golden Gate Bridge” que é muito parecida com a nossa sobre o Tejo, mas mais antiga e curta, com pilares mais elaborados e a vantagem de passeios pedestres e para bicicletas que proporcionam passeios com excelente vista.

Sacramento é uma pequena cidade limpa e bem organizada com um imponente edifício camarário, mais uma vez a replicar construções romanas de outros tempos, e uma parte da cidade antiga com casas baixas e bares, muitos deles em madeira, a fazer lembrar as dos filmes de cowboys. O museu tinha pouco interesse mas as RV’s eram extraordinárias.

No dia seguinte deixei Sacramento a caminho da costa Sul pois a minha ideia é passar em Los Angeles, descer até San Diego e depois ir para o interior em direção a Las Vegas.

Apanhei a estrada principal para Sul mas, como queria seguir junto à costa, mal passei o que calculei ser a latitude de San Francisco procurei uma estrada que me levasse para ocidente. Tinha gasolina para uns 80 Km e, pelo mapa, pareceu-me que o trajeto através de uma cadeia montanhosa teria uns 50 Km. Meti por uma estreita estrada em direção à serra, mas felizmente acabava numa cabine de guardas 10 Km depois. Disseram-me que a estrada não tinha fim e ia dar só a um clube de golf.

O guarda disse-me que junto à estrada principal havia outra, paralela a esta, que atravessava a serra até à costa. Voltei para trás e desta vez fui à procura de gasolina antes de me aventurar pela estreita estrada deserta. Já reabastecido comecei então a subir a serra, de vegetação seca, mas passados 50 Km através desta estreita estrada muito sinuosa e deserta, constatei que a distância era muito superior ao que tinha calculado. As montanhas seguiam-se umas às outras, a velocidade média era baixa e começou a anoitecer. Não passava um único carro por mim.

Pelo meio vi vários veados a atravessarem a estrada, assustados com o barulho da moto. Por fim, no alto da serra, um observatório astrológico e, a uns cem metros, uma pequena casa com um painel à porta que dizia: “Observational Astronomy Workshop. Graduate Students Check-in”. Parei. A porta estava aberta e entrei. Chamei por alguém mas sem resposta abri outra porta de onde ouvia vozes de jovens. Estava um grupo de uns vinte a jantar em amena conversa. Um responsável que teria menos de 40 anos, veio ter comigo. Perguntei se não tinham um quarto que alugassem onde pudesse passar a noite. Disse-me que não, que aquilo estava reservado a cientistas. Estive quase para dizer que era um deles. Disse-me que já só estava a pouco mais de uma hora da costa de maneira que voltei à estrada e, três quartos de hora depois, cheguei a San José, mais a norte do que estava à espera. Encontrei um motel e por ali fiquei.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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