Ensaio Kia Stonic 1.0 T-GDI: “Vai-te a eles, tigre’

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Utilizar a frase proferida por Mary Jane Watson (Kirsten Dunst) ao ‘seu’ Peter Parker (Tobey McGuire) no final do segundo filme ‘Homem-Aranha’ pode causar estranheza, mas adequa-se muito bem à chegada do novo Kia Stonic. Incentivado por uma quase imbatível campanha de lançamento, o novo crossover entra num segmento extremamente povoado que ainda vai crescer nos próximos tempos com as chegadas do ‘primo’ Hyundai Kauai e do Volkswagen T-Roc. Confiança é algo que não lhe falta.

Mas a Kia fez bem o seu ‘trabalho de casa’. Desde logo, com a perceção de que o segmento SUV-B, aquele onde o Stonic se insere, não é muito dado à questão da fidelidade de marca. De acordo com a companhia sul-coreana, as pessoas que querem um modelo do género vão ‘atrás’ da imagem desportiva e arrojada, mas também de funcionalidade e de prestações ritmadas. E este Kia preenche bem esses requisitos com uma gama composta por três motorizações (duas a gasolina e uma Diesel), imagem irreverente e interior muito competente.

Momento de vitalidade

Respira-se vitalidade na Kia. Só este ano, a marca do grupo Hyundai lançou no mercado os novos Rio, Picanto e Stinger, mas é no Stonic que vão estar centradas as atenções da marca nos próximos tempos. Isto porque o mercado B-SUV tem vindo a crescer e não dá sinais de parar, atraindo clientes de todas as outras áreas, desde os compactos familiares de segmento acima ao dos utilitários. A Kia tem já em carteira um total de 400 encomendas do novo Stonic, mas espera que no primeiro ano as vendas cheguem às 1000 unidades, tendo todo o potencial para ser o mais vendido da marca a nível europeu.

Sem invenções

Assim, procurou-se também não inventar muito. A Kia ‘requisitou’ a plataforma do Rio e, com os ajustes devidos, produziu um crossover compacto com desenho arrojado, sobretudo pela dianteira pautada pela evolução da grelha ‘Tiger Nose’ (veem? A ligação ao tigre também passa por aqui…) e pelos faróis mais estilizados e pelas entradas de ar mais largas, mas também pela linha de ombros mais ampla e pelas cavas das rodas salientes, para uma sensação de maior robustez. Na traseira, os farolins com efeito tridimensional dão um toque muito interessante, aliando-se a um para-choques robusto. De perfil, nota ainda para as barras do tejadilho e para a configuração ‘targa’, à qual já iremos regressar.

Tudo combinado, resulta num modelo que tem uma presença muito chamativa, mesmo que nas cores mais banais, como o branco, preto ou cinzento perca um pouco da sua intensidade. As proteções inferiores conferem-lhe ainda um carácter off-road que é, no entanto, algo enganador: com tração dianteira e altura ao solo limitada (18,3 cm), o Stonic apenas entra por maus caminhos se estes não forem muito exigentes em termos de tração ou de obstáculos, sob pena de refazer alguma da estética inferior. A sua maior ‘alegria’ será o asfalto, por isso também não convém ‘inventar’ muito…

Com boa pinta, o Stonic permite ainda uma grande variedade de possibilidades de personalização, com 20 opções de combinação de cor geral (nove da carroçaria e cinco do teto), sendo este então o estilo ‘targa’ com pintura bi-tom, um opcional que só chegará ao nosso mercado nos primeiros meses de 2018 com um custo em redor dos 150€.

Interior honesto

No habitáculo, que até revela espaço interessante para o segmento (não obstante os 4,14 m de comprimento e os 2580 mm de distância entre eixos), a Kia concebeu um modelo pautado pela simplicidade (inspirando-se no do Rio). A grande maioria dos revestimentos é de plástico rijo, tanto no tablier, como nas portas, faltando um pouco de material suave ao tato para que o interior estivesse num nível melhor. Além disso, embora personalizável nalguns aspetos, como no volante, bancos e consola central, falta um pouco mais de alegria a bordo.

Por outro lado, o Stonic tem uma construção que está já a par dos melhores. Rigorosa, a junção entre painéis tem tudo para ser duradoura a imune aos ruídos parasitas, mesmo em pisos muito maus. O já referido espaço a bordo é bom q.b. para quatro adultos, não havendo grandes constrangimentos em termos de altura interior e na amplitude para as pernas de quem vai atrás. A largura permite viagens de três passageiros, mas apenas em percursos mais curtos e com algum aperto. Nada de surpreendente no mercado, sendo também um hábito doutros modelos da classe.

A capacidade da bagageira cifra-se na média do segmento mas está longe de ser referencial, com 352 litros de capacidade e compartimento de carga regular, embora o ‘lábio’ da carroçaria seja alto. Com o rebatimento das costas (proporção 60/40) dos bancos traseiros, a capacidade pode chegar aos 1135 litros. Os espaços de arrumação no interior são úteis, mas não é por aí que o Stonic se demarca.

Condução espevitada

Ao volante, com uma posição de condução que não difere assim tanto da do Rio (ainda que mais elevada para melhor visibilidade geral), o Stonic vai ao encontro daquele que foi um dos objetivos da marca: oferecer condução dinâmica. Com um acerto de chassis bem conseguido, o Stonic curva de forma segura e estável, transitando de forma competente de curva para curva com ligeiro rolamento da carroçaria apenas quando a transferência de massas é feita de forma muito acentuada. Ou seja, quando se curva muito depressa. A direção, que beneficia de um novo motor de assistência, também contribui para esta noção de dinamismo, à qual ajuda também o reforço estrutural da carroçaria com a utilização de novos adesivos.

Com jantes de 17” e o já referido acerto de suspensão a pender para a dinâmica, o Stonic revela alguma firmeza em estradas de empedrado ou de asfalto mal cuidado, mas está longe de ser incomodativo para os passageiros.

Tudo isto com o auxílio daquele que será um dos motores de proa da Kia para este Stonic, o 1.0 T-GDI, uma unidade a gasolina com 120 CV, de apenas três cilindros e com turbo que permite a este modelo boas prestações sem muito esforço. Com energia q.b. num patamar já entre as 1250 rpm e as 1500 rpm, acaba por ser uma unidade muito elástica que mostra enorme facilidade em aceleração e nas recuperações, mercê então dessa sua competência em baixos regimes (172 Nm entre as 1500 rpm e as 4000 rpm). Mas é sobretudo acima das 2000 rpm que se mostra mais vivo com respostas mais prontas, tornando também a condução mais desportiva. Em autoestrada, mantém os 120 km/h com relativa folga, o que traduz então uma versatilidade de utilização que não o confina unicamente à cidade.

O escalonamento da caixa manual (automáticas só em 2018) de seis velocidades também ajuda, podendo-se assim tirar partido de um motor com energia para o levar dos 0 aos 100 km/h em apenas 10,3 segundos.

Convém ainda mencionar uma série de pontos importantes para a apreciação do motor: em primeiro lugar, a quilometragem do Stonic ensaiado era baixíssima, o que quer dizer que as prestações tenderão a ficar melhores. Mas esse facto também tem impacto nos consumos, com este modelo a ficar nos 7,1 l/100 km de média face aos 5,0 l/100 km anunciados. A insonorização a bordo tem espaço para melhorar, uma vez que a frio se percebe facilmente que este é um motor de três cilindros.

Lista recheada

A Kia surge no lançamento com um conjunto muito apetecível em termos de equipamento. No caso do motor a gasolina turbo (há outro atmosférico de 1.2 litros), apenas pode ser associado aos dois níveis de topo, o EX e TX, sendo que, na primeira dessas traz já itens como o ecrã tátil de 7″ com navegação, ar condicionado automático, cruise control, câmara de estacionamento traseira (a par de sensores de parque), sensores de luminosidade e de chuva, jantes de 17″ e faróis de halogéneo bifuncionais.

Depois, o preço. O capítulo que faz a Kia dizer mesmo ‘vai-te a eles‘. O Stonic 1.0 T-GDI tem um custo base de 20.400€, o que já é um valor interessante, mas graças a uma campanha de lançamento (até 31 de dezembro), beneficia de um desconto de 3.700€, o que o coloca a muito convidativos 16.700€. A versão com o motor 1.2 MPI de 84 CV a gasolina tem um custo de 17.100€ de base e de 13.400€ com o já referido desconto, pelo que a ambição da Kia é fácil de perceber: ganhar espaço neste segmento.

VEREDICTO

A Kia tem aqui um potencial ‘vencedor’ em mãos. Bem concebido com estética que chama muito a atenção pela ousadia e jovialidade, o Stonic traz consigo também uma condução que se diferencia em muito das outras propostas do segmento, já que consegue ser interessante de conduzir sem prejudicar (em demasia) o conforto.

Da escolha de motores à disposição deverá ser esta unidade 1.0 T-GDI a mais solicitada uma boa forma de explorar os predicados do Stonic, oferecendo boas prestações e capacidade para circular de forma expedita, tanto em autoestrada, como em cidade (embora a versão 1.6 Diesel também deva ter o quinhão nas vendas…). Além disso, o habitáculo – que não tem a mesma irreverência que o exterior e apresenta plásticos rijos acima do desejado – é acolhedor para quatro adultos que poderão viajar de forma cómoda e sem apertos.

Claro que o preço é incontornável, mas seria redutor atribuir o potencial sucesso do Stonic a apenas essa vertente. Este Kia tem um conjunto de atributos fortes, como a imagem e a condução. Em suma, uma novidade que pode vir a ocupar uma posição de destaque neste segmento e uma prova de que a Kia está apostada a crescer cada vez mais na Europa, continente onde está cada vez mais ‘em casa’.

FICHA TÉCNICA

KIA STONIC 1.0 T-GDI EX
Motor 998 cc, 3 cilindros em linha, injeção direta, turbo, intercooler
Potência 120 CV/6000 rpm
Binário 172 Nm/1500 rpm
Transmissão Caixa manual de 6 velocidades, tração dianteira
Aceleração 0-100 km/h 10,3 seg.
Velocidade máxima 184 km/h
Consumo médio 5,0 l/100 km
Emissões CO2 115 g/km
Comprimento/largura/altura 4140/1760/1500 mm
Distância entre eixos 2580 mm
Peso (c/ condutor) 1155 kg
Bagageira 352-1155 litros
Depósito de combustível 45 litros
Suspensão dianteira Independente McPherson
Suspensão traseira Eixo de torção
Preço base 20.400€ (com campanha: 16.700€)

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