Ensaio Hyundai Kauai 1.0 T-GDI: Vamos acabar com a piada fácil?

Depois de muitos se terem fartado de gozar com o nome original deste novo crossover da Hyundai, é altura para o primeiro ensaio em solo nacional mostrar o que realmente vale o Kauai. Acabou a brincadeira!

Prometo que não vou embarcar na piada fácil e gastar a sua atenção com trocadilhos mais ou menos infelizes que envolvam o nome original deste novo Crossover da Hyundai. Em Portugal, chama-se Kauai e isso para mim é o que me interessa, o nome “português” até está escrito nos tapetes do carro, que se vê mal se abrem as portas.

Mais um SUV? Sim, mais um SUV, neste caso mais um Crossover, que parece ser a palavra que se está a colar aos SUV de teto ligeiramente mais baixo que os outros. A verdade é que a oferta deste tipo de carros – vamos dizer assim para simplificar: com suspensão mais alta – está cada vez mais difícil de perceber. Quem quer um SUV que afinal não é tão alto como… um SUV? Pelos vistos, há muito quem queira, ou não estivesse a fábrica Autoeuropa de Palmela a pensar em contratar mais 400 empregados. Haver um termo de comparação ajuda sempre e, neste caso, o rival mais direto do Kauai é precisamente o “português” T-Roc.

A Hyundai já avisou que quer ser a marca asiática mais vendida na Europa até 2021, até me parece que eles querem bem mais do que isso, dada a verdadeira marcação homem-a-homem que estão a fazer à VW. Contra o Tiguan, avança o Tucson e contra o T-Roc, vai o Kauai. Dois paralelos entre muitos outros que se podem encontrar nas duas gamas.

Mas aqui interessa-me o Kauai. Feito com base numa plataforma nova, mas já usada na última geração do Elantra, não comercializado em Portugal, o Kauai mede 4,2 metros e tem uma estrutura com 51% de aço de alta resistência, aço fabricado pela própria Hyundai, que usa a tecnologia da prensagem a quente para peças sujeitas a maiores esforços, além de 115 metros de adesivos, para complementar as soldaduras. Ao contrário do que acontece em cada vez mais SUV/Crossovers, o Kauai tem versões de tração à frente e de tração às quatro rodas, além de caixa automática de dupla embraiagem, em opção. Para já, só tem motores turbocomprimidosa gasolina: um três cilindros de 1.0 litros e 120 cv e um quatro cilindros de 1.6 litros e 177 cv, acoplado à tal caixa automática.

No próximo ano haverá de chegar um Diesel e alguns clientes é possível que esperem por ele. Não tenho a certeza se vão fazer bem em esperar. O que sei é que o 1.0 T-GDI de 120 cv a gasolina se dá muito bem com os 1233 kg do Kauai. Não é o três cilindros mais silencioso do mundo, mas o som que faz está longe de incomodar, pelo contrário, a “música” até acaba por entrar no ouvido. Com tão pouca cilindrada e um turbocompressor pequeno, nem seria de esperar que a resposta a baixos regimes fosse tão boa, se bem que é óbvio o pequeno “salto” que dá um pouco antes das 2000 rpm, quando o binário entra no máximo de 172 Nm. Ou seja, a força está lá quando é precisa e até mais do que se espera, com a caixa de velocidades manual de seis relações a facilitar a tarefa de tirar o melhor do motor. Fazer consumos na casa dos 6,0 l/100 km, num misto diário de cidade e via rápida, não é difícil, desde que não se exagere com o pedal da direita. Diesel?… Para quê?

Com apenas 170 mm de altura ao solo e tração às rodas dianteiras, a maior aventura que esta versão estará habilitada a fazer será subir um passeio e mesmo assim com cuidado, para não riscar as jantes de 18 polegadas, calçadas com uns pneus de medida 235/45 R18, um exagero, para a potência disponível, e uma despesa, quando chegar a hora de os trocar.

Mesmo assim, o Kauai não é um “quebra-costas” quando chega o mau piso típico de algumas ruas e estradas nacionais, com aquele misto de buracos e remendos em que nos tornámos especialistas. A suspensão sabe filtrar bem as pancadas, mesmo ficando-se por um sistema semi-rígido atrás, com barra de torção. A verdade é que a alta rigidez da estrutura facilita o trabalho do amortecimento, o que se nota também no comportamento dinâmico. A direção tem uma assistência correta e o “feedback” suficiente, com um volante de excelente pega e muito bem posicionado, contribuindo para uma posição de condução que não deve levantar queixas a ninguém, a não ser àqueles que gostam de guiar sentados mais altos que os outros. Nisso, o Kauai pode desiludir. Em condução tranquila, o Hyundai sente-se sólido e muito bem controlado. Não há nenhum daqueles tiques dos SUV mais altos, que abanam um pouco, como a querer fazer lembrar as suas origens nos verdadeiros “jipes” de há vinte e tal anos. No Kauai, a diferença para um carro convencional é muito pouca.

Querendo explorar um pouco mais a dinâmica, basta acelerar com entusiamo numa curva mais fechada para sentir a roda dianteira interior a querer patinar, chamando o ESP à ação. É um dos poucos sinais de que o Kauai é um Crossover. Aliviando um pouco o acelerador ou usando uma mudança acima, isso desaparece para deixar perceber uma dinâmica razoavelmente controlada, sem ambições de grande envolvimento do condutor, mas segura e previsível. De um crossover não se espera muito mais que isto. Mas ainda me falta guiar uma versão 4×2 do T-Roc, para ter a certeza.

Onde o Kauai volta a seguir o T-Roc é no tipo de plásticos do interior, que são rígidos em todo o lado e nem sequer os cintos de segurança e frisos em vermelho lhe dão alguma alegria. O painel de instrumentos também é muito básico e a presença de um travão de mão mecânico mostra que esta não é a plataforma mais moderna do mundo, apesar de estar preparada para receber uma motorização 100% elétrica. A preocupação com os custos de produção é mais que óbvia, mas isso tem a vantagem de um preço final que se fica pelos 18 150 euros, para este 1.0 T-GDI, durante a campanha de lançamento com 3000 euros de desconto. De resto, o espaço nos lugares de trás é melhor em comprimento que em largura e a mala tem um acesso nivelado com o fundo, o que é sempre bom.

Entre o que é de série nesta versão, merece elogios a manutenção ativa da faixa de rodagem, que não deixa o carro chegar aos extremos da via, mantendo-o certinho no meio da faixa. Também há câmara de marcha-atrás e um razoável monitor tátil de 7 polegadas, com Android Auto e Carplay. Como não poderia deixar de ser, o tejadilho pode ser encomendado numa cor diferente do resto da carroçaria, produzindo vinte combinações diferentes, para quem não quiser ter um Kauai igual ao do vizinho.

A Hyundai afirma que vai lançar 30 novos modelos, incluindo novas variantes, até 2021. Com tanta oferta, este Kauai corre o risco de se perder na torrente de marketing que se avizinha. Mas isso seria pensar que a Hyundai não sabe gerir as suas novidades, o que já mostrou estar longe de ser o caso.

Ficha técnica

Hyundai Kauai 1.0 T-GDI

Motor Gasolina de três cilindros, turbo
Cilindrada 998 cm3
Potência 120 cv/6000 rpm
Vel. Máx. 181 km/h
Aceleração 0-100 km/h 12,0 segundos
Consumo médio 5,3 l/100 km
Emissões CO2 125 g/km
Peso 1233 kg
Bagageira 361 l
Preço 18.150 euros

Gama em Portugal
1.0 T-GDI 120 cv – 18.150 euros
1.6 T-GDI 177cv auto – 26.250 euros

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