Animais de chapa

Jorge Flores
Jorge Flores
Jornalista

Não é que eu deteste os outros condutores, apenas prefiro quando eles não estão por perto. Desculpem esta adaptação grosseira de um pensamento de Charles Bukowski sobre a sua relação com os seres humanos em geral. Ainda que nem sempre pareçam e que, seguramente, não nos tratemos, uns aos outros, como tal, os condutores também são seres humanos. Faz sentido.

Há muitos anos que a agressividade ao volante ferve na minha cabeça. O que levará um indivíduo civilizado, capaz de segurar a porta para um qualquer desconhecido passar, instantes depois, a estar disposto a passar-lhe com o carro por cima ou a bater-lhe com a porta do mesmo na cabeça, por uma qualquer minudência rodoviária? O que será que nos transforma, a todos, em autênticas bestas primitivas, quando nos sentamos ao volante e metemos a primeira?

Não me confundam. Prefiro os outros automobilistas longe porque, eu próprio, sou capaz de mudar a minha banda sonora mental de Rodrigo Leão para Metallica (Seek and Destroy, do álbum Kill’em All, já agora…) num piscar de olhos ou numa falta de pisca numa manobra estúpida.

Em tempos, a propósito de uma reportagem, obtive uma resposta de um psicólogo da PRP (quando esta ainda tinha orçamento para isso) ou seria da DGV (quando esta ainda existia?…) que orientou a minha imagem mental sobre o assunto. Segundo me explicou, toda esta agressividade remonta ao nosso passado pré-histórico e à nossa luta pela sobrevivência num ambiente hostil e povoado por predadores. No fundo, a causa da violência rodoviária estará inscrita num ADN coletivo e danificado, que descodifica os outros condutores não como seres humanos, mas antes como uns ameaçadores “animais de chapa”. Somos elementares, pré-históricos, umas bestas, se preferirem, nesta luta para vingar um sinal ou um lugar na fila, onde qualquer traço de empatia pelo próximo (e na estrada, quanto mais próximo, pior…) cai pelo asfalto.