Parei a moto no deserto para ver um concerto do Bob Dylan, Paul McCartney e dos Stones

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Já esperava um concerto fora do vulgar mas este superou em muito todas as expectativas que pudesse ter. Ainda por cima, para ajudar à festa, estava uma temperatura noturna ideal, dos seus 24, 25º, noites de lua cheia e montaram uma aparelhagem de som fenomenal. Quando entrei no recinto, na sexta feira pelas quatro e meia da tarde, a gorducha que me controlou a pulseira virou-se para mim e disse: “Wow. First row. You must be bloody rich, sucker” e levantou a mão para bater contra a minha a rir-se.“Enjoy the concert”

Começou com o Bob Dylan. “That guy is a character”. O tipo é extraordinário. Maior que os americanos todos juntos. E tem consciência disso. Apresentou-se com um blazer manhoso que nem na Zara, mas engomado, e umas calças também pretas e de ar bera que lhe caíam pelas pernas abaixo e tinham a extravagância de serem à boca de sino e terem umas flores bordadas de lado. O homem arrancou a cantar e tocar piano em pé com aquela voz única e um ar de “eu já não tenho paciência para isto” mas nitidamente a gostar de estar perante 80 mil pessoas.

Continuou, trocando por diversas vezes o piano por uma viola ou a sua famosa gaita mas não deu confiança a ninguém e, ao longo do concerto ou mesmo no fim, não disse um obrigado ou teve qualquer conversa com o público, ao contrário de todos os outros artistas. Ficamos com a sensação que ele acha graça ir ali tocar, mas não dá confiança aquela multidão de analfabetos que estão longe de perceber a sua poesia, como foi considerada e muito bem, pelos júris do Nobel. Aliás, a grande maioria dos americanos não deu grande importância a este prémio Nobel, pela simples razão que não fazem ideia do que seja.

Quando chegou a hora de se ir embora juntou os músicos que tocaram com ele e a sua forma de agradecer foi ficar em pé, por uns segundos, a olhar para o público, sem dizer uma palavra. Extraordinário. Adorei.

Vi os Rolling Stones pela primeira vez, em Londres, há mais de trinta anos, quando se dizia: Vamos vê-los porque estão velhos, já têm mais de 40 anos, e este deve ser o último concerto que dão. Ninguém acreditaria que trinta anos mais tarde, mesmo com a ajuda de umas vozes jovens, conseguiriam dar um espetáculo fantástico como o que deram, com o Mick Jagger a continuar a saltar e dançar pelo palco fora, embora a ter que beber água o tempo todo e descansar de vez em quando, enquanto um surpreendente Keith Richards que já pouco mais faz que barulho com a sua guitarra, cantou duas músicas com uma voz muito melhor do que alguma vez se esperaria de um homem que parece estar com os pés para a cova há vinte anos. Fantásticos. Grande show.

O Roger Daltrey, dos Who, estava há menos de uma semana entubado no hospital, como contou o Pete Townshend, mas apresentou-se em palco com uma energia para dar e vender e a atirar o microfone ao ar, vezes sem conta, ao bom estilo do nosso Marco Paulo. Giríssimo. O Pete Townshend continua a ser um dos melhores guitarristas da atualidade. Sensacionais. O Paul Mc Cartney também montou um espetáculo fenomenal, felizmente muito agarrado aos velhos temas dos Beatles.

Estes dois foram quem mais encheu as medidas aos americanos, que dançaram e cantaram as velhas músicas dos Who e Beatles apaixonadamente.

Mas o melhor do fim de semana foram os dois de que ainda não falei.

Os Plink Floyd dos dias de hoje conseguem superar os originais a tocarem as mesmas fabulosas músicas. O Roger Waters monta um espetáculo de som e imagem único, junta duas vozes de coro femininas do outro mundo e músicos ao melhor nível, enquanto ele mantém a mesma voz inconfundível. Tudo isto com uma aparelhagem de som quarenta anos à frente. Duvido que o David Gilmore se consiga sequer aproximar do nível a que assistimos no fim de semana. Foi uma coisa de outro planeta. Absolutamente extraordinário.

Finalmente Neil Young. Era, talvez, o único ídolo que tinha na música da minha juventude. Nunca tinha assistido a um concerto dele. Quando começou a cantar e tocar não queria acreditar. O homem canta e toca como o fazia há quarenta anos. Absolutamente único.

Quando ele começou a cantar lágrimas de emoção começaram a cair-me pela cara e não pararam durante mais de metade do concerto. Nem sabia que tinha tantas lágrimas. E não tinha fumado nada, a não ser como fumador passivo. Tocou as três primeiras músicas sozinho e, depois, foi acompanhado por outros três guitarristas dois dos quais, ainda miúdos, estavam entre os quatro melhores do fim de semana, grupo onde estava incluído ele próprio, evidentemente. Foram duas horas extraordinárias que vão ficar na minha memória para sempre.

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