Um motard às voltas em San Francisco

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Na manhã em que aterrei apanhei uma destas “Shared Van”, uma carrinha com três bancos corridos que leva vários passageiros pela ronda dos hotéis da cidade. Esta tinha um ar podre assim como o condutor preto que, ao sentar-se ao volante, atirou o boné para o chão da frente, por cima de latas vazias de Coca-Cola e papéis amarelados de velhos. Chegados à via rápida aquela caranguejola, puxada por um velho V8 a gasolina, ao ultrapassar os 80 Km/h começou a tremer de uma forma que parecia se ir desconjuntar. “Ando aqui desde as três da manhã”, contava-me o homem. A partir daí fui fazendo conversa, para ver se não adormecia. Nos bancos atrás do meu vinha um homem dos seus cinquenta anos e uma miúda nova, que não abriam a boca de assustados que estavam. Cada um de nós tinha destinos diferentes.

– Ai você é português? Não foi “da Gama” que descobriu os Estados Unidos?

Não. O que cá veio era italiano ao serviço dos espanhóis.

– Sim. Mas vocês venderam muitos escravos de África para cá.

– É provável.

Cheguei ao hostal por volta do meio dia. Deixei as malas e fui a pé até à animada rua do porto. Fiquei a almoçar num restaurante junto às docas e da parte da tarde dei mais uma volta por ali a ver as focas que vêm gritar por restos de peixe junto dos pescadores que o preparam ainda a bordo, no cais, ou músicos de diferentes níveis artísticos que instalam as suas aparelhagens sonoras e uma mesa com moedas espalhadas para os passeantes irem alimentando. Um velho vestido como um inglês de outros tempos e com um enorme bigode branco fazia magia numa pequena banca rodeada de curiosos.

Por entre os cafés e bares um ou outro museu à maneira americana ou seja, não de antiguidades mas de monstros em ferro ou réplicas de personagens famosas em cera. Na rua passam muitos descapotáveis e um grupo de motos, com miúdos a fazerem cavalinhos. Enfim, muito animado.

No dia seguinte, segunda-feira, o agente de navegação mandou-me uma mensagem a dizer que os papéis estavam em ordem e a moto poderia ser levantada nos seus armazéns.

Como era a uns 50 Km da cidade decidi ir de transportes públicos. O primeiro foi um autocarro. Atrás de mim entrou uma menina com um cão para cegos e uma “t- shirt” a indicar que trabalhava para uma firma que os treinava. A velha que se sentou em frente dela quis saber tudo sobre estes cães e estava visivelmente fascinada, ao ponto de às tantas perguntar à menina:

Nos outros países também há destes cães para cegos?

Isto é a realidade americana. O povo mais inculto, que por vezes inclui até deputados, pensa que o mundo são os Estados Unidos e depois há uma série de outros países que eles não percebem bem como sobrevivem.

No autocarro seguinte um velho meteu conversa comigo.

– Português? Ainda não consegui compreender porque Portugal e Espanha são dois países diferentes. Existe uma separação entre eles?

– Pela mesma razão que os Estados Unidos e o Canadá também são dois países diferentes.

– Não, mas isso é diferente.

– É? Porquê?

– Pois. Talvez tenha razão.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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