De um beijo no concerto de Neil Young à Trump Tower de Las Vegas

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Quando o concerto do Neil Young estava perto do fim e eu ainda noutro planeta com aquilo tudo, um casal de namorados veio para o pé de mim. Ela era gira, nos seus 37, 38 anos, cabelo curto e feições quase perfeitas.

Pôs-se a dançar ao meu lado e, às tantas, perguntou-me o nome e começou a bater o rabo contra o meu ao som da música. Olhei para o namorado a ver se não estava a levar a mal mas parecia não o afetar. Até que a rapariga se agarrou a mim e assim ficou um momento. Depois, com a cara encostada à minha, disse-me ao ouvido:

– Não o posso largar porque você está a passar-me muita energia positiva.

– E o seu namorado não se importa que eu lhe passe toda essa energia positiva?

– Não.

E afastando um pouco a cara e virando-a na direção da minha disse:

– Olhe para a lua. Não está linda? Parece que tem anéis à volta.

– Está

E beijámo-nos.

O namorado achou naturalíssimo. Sim, com aquela lua percebe-se.

Passámos a dançar agarrados um ao outro.

Quando o Neil Young acabou o espetáculo, perguntou-me se não queria ir beber um copo com eles mas achei melhor recusar.

Arranquei de Índio no dia seguinte, a caminho de Las Vegas.

A maior parte do trajeto é através de um espetacular deserto, num planalto de terra com montanhas ao longe. A estrada tem pouco movimento e por vezes passa junto a uma linha férrea onde comboios com quilómetros de comprimento, por vezes com uma locomotiva em cada ponta, transportam centenas de contentores.

Percorri pouco mais de 400 Km até Las Vegas. Cheguei ainda de dia, deixei a moto no Hotel e fui até ao centro observar aquele folclore e deixar uns tostões numa qualquer roleta. Ainda a caminho do hotel passei pela agora famosa Trump Tower e não resisti parar, para tirar uma fotografia.

A cidade tem uma vida noturna imparável e os Hotéis e Casinos parecem fazer concursos para ver qual é mais extravagante. O Bellagio tem um enorme lago em frente onde centenas de repuxos de água parecem dançar ao ritmo da música que passa nos altifalantes. O Mirage, para contrabalançar, inventou um vulcão que entra em “erupção” a cada duas horas, expelindo fumo e enormes labaredas, para delírio do povo.

O Venetian tenta replicar Veneza, com Gôndolas a passearem em canais criados para o efeito e uma arquitetura que imita velhos palácios venezianos e que deve ter custado uma fortuna incalculável. No interior, uma sala com pinturas tenta imitar a capela Sistina, para delírio dos turistas chineses para quem as cópias são sempre melhores que os originais, por serem novas e estarem em melhor estado. Ruas interiores replicam as de Veneza com o teto pintado como um céu.

O Caesars Palace, por sua vez, imita Roma e à entrada tem uma estátua de Julio Cesar enquanto uma charrete ao estilo das de corrida que víamos no Ben-Hur, colocada no Hall de entrada, serve para os passeantes tirarem fotografias.

Só me lembrava do meu pai, que odiava este género de coisas e quando as via dizia ironicamente: “Ai, que interessante”.

Mas eu acho mesmo interessante. E o que tem graça é que toda a gente pode andar a passear pelas receções e átrios dos melhores hotéis, acabando por ser uma espécie de feira gigante onde, nos túneis envidraçados que ligam os hotéis ao outro lado das ruas, até mendigos se instalam a pedir esmola com frases em cartões a contarem as suas tristes histórias. Um deles, sem rodeios, justificava a esmola com um “sai caro estar agarrado ao crack”.

Nesta rua principal ou “strip” como lhe chamam, multidões movimentam-se de hotel em hotel a ver a paisagem, ou as montras de lojas como as de Louis Vuitton, Armani ou Tiffany’s ou a jogar nas centenas de máquinas, roletas e mesas de bacará disponíveis. Não param de um lado para o outro. Temos a sensação de estar numa feira de aldeia gigantesca em que o local tenta reproduzir o melhor nível europeu, mas mais extravagante e caro, e os visitantes são do tipo “profissional de feira de aldeia”, que vai a todas.

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