Kia Stinger: Alvo de assédio

Rui Pelejão
Rui Pelejão
Editor-Executivo

Carisma e temperamento são qualidades cada vez mais raras nos automóveis modernos. Por isso, sempre que aparece no bairro um carro como o Stinger, as cabeças rodam à sua passagem. Poucos imaginam que é um Kia…

O escritor e humorista brasileiro Millôr Fernandes era um mestre dos aforismos, ou dos desaforismos, como ele lhes gostava de chamar. Hoje, a maior parte dos seus dixotes jocosos seria banido pelas legiões da temperança social. Aqui fica um: “Anatomia é uma coisa que o homem também tem, mas numa mulher fica muito melhor”.

Não vou cometer a impertinência saloia de fazer analogias entre carros e mulheres, até porque as mulheres também gostam de carros bonitos e são elas as principais influenciadoras de compra de automóveis na Europa — calcula-se que 85 por cento das decisões de compra têm dedinho com verniz. Curiosamente, numa indústria claramente dominada por homens, as executivas de topo contam-se pelos dedos de uma mão.

Isto tudo para dizer que a anatomia conta, pelo menos num automóvel. O novo Stinger, que é uma espécie de Porsche da Kia, tem uma anatomia perfeita e aquela rara capacidade de fazer girar-cabeças por onde passa e de escutar os mais variados piropos, sem distinção de género (e nem sempre muito simpáticos para quem vai ao volante…)

Talvez todo esse alarido digno de celebridade se deva ao facto de ser um carro desconhecido e inconfundível. Não é mais um BMW ou um Audi, e ninguém acredita ser possível que aquilo seja um Kia!

Mas a verdade é que a marca coreana tem vindo a fazer um longo e meticuloso caminho desde o tempo em que vendia carros com ar de eletrodomésticos a preço de aparelhos auriculares, até aos dias de hoje, em que tem uma gama completíssima e se distingue pelo design com identidade e carisma, pela qualidade geral e até pelo preço, que já não é propriamente uma pechincha.

Este Stinger é por isso um modelo de afirmação da Kia, o seu melhor carro de sempre, o mais arrebatador e o mais bonito. Recupera as linhas clássicas dos Grande Turismo das décadas de 60 e 70, como o original Maserati Ghibli, e parece um carro de design italiano com tecnologia alemã.

Na verdade é exatamente esse o seu segredo, escondido no chassis. O desenvolvimento tecnológico é feito no centro tecnológico da KIA na Alemanha e esteve a cargo de Albert Biermann, um engenheiro que trabalhou 30 anos na ultra-exclusiva divisão M da BMW e que se juntou ao designer estrela da Hyundai-Kia, Peter Schreyer, que tem renovado a linguagem e a imagem de ambas as marcas, e que empresta a sua assinatura a este futuro clássico (juntamente com Gregory Guillaume).

Fulgurante

Para o teste de estrada recebi a versão mais extrema com um fulgurante V6 a crepitar 370 Cv debaixo do capot, disponíveis para distribuir pelas quatro rodas através de uma transmissão automática de oito velocidade.

Um autêntico absurdo de potência e performance que vicia logo nos primeiros quilómetros, pela facilidade com que se sobe de regime e a rapidez com que se atingem velocidades próximas de um fora-da-lei. Como é difícil não andar a brincar com o acelerador e as patilhas do volante que controlam as passagens de caixa, o primeiro dissabor são as constantes visitas às bombas de gasolina. Mas como disse, esta é a versão mais exclusiva (custa quase 87 mil euros), há um Stinger a Diesel com 200 Cv e tração traseira que custa apenas 57 mil euros e que é igualmente bonito e previsivelmente menos pantagruélico nos consumos.

Mas é na sua encarnação mais temperamental que o Stinger “ferra como uma abelha” e demonstra melhor as suas qualidades técnicas: Estabilidade a alta velocidade, rapidez em curva, direção precisa e incisiva e um carácter meio bipolar —o Stinger é capaz de ser um desafio para os ninjas da condução num track-day, bastando mudar a configuração para os mais radicais modos de condução Sport ou Sport + e começar a gastar pneus numas grandes derrapagens controladas, ou ser um brando e civilizado estradista nos modos Eco e Smart.

Essa dualidade permite ao Stinger ser capaz de ser um arraçado de desportivo ou transformar-se num grande automóvel familiar, confortável, com muito espaço a bordo, uma enorme bagageira e carregadinho de equipamento.

Um “pacato” familiar capaz de acelerar dos 0 aos 100 km/h em menos de 5 segundos, isto para quem se importa com isso dos segundos, que não era por exemplo o caso do nosso amigo Millôr Fernandes, o mestre dos desaforismos, que dizia sobre natação e automobilismo: “Tenho absoluta incapacidade de admirar um homem apenas porque ele é melhor do que o outro um centésimo de segundo.” Eu cá de natação pouco sei, mas tenho a certeza que se o Millôr desse uma voltinha neste Stinger, era capaz de mudar de ideias…

 

Ficha técnica

Motor V6 gasolina

Potência 370 Cv

Velocidade máxima 270 km/h

Consumo médio 10,6 l/100 km

Emisões CO2 244 g/km

Preço 87 350 euros

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.