Ensaio Citroën C3 Aircross 1.2 Puretech 130: A arte francesa do conforto

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Ao Citroën C3 Aircross não se pode negar uma condição de apego algo estranha. Não é o mais rápido do mundo e não é, certamente, o mais dinâmico – até pelos cânones do segmento a que se destina. Mas a bordo deste SUV, mais um para o mercado mais popular do momento, está-se sempre bem. Esta é a principal força deste pequeno modelo francês que ‘esbanja’ irreverência, jovialidade e conforto.

O sucessor do C3 Picasso chega a Portugal com uma missão muito bem definida de se posicionar entre os mais requisitados do segmento e esgrime os seus mais poderosos argumentos, nomeadamente em termos de estética e funcionalidade interior. Por fora, este Citroën começa logo por ‘levantar o espírito’ com o seu ar redondinho, um tanto ou quanto ‘balofo’ (para utilizar a expressão de Rui Pelejão, que promoveu uma Volta à Córsega a bordo deste modelo na apresentação internacional), mas que incita logo ao sorriso. E metade do caminho para conquistar o cliente está feito.

O estilo consegue aliar robustez e suavidade em igual medida, destacando-se na dianteira os grupos óticos bipartidos, o capot elevado e os chevrons cromados que integram uma assinatura luminosa de LED. Na traseira, ‘ombros’ largos e luzes traseiras com efeito 3D, havendo ainda que destacar as janelas traseiras realizadas em policarbonato. Para salientar o seu lado mais versátil e aventureiro, além dos 17,5 cm de altura ao solo, dispõe de proteções nas cavas das rodas e na parte inferior da carroçaria, pintadas de preto mate. As barras no tejadilho são outros elementos fortes do design deste C3 Aircross. Não lhe chega tudo isto? Então, entre pelo capítulo das personalizações e vai ‘perder a cabeça’ com a quantidade de variações de cor e de opcionais disponíveis para tornar este Citroën numa peça ‘única’. No total, a marca aponta 85 combinações… Chega e sobra!

Ser feliz no acolhimento

Se o exterior chama a atenção, o interior ‘prende’ racionalmente. Para um modelo de segmento B-SUV, o C3 Aircross demonstra uma atitude muito competente com uma ergonomia bem pensada, em que a simplicidade impera, além de uma qualidade bem-vinda nalguns elementos. Por exemplo, a parte superior do tablier do modelo ensaiado em versão Shine tinha revestimento macio ao tato (em tecido), em cor condizente com a dos bancos, assim tornando harmonioso todo o conjunto. Também por isso, é tão agradável de se estar lá dentro, desfrutando de bancos com bom apoio e, acima de tudo, confortáveis. Nas zonas mais escondidas do habitáculo encontram-se, por outro lado, os tradicionais plásticos mais rijos. Note-se que este é um carro acessível e é assim que deve ser observado.

Ao mesmo tempo, nessa mesma postura de simplicidade interior, a Citroën – tal como a ‘irmã’ do Grupo PSA, a Peugeot – remete para o sistema de infoentretenimento a grande maioria das funcionalidades, como a da climatização ou navegação (Connect Nav 3D). Após um normal período de habituação, torna-se intuitivo, mas não impede que se desvie o olhar da estrada ‘aqui e ali’.

Pautando uma boa experiência familiar, o espaço a bordo impressiona, até mesmo para quem é alto graças aos 2.60 m de distância entre eixos que influenciam positivamente o interior. De facto, exibe qualidades evidentes nas três cotas em apreciação, tanto em largura, como em altura, além de que o espaço para as pernas é adequado para adultos de grande estatura. Os lugares posteriores beneficiam, igualmente, de bancos confortáveis, sendo que os mesmos podem ser movidos longitudinalmente em 15 cm para a frente para aumentar a volumetria da mala. Dessa forma, os 410 litros de base, ampliam-se para os 520 litros sem ter de ‘eliminar’ a utilidade dos lugares traseiros.

Condução ‘feel good’

A servir de base para este C3 Aircross está a plataforma que também serviu para o Peugeot 2008 e para o Opel Crossland X, embora particularmente afinada para os predicados da Citroën. E quais são esses? Conforto e simplicidade de processos, como já acontece no C3 mais ‘pequenito’ que também partilha muitos dos seus genes. O C3 Aircross é por isso um modelo que tem uma natural tendência para tornar as viagens mais dóceis para os ocupantes, defendendo-os das irregularidades mais gritantes do asfalto. A suspensão, desenvolvida ao abrigo do conceito Citroën Advance Confort, uma abordagem integrada do que deve ser o conforto a bordo de um Citroën.

Uma ideia de que tudo – desde os bancos ao amortecimento – deve promover uma viagem agradável a quem vai a bordo. Assim, recorre a uma técnica de colagem estrutural que incrementa a rigidez da carroçaria e a uma nova e revolucionária suspensão de duplo batente hidráulico, que permite à suspensão trabalhar em dois tempos — extensão e compressão — em função das solicitações, evitando dissipações de energia que têm sempre efeitos nos movimentos verticais e longitudinais do chassis.

Ainda assim, para combater a maior altura ao solo, nota-se, aqui e ali, um pisar mais firme, mas nada de severo, sendo que apostar numa condução mais afoita também não é por aí além de recompensador para este modelo. A carroçaria denota inclinação evidente em curvas feitas de forma mais despachada, pelo que o melhor é optar por uma toada mais calma e desfrutar da viagem, sem exageros. Até porque o conforto e a ambiência a bordo é mesmo apelativa para uma condução mais homogénea, sem grandes rasgos de desportista, ainda que a direção até tenha bom ‘feeling’. Sobretudo, em cidade, onde a sua condução exibe ainda mais pontos, com uma posição de condução elevada e visibilidade facilitada em todas as direções.

Copyright Wiiliam CROZES @ Continental Productions

Nesta versão, o C3 Aircross conta com sistema Grip Control (opcional por 400€) que aumenta a capacidade de aderência deste Citroën consoante o tipo de piso. Sendo unicamente oferecido com tração dianteira, serve especialmente para contornar algumas lacunas de motricidade que possam ocorrer em determinadas superfícies. São-nos apresentados quatro modos selecionáveis a partir de um comando rotativo na consola central (Areia, Todo-o-Terreno, Neve e ESP Off), a que se junta um modo de Hill Assist Descent Aid, que mantém a velocidade estável e reduzida em descidas verdadeiramente íngremes. Não sendo este um TT a sério e à risca, parece-nos algo exagerada esta tecnologia. A menos que tenha de estacioná-lo muitas vezes naquele ‘morro’ de terra quando precisa de ir ‘à bola’ e os lugares legais estão ocupados. Ainda assim…

Gasolina ao poder

Numa fase em que o mercado parece estar a encetar uma viragem para os gasolina, afastando-se da predominância Diesel que grassa há anos no nosso país, os motores a gasolina vão ganhando pontos. No caso deste C3 Aircross equipado com o motor 1.2 Puretech de 130 CV em conjugação com a caixa automática EAT6, assenta que nem uma luva.

Além de expedito nas acelerações e nas recuperações, este é um motor que parte para ritmos altos com facilidade, mostrando energia capaz de surpreender, sobretudo nas recuperações, em que a caixa – com passagens rápidas e boa gestão – também ajuda.

Opte pelo modo manual-sequencial (apenas possível de utilizar a partir do manuseamento da alavanca) e a caixa fica à sua mercê para tirar o melhor partido dos 130 CV de potência e dos 230 Nm de binário disponíveis às 1750 rpm. Mas, muito antes, já pode tirar partido dessa folga de energia para subir o ritmo rápida e eficazmente, tanto em cidade como em autoestrada, onde está à vontade. Outras características desta unidade Puretech são o ruído, que não sendo intrusivo, é evidente sobretudo a frio, e o consumo, que é relativamente alto. No nosso ensaio, obtivemos uma média de 7,4 l/100 km, algo longe dos 5,6 l/100 anunciados pela companhia francesa.

Em termos de equipamento, o nível Shine associado a este 1.2 Puretech de 130 CV propõe uma boa relação preço/conteúdo com itens como o já citado Citroën Connect Nav com kit mãos-livres Bluetooth, ecrã tátil de 7″ com função Mirror Screen, seis altifalantes, sensores de chuva e de luz, ajuda ao arranque em subida, Alerta de Transposição Involuntária de Linha (AFIL), acesso e arranque mãos livres, reconhecimento dos sinais de trânsito, travagem autónoma de emergência, bancos traseiros deslizantes, ajuda ao estacionamento traseiro, Pack City Câmara com Top Rear Vision (câmara de visão traseira com alcance de 180º) e cruise control, apenas para mencionar alguns dos mais relevantes. A versão Shine tem um custo de 21.600€, mas a entrada na gama faz-se com um menos entusiasmante 1.2 Puretech de 82 CV no nível Live por 15.900 euros.

VEREDICTO

A Citroën jogou bem com este C3 Aircross, tendo aqui um produto que reúne os argumentos certos para o sucesso no segmento. Visual irreverente e muito personalizável, habitáculo luminoso e espaçoso, além de modular (numa herança doutros modelos mais versáteis da marca) e uma condução que coloca os passageiros no lado apreciável do conforto, com uma sensação muito agradável na capacidade de absorção dos mais variados buracos e lombas do asfalto. Mas, é a soma de todas as partes que faz do Aircross uma agradável surpresa, com um ambiente muito simpático que nos faz querer ‘embalar’ para viagens longas com a certeza de que chegaremos ao destino com grande tranquilidade e com o físico intacto.

Quanto ao motor, a versão de topo com os seus 130 CV é aquela que permite as prestações mais vivas, subindo de ritmo facilmente, sobretudo com esta associação à caixa automática de seis velocidades. No geral, uma escolha acertada para a grande maioria das situações, competente e eficiente, mesmo que não disfarce a sua arquitetura de três cilindros. Valerá a pena, também, analisar a variante de 110 CV deste mesmo motor, para tentar perceber se não será mais vantajosa.

Com um custo equilibrado (há outras versões mais acessíveis do que esta), o C3 Aircross está aqui para reclamar o seu lugar num segmento em que os concorrentes germinam ‘que nem cogumelos’. Pelo caminho, deixará muita gente com um espírito feliz. Uma viagem será suficiente para perceber o porquê.

FICHA TÉCNICA

CITROËN 1.2 PURETECH EAT6 SHINE
Motor 1199 cc, 3 cilindros em linha, injeção direta, turbo, intercooler
Potência 130 CV/5500 rpm
Binário 230 Nm/1750 rpm
Transmissão Caixa automática de 6 velocidades, tração dianteira
Aceleração 0-100 km/h 9,3 seg.
Velocidade máxima 183 km/h
Consumo médio (anunciado – medido) 5,6 l/100 km – 7,4 l/100 km
Emissões CO2 126 g/km
Comprimento/largura/altura 4155/1765/1648 mm
Distância entre eixos 2604 mm
Peso (c/ condutor) 1278 kg
Bagageira 410 – 1289 litros
Depósito de combustível 45 litros
Suspensão dianteira Independente McPherson
Suspensão traseira Eixo de torção
Preço base 21.410€ (ensaiado: 23.900€)

PRINCIPAIS OPÇÕES

Pack Shine: jantes em liga-leve diamantadas pretas de 17” 4 EVER e tejadilho panorâmico com comando eléctrico (990€); Pack Family: apoio de braço no banco do condutor, banco do passageiro com encosto que permite posição mesa e Pack Safety (250€); recarga sem fios para smartphones (100€); Grip Control com Hill Assist Descent Control (400€), ambiente interior Metropolitan Grey (350€); cluster de informação de 3.5″ a cores (160€) e Pintura bi-tom (750€).

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