Ensaio Audi A8 50 TDI quattro: Senhor dos Anéis

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Autêntico compêndio senhorial de tecnologia, o Audi A8 inaugura uma nova fase para a marca alemã, promovendo eficácia e requinte em doses elevadíssimas que o transformam em Senhor dos Anéis. Confortável, luxuoso e silencioso, o novo A8 surge nesta nova geração com uma imagem que não é de rutura, mas… com um modelo de segmento superior tão avançado, quem é que se preocupa com essas coisas?

O novo A8 está de regresso para se bater com os rivais de sempre, o Mercedes-Benz Classe S e o BMW Série 7, os titãs que compõem a tríade germânica que domina neste segmento. Depois, há ameaças exteriores que prometem fazer mossa, como o novo Lexus LS 500h. Voltando ao A8, esta berlina traz consigo novos sistemas de assistência à condução (incluindo a novidade absoluta de sistemas autónomos de nível 3), maior ergonomia no funcionamento dos diversos sistemas tecnológicos a bordo, diversas comodidades de primeiríssima linha, como Wi-Fi, navegação com dados do Google, massagem nos bancos dianteiros, aquecimento e ventilação nos dois lugares dianteiros e traseiros e uma motorização eficiente de 3.0 litros com 286 CV de potência. Eis a versão 50 TDI quattro.

O barulho fica lá fora

A primeira impressão é de que o A8 é grande, muito grande, com os seus 5172 mm de comprimento e 2998 mm de distância entre eixos. A razão é simples: o interior é quase uma sala de reuniões para executivos, com espaço avultado para as pernas e também em altura e largura. Além disso, todas as comodidades de um lounge tecnológico, incluindo dois tablets de grandes dimensões, bancos traseiros com ajuste elétrico e banco central com comandos para os bancos e mais um pequeno comando para controlo do sistema de multimédia nos lugares posteriores. Mas isso para outro dia.

Ao volante, o A8 disfarça na perfeição o seu tamanho, sendo esta a versão de distância entre eixos mais curta (a versão mais longa está prestes a chegar e terá um acréscimo de 2700€ face ao modelo mais curto, incluindo já no preço o teto de abrir). É surpreendentemente ágil e ligeiro, mas aquilo que mais impressiona é mesmo a qualidade da insonorização. Assim que as portas se fecham, o mundo exterior com os seus ruídos, apitos e gritos fica ‘lá fora’, firmando-se uma separação notória entre as duas realidades.

Mesmo em andamento, o A8 deixa os seus passageiros em total isolamento, com o ruído do motor perfeitamente contido e apenas se ouvindo, quanto muito, a suspensão a trabalhar na passagem pelos muitos e profundos buracos dos troços de TT… perdão, das estradas nacionais. Em suma, qualidade generalizada também no aspeto dos materiais utilizados e na construção a bordo.

A conectividade fica a cargo de um sistema avançado que permite ligação à Internet, rádio digital, Google Maps, rádio digital e emparelhamento com os smartphones. Enfim, se a insonorização nos ‘fecha’ perante o ruído e azáfama do mundo exterior, este sistema de conectividade abre uma ‘porta’ para esse mesmo mundo, consoante aquilo que nos interessa. Exemplo disso é o facto de, até aqui, termos conduzido sempre ao som de rádios alemãs e dos seus êxitos de culto das décadas de 1980 e 1990. Viva a variedade!

Bem-vinda agilidade

Superada a primeira impressão referente às suas dimensões superiores a cinco metros de comprimento, o Audi A8 surpreende. E não apenas pela variedade de materiais e requinte a bordo, numa ontologia de luxo e refinamento que, diga-se com honestidade, é comum a praticamente todos os modelos deste segmento. Sabe-se e é praticamente aceite que estes modelos são para usufruir nos outros bancos que não o do condutor, mas quis a marca de Ingolstadt que o condutor também tenha prazer na sua tarefa de levar o A8 por estradas mais ou menos sinuosas. Eis o tema da segunda ‘entrada’ no ‘diário de bordo’ que criámos para relatar a nossa vivência com esta berlina de representação.

Primeiro ponto que é preciso notar: o ângulo de viragem do Audi A8 disfarça com enorme competência as suas dimensões, podendo por isso ‘navegar’ com algum à vontade nas estradas urbanas. Além disso, conta com eixo traseiro direcional, o que lhe incrementa o dinamismo em curvas mais cerradas e, com as rodas traseiras a virar no sentido contrário às da frente a baixa velocidade, ajuda nas manobras em cidade. O mesmo é aplicável, sobretudo, para os momentos em que é preciso estacioná-lo nos parques de estacionamento subterrâneos, alguns dos quais certamente projetados por engenheiros maquiavélicos que claramente não previram a chegada de modelos de estilo SUV ou berlinas de grande porte. Ou que apenas pouparam no espaço.

Voltando ao A8, fuja-se da cidade e dos troços mais concorridos de outros carros, semáforos e peões e tem-se um modelo com neutralidade de reações inesperada pela positiva, mudando de direção com estabilidade e com as transferências de massa bem suportadas pela suspensão pneumática que lhe permite, dessa forma, lidar de forma variada com o tipo de piso e ora salvaguardar o condutor dos buracos de grandes dimensões na estrada, ora oferecer dinamismo muito decente que para um modelo com cerca de duas toneladas.

Não se pode equiparar a um desportivo na verdadeira aceção da palavra, mas o A8 não desaponta quando se eleva o ritmo. Ainda assim, seja-se demasiado otimista e atingem-se os limites proporcionados pela aderência, apelando-se nesse momento à entrada em ação do competente sistema de tração integral quattro, tecnologia com tanta tradição na Audi que dispensa hoje apresentações, tendo ainda diferencial central autoblocante, sendo essa uma explicação para a boa capacidade de motricidade apresentada. De notar que este diferencial reparte a energia entre os dois eixos em proporção normalmente posta nos 60/40 (frente/trás), podendo alterá-la, porém, num valor que varia até aos 15/85 na divisão da potência entre os dois eixos.

A suspensão com amortecimento adaptativo permite uma maior amplitude de funcionamento, entre o conforto e o lado dinâmico, estando preparada para oferecer um equilíbrio aprimorado entre as duas noções. A par de um referencial Classe S da Mercedes-Benz em matéria de conforto. Como já se referiu, a suspensão deixa-se ouvir de certa forma nos buracos mais profundos. Quanto à direção, fica a sensação de que é sempre um pouco mais leve do que desejável – mesmo no modo Dynamic (o mais desportivo) é sempre muito leve. Ajuda se quisermos movimentar o A8 com ligeireza em percursos urbanos, é um facto, mas nos troços sinuosos seria positivo ter um pouco menos de assistência. Mas, uma vez mais, não estamos na presença de um aspirante a desportivo…

Mas há outros segredos para essa agilidade, com a rigidez estrutural a ser uma delas. O novo Audi A8 conta com 58% da sua carroçaria composta por alumínio, por exemplos nos painéis, sendo um material altamente resistente e ligeiro. Por outro lado, o recurso a aços de ultra-elevada resistência elevam a sua capacidade de rigidez estrutural, não só para questões dinâmicas, mas também por incentivos de segurança, permitindo-lhe assim ser mais seguro em caso de acidente. Por fim, há magnésio. E se acompanha os anúncios de televendas, saberá que o magnésio é bom para muita coisa. Também o é como elemento estrutural do A8: este material é utilizado na barra estabilizadora de união entre as torres de suspensão dianteira.

Motor 50 TDI: Trocar por miúdos

A questão da nomenclatura dos novos Audi é algo que tem lógica no seio da estratégia alemã. Mas, só mesmo aí. A versão ensaiada é a 50 TDIquattroTiptronic. O que na prática se traduz por um motor de 3.0 litros V6 de 286 CV de potência e 600 Nm de binário, associado a uma caixa automática de oito velocidades (Tiptronic). Trata-se de um motor de elevada eficiência e que tem uma postura bastante versátil na estrada, uma vez que permite condução tranquila com imenso refinamento, mas potencial para, energicamente, subir o ritmo com pujança, embora os modos de condução do sistema Drive Select também influenciem a resposta do motor e caixa.

Em modo Efficiency e Comfort, as acelerações são suaves e progressivas, com o primeiro a permitir ainda rodar em modo ‘vela’, ou seja, com motor e transmissão desacoplados, poupando nos consumos e nas emissões. Quando se procura uma recuperação rápida do ritmo, com o natural pisar do acelerador, há uma pequena demora na resposta, decorrente da ‘procura’ por parte do sistema de comando da caixa da relação mais indicada. Depois, o ‘disparo’ do motor turbodiesel.

Em modo Auto, a questão é quase impercetível e no modo Dynamic praticamente ultrapassada, com o A8 a responder com imensa pujança, mesmo que a entrega da potência seja sempre progressiva. Porém, é o binário que faz a diferença, entregue a um regime tão baixo como as 1250 rpm! Por isso, o A8 acaba por aparentar sempre rapidez inerente, algo que a aceleração dos zero aos 100 km/h – em 5,9 segundos – serve para corroborar.

As passagens de caixa são impercetíveis e ajudam a tratar com suavidade condutor e passageiros. No entanto, alguns apontamentos: o refinamento a bordo é ligeiramente importunado pela reativação do motor após entrada em funcionamento do sistema start-stop, com algumas vibrações a sentirem-se a bordo.

Os consumos do A8 em versão Diesel também são apelativos: no total dos 100 quilómetros de ensaio (com percurso sempre a ritmos moderados legais e com 60% de cidade e o restante em nacionais e autoestrada), obtivemos uma média de 6,7 l/100 km, não muito longe dos 5,8 litros anunciados pela companhia germânica. Uma boa medida, portanto.

Elétrico em versão ‘leve’

O Audi A8 conta com um novo sistema de eletrificação suave na forma de uma rede elétrica acessória de 48 volts que recorre a um motor elétrico que serve de motor de arranque nos períodos de start-stop (mantém-se o motor de arranque tradicional por ser considerado mais benéfico a frio) e de gerador elétrico. É o motor gerador que permite desligar o motor V6 Diesel quando circula em ‘roda livre’ ou ‘à vela’, função que se ativa entre os 55 km/h e os 160 km/h, permitindo mantê-lo desligado durante um máximo de 40 segundos.

Contudo, o Audi A8 ainda não é híbrido. Sê-lo-á quando for lançada a versão Plug-in híbrida. Por enquanto, este é apenas um sistema que auxilia os consumos e as emissões, tratando-se de um híbrido ‘suave’.

Agora sim, vamos aproveitar todas as comodidades tecnológicas deste alemão de grande porte.

É tão fácil habituarmo-nos a tanto luxo

A Audi não fez por menos no momento de rechear o seu novo A8 de uma extensa panóplia tecnológica que visa oferecer elevados níveis de luxo, mas também funcionalidade aos mais diversos níveis. E é tão fácil ganhar-lhes habituação…

Entre-se pelo lado do condutor e este é recebido por bancos extremamente confortáveis que escondem no seu interior comodidades como as funções de aquecimento, ventilação, massagem e regulação elétrica, todas elas com diferentes níveis de intensidade. Destaque para os diferentes programas de massagem, um pouco à imagem do que sucede por exemplo num Mercedes-Benz Classe S ou até num mais comum DS 7 Crossback, mas o Audi A8 situa-se bem no topo do segmento em matéria de tecnologia e de conforto.

mais: conforto, requinte, tecnologia a bordo, suavidade da condução, agilidade dentro e fora das urbes, prestações, qualidade geral.

Menos: pilares a e espelhos que roubam visibilidade a 3/4, preços de alguns opcionais.

Ao carregar no botão de ignição na consola central surge uma melodia harmoniosa que faz recordar um trecho da música ‘Earth Song’ de Michael Jackson… Depois, ganham ‘vida’ os diversos sistemas. À frente do condutor situa-se o muito funcional painel de instrumentos digital Audi virtual cockpit, assente num ecrã de 12.3 polegadas bastante personalizável e que oferece ao condutor uma vastidão de informação e funcionalidades sem que tenha de desviar os olhos da estrada. Com esse objetivo surge também o sistema head-up display, embora o da marca alemã comece agora a parecer muito simplista face ao de algumas propostas rivais.

Adeus MMI, olá ecrãs táteis

Na consola central, uma das grandes mudanças desta geração, com o sistema MMI de comando rotativo a desaparecer. A fazer as suas vezes para o controlo dos sistemas de infoentretenimento está agora um ecrã tátil de 10.1 polegadas com o qual são controlados todos os sistemas e funcionalidades do Audi, desde a navegação aos modos de condução drive select, passando pelos ajustes de rádio e da conectividade. A este respeito, há hotspot Wi-Fi e rádio digital que nos permite ouvir estações de outros países.

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Como um ecrã tátil poderia ser coisa pouca, a Audi colocou outro, ligeiramente mais pequeno, logo abaixo, com 8.6 polegadas. É neste que se comandam todos os aspetos da climatização, embora nele estejam também os comandos do Audi drive select. Depois, todos os comandos da massagem também estão aí incluídos.

Atrás é que se está bem

Nos bancos de trás, com imenso espaço em todas as direções, seja para as pernas, como em altura, os passageiros podem beneficiar de imensas comodidades, também com aquecimento e ventilação dos bancos laterais, ajuste elétrico do seu posicionamento e ajuste de iluminação, além de tablets colocados nas costas dos bancos dianteiros e um mini-tablet colocado no encosto central do banco traseiro, que quando deitado para servir de apoio de braços revela os ajustes elétricos do banco e esse mini-tablet de comando. Dois passageiros viajam muito bem nos bancos posteriores e sem necessidade de apertos, que é algo que em modelos deste género nunca se pretende.

Tecnologia autónoma em stand-by

Como já se percebeu, a marca de Ingolstadt levou a cabo um trabalho avultado na hora de desenvolver o seu novo topo de gama e, além dos atributos impressionantes de requinte e luxo no habitáculo, tratou de colocar neste modelo toda a tecnologia que lhe é permitida neste momento. Isso inclui, então, o sistema de condução autónoma de nível 3 que, no entanto, não estará disponível por enquanto para os condutores europeus. A razão é simples e prende-se com a legislação atual, que coloca vários e sérios entraves à condução autónoma neste momento.

Assim, por enquanto, o Audi A8 apenas poderá guiar-se – tomando conta de todos os controlos em condições de autoestrada ou vias rápidas com separadores centrais físicos (entenda-se uma barreira de betão ou rails) em velocidades até aos 60 km/h. Aí, o novo modelo de luxo da Audi acelera, trava, vira e mantém a distância para o carro da frente. Daí o nome traffic jam assist.

Por outro lado, tal como muitos outros sistemas já fazem – o AutoPilot da Tesla ou o Drive Pilot da Mercedes-Benz – consegue também guiar-se na autoestrada, fazendo exatamente as mesmas funções que nos engarrafamentos, mas necessita da colocação das mãos do condutor no volante de forma intervalada. Só para garantir que ainda está acordado.

Para controlar todo este manancial de dados e leituras, o Audi A8 confia numa unidade eletrónica de comando denominada zFas, que tem o tamanho aproximado de um pequeno computador portátil e que, no seu interior, conta com mais tecnologia e ‘inteligência artificial’ do que todo o Audi A8 anterior!

Essa unidade recebe e analisa os dados provenientes de um inovador scanner laser que faz a leitura da estrada por diante, mas também de um radar de longo alcance e quatro de médio alcance, câmara dianteira, câmaras de 360 graus e até 12 sensores ultrassons.

Outros sistemas de assistência à condução facilitam o estacionamento, que se pode fazer autonomamente com o Parking Pilot, com o condutor a poder controlar remotamente as operações, havendo ainda um que deteta a proximidade dos passeios para que não se estraguem as jantes. Afinal de contas, ninguém quer ter uma berlina com valor superior a 100 mil euros e com jantes de 21 polegadas lascadas por lancis.

Em suma, um compêndio de tecnologias e comodidades à qual é fácil ganhar habituação e à qual depois se torna difícil dizer adeus. É que é tão bom ser ‘tratado’ com tamanho requinte!

VEREDICTO

A Audi jogou todas as suas cartas neste seu novo ‘navio-almirante’, um compêndio de tecnologias de última geração que merece fortes elogios em praticamente todas as áreas de avaliação, mas sobretudo pelo refinamento e silêncio a bordo – um encanto – e pela pujança do motor em conjunto com a quantidade de tecnologias de conectividade e de segurança incluídas. O sistema de condução autónoma de nível 3 ainda não funciona em pleno por imposições legislativas, mas é já um apontamento altamente vanguardista num modelo que foi pensado para ser isso mesmo… vanguardista.

Naturalmente, nem só de tecnologia ‘vive’ um carro destes – embora o luxo que oferece a todos os passageiros seja nota dominante. É um automóvel de topo e, como tal, oferece uma experiência de condução muito equilibrada entre conforto e dinamismo, mercê de tração integral quattro e de eixo traseiro direcional. Mas não só: todo o trabalho feito ao nível do chassis paga dividendos na condução, assim como o motor, extremamente eficiente e responsivo. O facto de poder desligar-se por alguns segundos em fases em que o acelerador não é pressionado adiciona uma nova dimensão, o que só é possível pelo novo sistema elétrico de 48v.

Em suma, a Audi tem aqui um modelo de nova geração para uma nova geração. A única questão é que, para um modelo destes, com todas as comodidades já faladas, das duas uma: ou o conduz e não aproveita todas elas, ou é conduzido e não aproveita a condução. Escolha difícil esta.

FICHA TÉCNICA

Audi A8 50 TDI 286 CV Tiptronic quattro

Motor: Diesel, V6, turbo, intercooler
Cilindrada: 2967 cm3
Potência: 286 CV às 3700-4000 rpm
Binário máximo: 600 Nm às 1250-3250 rpm
Suspensão Dianteira: Independente, McPherson, molas pneumáticas
Suspensão Traseira: Independente, multibraços, molas pneumáticas
Tração: Integral quattro
Caixa: Automática de oito velocidades (com opção manual/sequencial)
Aceleração (0-100 km/h): 5,9 segundos
Velocidade máxima: 250 km/h
Consumo médio anunciado (medido): 5,9 l/100 km (6,7 l/100 km)
Emissões de CO2: 152 g/km
Peso: 2050 kg
Bagageira: 550 litros
Comprimento/Largura/Altura (mm): 5172/1945/1473
Distância entre eixos (mm): 2998
Preço base (ensaiado): 119.180€ (-)

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