Frankfurt: Ecológicos que roubam salões, chineses a chegar e marcas que nem vê-las

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

O mais recente Salão de Frankfurt trouxe consigo a evidência de que os modelos de propulsão ecológica – sejam híbridos ou elétricos – começam a roubar as atenções de forma cada vez mais evidente. Desta feita, na cosmopolita cidade alemã, já entregue aos rigores do outono, os carros ‘verdes’ arrebataram atenções e… emoções.

Sobretudo, os elétricos de altas performances. Num padrão contrastante, os carros que mais chamaram as atenções no certame germânico foram aqueles que, sendo híbridos, prometem prestações entusiasmantes.

Claro, houve Toyota Yaris GRMN, Porsche 911 GT3, Audi RS4, Renault Mégane R.S., Lamborghini Aventador S, Ferrari Portofino, Lexus LC e Ford Mustang, como também houve Suzuki Swift Sport. Mas, sobretudo, houve um bombástico Mercedes-AMG Project One, uma obra-prima de comemoração dos 50 anos da divisão desportiva de Affalterbach e que, muito simplesmente, retirou a unidade de propulsão de um monolugar de Fórmula 1, trabalhou-o para melhorar a sua fiabilidade e utilização no dia-a-dia e – voilá – eis um hiperdesportivo com motor V6 de 1.6 litros associado a nada menos do que quatro motores elétricos para uma potência total superior a 1.000 CV.

O valor das prestações (0 aos 200 km/h em menos de seis segundos) é tão exorbitante quanto o preço, que deverá rondar os 2.5 milhões de euros em Portugal. A produção limitada garante desde logo o carácter de raridade clássica. Tão clássica que, em frente ao dito Project One, tomei a consciência de que este será, muito provavelmente, o derradeiro exemplar do género que verei na vida. Dito isto, pensei o mesmo do Bugatti Chiron e – surpresa! – ei-lo e novo em Frankfurt. Já o LaFerrari Aperta é que nem vê-lo. Fica a memória dos dias de Genebra.

Depois, numa nota mais ‘terrena’, houve o anúncio de que a Toyota prepara uma variante híbrida mais ‘espigada’ para cada um dos seus modelos de base, a qual será colocada no mercado em conjunção com a variante mais ecológica e ‘suave’. Será esta a hora de recuperar a emoção ao volante mesmo quando o silêncio impera? Para já, também a Honda apostou num outro tipo de emoção, com um Urban Concept que recupera uma estética muito retro, sendo este o seu primeiro elétrico com vista ao ano de 2019. Um pequeno ‘urbanito’ que tem quase o tamanho de um Civic de primeira geração. O futuro BMW i5 também mereceu muitas piscadelas de olhos, perspetivando um futuro em que a grelha tradicional do ‘rim’ terá de se alterar e transformar noutra coisa mais vanguardista.

Os motores de combustão resistem…

Contudo, para quem teme o final dos motores de combustão interna (ICE), há boas notícias vindas de alguns dos fabricantes que estiveram presentes em Frankfurt: muitos deles consideram que estes blocos de funcionamento térmico ainda têm mais umas décadas de vida, conforme nos contou um responsável pelo desenvolvimento de tecnologias do grupo Toyota, Gerald Killmann, mas até a Volkswagen revelou, pelo seu CEO, Matthias Müller, que os motores térmicos têm muito caminho pela frente. Até mesmo os Diesel, que serão importantes para alcançar as cada vez mais importantes metas ambientais propostas pela União Europeia. Quem diria quando, há cerca de meio ano, se teciam já da parte de muitos quadrantes, os elogios fúnebres aos motores com combustão Diesel.

Mas também é fácil pensar que nem todos podem ser elétricos já. Além do custo ainda elevado, há próprios veículos de utilização intensiva que obrigam à combustão interna, como é o caso dos camiões de transportes internacionais, os autocarros também para viagens longas ou os muito requisitados veículos de construção. Muitas vezes, estes operam em condições extremamente exigentes e em temperaturas muito díspares. Face a isso, as próprias baterias teriam problemas de longevidade, acima de tudo.

Os chineses estão a chegar

Presentes em grande força no Salão de Frankfurt, os chineses começam a mostrar que são uma força para levar muito a sério no mercado europeu. Se há algumas décadas, a sua estética era alvo de troça pelo usual ”jogo das imitações’ e as suas prestações eram limitadas (sem falar no drama dos testes de colisão levados a cabo pela alemã ADAC, nos quais os carros chineses demonstraram a sua capacidade de absorção de impactos igual a um pacote… de cartão), o caso agora está a ficar diferente.

Tendo percebido que a melhor maneira é aprender com quem sabe mais na matéria da construção automóvel, os chineses encetaram parcerias com os grandes e velhos fabricantes da Europa e não só, absorvendo muita da sua tecnologia, pelo que os seus produtos estão agora mais robustos e compostos. O estilo é já próprio, ainda que existam ainda alguns traços de inspiração noutros modelos de grande sucesso. O que se perdoa, porém.

Em Frankfurt, um dos grandes stands era o do WEY, uma marca que se posiciona no mercado chinês como Premium, apresentando uma série de SUV e de concepts muito interessantes do ponto de vista estético e dos materiais. Também a Geely, que prevê a entrada no Velho Continente em 2019 com os seus SUV, esteve em força na cidade alemã, mas é de prever que muitos outros fabricantes venham a aproveitar a abertura da ‘comporta’ europeia para chegarem à Europa: SAIC, Great Wall (que detém a WEY), Roewe, Qoros e MG são apenas alguns dos nomes que se perfilam na lista das ‘novas oportunidades’ da indústria automóvel europeia.

E com a rapidez que lhes é conhecida no desenvolvimento e implementação de produtos, é bem possível que, muito em breve, a ideia de que os chineses estão a chegar se transforme em ‘os chineses chegaram e estão fortes’.

Ecologistas que apregoam o fim

Não dos tempos, mas sim do petróleo. Pelo menos, era o que se lia num dos cartazes que alguns manifestantes seguravam à entrada do pátio principal que dava acesso ao recinto da ‘messe’ alemã. Estoicos, seguravam os seus cartazes amarelos, impassíveis perante a chegada da chuva e do vento que, no segundo dia dedicado à imprensa, era já uma combinação incomodativa. Um cenário caricato, é certo, mas não tão caricato como…

…O homem que media o espaçamento entre cadernos

Na Alemanha, mandam as regras da lógica local. E, como tal, ter um empregado de uma marca alemã munido de uma régua para medir o espaçamento entre os blocos de apontamentos colocados num banco corrido para utilização posterior dos jornalistas – esses malvados que, garantidamente, causaram a entropia no acerto teutónico da arte do espaçamento entre cadernos – é apenas um exemplo do quão a sério é levada esta questão da organização de eventos de grande porte.

O edifício ‘estrela’ da companhia

Sobretudo, quando se ‘joga em casa’, o que foi evidente na forma como o grupo Daimler e a BMW não pouparam esforços na desejada cadeia da notoriedade. E, apesar de todos os esforços da marca de Munique, que também estava muito destacada, foi o ‘centro comercial’ (que não o era…) ocupado pela Daimler a garantir a grande maioria das atenções. Além dos seus seus modelos diversos – do Classe A ao Classe X, passando pelo renovado Classe S ou pelos diabólicos AMG e pelos amistosos smart – o edifício ocupado por estas marcas era impressionante com os seus três pisos, diversas atividades e uma sensação constante e avassaladora de que em casa mandam os alemães.

Treino de fitness

Dos ‘big 3’, ou seja, os três grandes salões europeus, o de Frankfurt é aquele que mais caos inspira no visitante. E não é um contrassenso com a parte anterior do homem e da sua régua para medir espaços vazios. É, sim, um caos causado pela grande dispersão entre os pavilhões. Ir do edifício da Daimler, o primeiro, ao derradeiro, curiosamente, da BMW (talvez tenham optado pela teoria de que os últimos são os primeiros) pressupunha uma barrinha energética a entrar no estômago e um certificado de participação numa prova de atletismo, além de haver sempre a hipótese de nos perdermos pelo caminho.

Eventualmente, ganha-se ‘calo’ e descobrem-se os atalhos para dominar a romaria entre os pavilhões, mas isso não invalida que, num dia bem ‘corrido’ se percorram mais de uma dezena de quilómetros. Ao menos, nos dias que correm, já não é preciso ‘despachar’ 40 kg de papel para Lisboa como sucedia no passado, conforme nos recordou um colega de profissão mais acostumado a estes cenários de salões de palmilhar estes eventos.

Ausentes lamentados

Diz o provérbio que só faz falta quem está presente, mas isso não é verdade em tudo. No caso dos salões automóveis, algumas ausências são de lamentar. Assim, não deixa de ser estranho que uma Peugeot, pertencente àquele que se tornou com a aquisição da Opel num dos maiores grupos automóveis europeus, falhe este evento, assim como uma Volvo, sendo que esta última até tem produto para chegar (o XC40 está quase a ‘rebentar’). Mais ainda quando se adiciona a ausência de marcas como a Nissan e a Fiat Chrysler Automobiles (FCA).

Estar num salão pressupõe, de facto, um gasto enorme cujo retorno é difícil de quantificar, dizem alguns construtores. Mas é, para qualquer apaixonado ou simplesmente curioso ou interessado na área, uma forma de estar em contacto com os carros da marca ‘y’ ou ‘x’. É certo que estamos na nova era da comunicação e que poderão existir outras formas de comunicar os produtos para os clientes-alvo, mas não vejo nenhuma melhor do que um salão automóvel com a dimensão de ‘um’ Frankfurt ou Paris. Onde as pessoas poderão sentar-se e sentir o material de que é feito um automóvel.

As garrafas Kona

Autêntica jogada de ‘mestre’ em termos de marketing, a Hyundai oferecia garrafas de água de metal com a inscrição Kona gravada, em honra do seu mais recente SUV compacto, que, como já se sabe, vai ter a designação Kauai em Portugal. As filas para as ditas garrafas coloridas eram sempre enormes, mas poucos ali percebiam que, entre os falantes de língua portuguesa já se tinham feito muitas piadas e trocadilhos com o nome. Também não explicámos a ninguém. Kona, afinal, é uma região do Havai com o azar de ter uma grafia semelhante (e oralidade igual) a uma ‘bad word’ portuguesa.

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