Paulo Ramalho será homenageado na Rampa da Falperra

11/11/2018

Paulo Ramalho, aqui com uma réplica do capacete de Senna, nunca escondeu o seu fascínio pela Rampa da Falperra
Ponto prévio: esta não é uma notícia no sentido tradicional do termo. Por momentos, permitam-me esquecer a isenção e a objetividade que o jornalismo exige e escrever de forma muito mais emocional – e sentida. Paulo Ramalho deixou-nos recentemente, aos 44 anos, vítima dessa doença que ameaça tornar-se crónica na nossa civilização.

Conheci Paulo Ramalho há uma década, quando ele discutia as vitórias e o título de campeão na Montanha com um amigo em comum, Pedro Salvador. Logo nessa altura impressionou-me a determinação e profissionalismo de alguém que sabia que o seu adversário era, na maioria das vezes, superior… mas nunca imbatível. Mesmo nessa fase, o Paulo nunca baixou os braços. Trabalhou, evoluiu e tornou-se cada vez mais forte, cada vez melhor, até chegar ele próprio a campeão nacional absoluto. Duas vezes.

Para trás ficava um início de carreira ao volante do famoso Mini, um carro que simboliza, como poucos, a verdadeira paixão do automobilismo, a emoção visceral de um homem em simbiose com a máquina. Seja ela qual for. Eu sabia que o Paulo, por muito metódico e racional que fosse enquanto pessoa, vivia para essa emoção. Até ao último momento.

Nunca esquecerei o momento em que falei com ele na Rampa da Falperra de 2015. Disse-me que uma das coisas que mais lhe custou nessa fase da doença foi ter falhado a Falperra no ano anterior, quando tinha sido operado dias antes. Ainda tentou… mas como ele próprio me disse, sem pudores, “tinha as costas cozidas de um lado ao outro. Ainda mandei a inscrição mas a minha mulher não me deixou”.

Lembro-me de pensar, “Como é que é possível?”. E lembro-me de ver as lágrimas e a emoção do próprio Pedro Salvador quando falou no assunto.

Foi por isso que, ao longo deste ano, ver o Paulo fazer aquilo de que mais gostava até ao último momento da sua vida foi uma enorme lição e um exemplo inesquecível para quem o conhecia. Falei com ele pela última vez em julho, na Rampa do Caramulo. Um simples aperto de mão, casual mas sentido. Não tive coragem de lhe dizer grande coisa. Tive, no entanto, imensa vontade de lhe dizer como o admiro. A mesma emoção que o presidente da FPAK, Ni Amorim, revelou na passada sexta-feira quando falou de Paulo Ramalho na Gala do Campeonato de Portugal de Montanha. Há dois anos organizei um teste de Ni Amorim com o Osella da PR Miniracing para uma reportagem no AutoSport. Não sei se ambos já se conheciam antes disso mas sei que o antigo piloto e agora responsável da FPAK fez uma descrição muito real do caráter e da postura de Paulo Ramalho neste desporto, esta metáfora da vida que nos move a todos. Acho que dentro de pista, como nas adversidades da vida, o limite às vezes é uma coisa muito relativa.

E agora vem a ‘notícia’ propriamente dita: nessa mesma Gala organizada pela APPAM, a associação dos pilotos de Montanha, foi pedido aos representantes da Câmara Municipal de Braga e do Clube Automóvel do Minho que uma das chicanes da Rampa Internacional da Falperra (até agora conhecida como a chicane da paragem de autocarro) seja nomeada Chicane Paulo Ramalho, com um pequeno monumento a homenagear a sua memória. O local está ilustrado na fantástica foto acima de Pedro Ferreira, amigo de longa data de Paulo Ramalho e que o fotografou ao volante do Juno com o capacete do ídolo de sempre, Ayrton Senna. Já a foto abaixo, também de Pedro Ferreira, dispensa comentários adicionais.

Faça-se a homenagem na Falperra. Será da mais elementar justiça. Mas, para quem o conheceu, o verdadeiro impacto da vida de Paulo Ramalho transcende qualquer homenagem ou monumento.