O velhinho VW que era o terror dos arranques

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Para que ninguém reclame depois, fica já expresso que esta crónica é sobre um carro que já não se produz e já não se vende. E que também não era nenhuma ‘bomba’ automobilística, apesar de o título até poder insinuar o contrário.

Lamento desiludir, mas o título refere-se a um Volkswagen que foi o terror dos arranques, mas não dos 0 aos 100 km/h. Na verdade, o terror dos arranques era mesmo o momento quando se dava à chave e nunca se sabia se haveria a correspondente reação de ignição do motor. Geralmente… não. Mas, passo a explicar a história.

Ao longo de mais de duas décadas, o carro de ‘casa’ foi um Volkswagen Vento, sucessor do Jetta que, em 1992, chegou a casa, ainda a luzir o privilégio de uma pintura cinzenta metalizada ‘fresquinha’ do concessionário. Na prática, o Vento era uma versão de três volumes do Golf III, à qual foi dada uma bagageira de grande volume e um estilo ligeiramente diferente. Na SEAT, o Toledo também contava com formato semelhante, mas base do Golf II e os mesmos predicados em termos de versatilidade da bagageira.

Mas, voltemos ao Vento GL. No compartimento do motor, um bloco 1.4 a gasolina de estonteantes 60 CV que, mediante a passagem dos anos, pareceram mirrar em proporção diametralmente oposta. Mas era um modelo com a tradicional competência e rigor germânico na construção: ainda hoje, capaz de ombrear com alguns modelos novos do mesmo segmento pela quantidade de materiais de boa qualidade no habitáculo.

Todavia, como em tudo, ao cabo de 20 anos de ‘luta’, o desgaste foi-se acumulando e tornou-se evidente nalguns pontos: o forro do tejadilho descolara há muito (colado depois com um produto qualquer de um hipermercado qualquer…) e o fole da alavanca da caixa tornou-se numa ‘salganhada’ de farripas que faziam apenas lembrar a forma inicial. Os bancos, em tecido, proporcionavam bom conforto, mas o suporte lateral era escasso, o que a curvar era mais chato. E o Vento até tinha um bom chassis que lhe permitia capacidades dinâmicas interessantes, ainda que adornasse notoriamente fruto de uma suspensão macia. O ‘problema’ era chegar a uma velocidade que lhe permitisse desfrutar dessa capacidade. Eventualmente, com alguma embalagem, lá chegava… Já a direção… assistida só se estivesse alguém a assistir do lado de fora, porque de outra forma, nada feito. À antiga para pessoal de braço rijo.

Com um escalonamento de caixa em que a segunda parecia curta e a terceira muito longa, as subidas mais íngremes eram capazes de ser um teste à paciência do condutor e ao jogo de ‘engrena segunda, troca para terceira, ah, afinal volta à segunda’. Era manifestamente pouco cavalo para tanta charrete…

Arranca ou não?

Mas, tudo isso era tolerável. Não fosse o problema maior de que começou a sofrer. O sintoma maior de cansaço deu-se em redor da ‘maioridade’ dos 18. Após anos de bons e leais serviços, o Vento começou a apresentar um estranho e arreliante problema: o portentoso motor 1.4 não arrancava. De início, este sintoma manifestava-se apenas nos dias mais frios, abaixo dos 10º C, mas com o passar do tempo alastrou-se a todos os meses do ano, ainda que fosse no inverno que o ‘inferno’ da ignição se tornasse mais visível. E dramático.

Não se julgue que não houve falta de esforços na solução do problema. As principais ‘casas’ de mecânica debruçaram-se sobre o assunto – fui variando, à medida que cada uma ia falhando o diagnóstico – e cada uma mudou qualquer coisa, apontando uma causa e uma solução. O resultado prático, porém, era sempre o mesmo quando o tempo arrefecia. Uma tentativa de ignição frustrada. Viu-se o alternador, mediu-se a carga da bateria, trocaram-se velas e filtro de combustível… Nada resultou. Como bónus numa dessas tentativas de solução ganhei, a certa altura, um medidor do nível do combustível que não assinalava a quantidade do precioso líquido no depósito. Faltou entrar na oficina da marca, mas para um carro com cerca de 20 anos, aquilo que a marca poderia vir a pedir era já demasiado exorbitante.

Certo é que havia já um ritual de entrar no carro, colocar a chave na ignição, esperar uns segundos e tentar o arranque por duas vezes, sabendo que ambas seriam tentativas falhadas. A frase ‘à terceira é que é’ tornou-se no mantra pelo qual se regia o arranque de qualquer viagem. A princípio até foi assim. Depois, tornou-se numa longa espera…

Passou de mãos após duas décadas ao serviço, quando achei que o dinheiro gasto na resolução do problema já não valia o carro. Mas, sobretudo, porque queria mesmo dar à chave e… arrancar. Ainda assim, ficaram muitas memórias de bons serviços, acabando esta crónica por ser dedicada ao velho Vento porque calhou vê-lo há não muito tempo: portas amassadas, logótipos arrancados e muitos maus tratos desde que larguei a sua chave. ‘Bateu’ a saudade.

O ser humano é bastante nostálgico por natureza e também algo estranho, criando empatia emocional com seres inanimados e desprovidos de sentimentos (estou certo de que há quem tenha uma torradeira de que não se quer livrar porque gosta mesmo muito dela). No caso premente, gosto de pensar que os carros também poderiam ser tratados de forma digna. Mesmo na hora da sua velhice, quando a tecnologia os torna obsoletos face ao aparecimento de novos e melhores modelos. E entristece-me pensar que os nossos netos, já completamente envolvidos nas ondas de novas correntes como a condução autónoma ou a mobilidade partilhada, nunca irão ter com os carros uma ligação emocional como aquela que hoje podemos ou conseguimos ter com eles. E agora, admita lá: que nome dá ao seu ‘boguinhas’?

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