Renault Grand Scénic 110 Hybrid Assist: O ‘anti-herói’ Diesel meio-híbrido

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Os híbridos estão na ordem do dia e os Diesel estão pelas ruas da amargura. Ou será que não? A comprovar que estas duas fórmulas podem coexistir sem dramatismos e sem extremismos, a Renault decidiu que o primeiro sistema híbrido da sua gama teria por base um motor Diesel, o já bem conhecido 1.5 dCi de 110 CV.

Por fim, a tecnologia híbrida chega à Renault. Mas fá-lo de maneira ainda tímida na forma de um ‘mild-hybrid’, ou seja, um sistema que concilia um pequeno motor elétrico com o principal motor de combustão, neste caso, o Diesel para obter uma redução nas emissões e nos consumos, melhorando ao mesmo tempo as prestações. Aliás, essa é uma ideia que fica bem patente na premissa de aliar a eletricidade ao gasóleo. Se este último já é muito eficiente, adicionar-lhe uma componente híbrida apenas poderá melhorar o conjunto. Certo? Já daremos a resposta.

Primeiro que tudo, convém esclarecer que este Grand Scénic Hybrid Assist não é um híbrido na verdadeira aceção da palavra. Isto é, conta com um motor elétrico de 10 kW/14 CV, mas esse não tem forma de movimentar, por si só, as rodas motrizes, cabendo esse papel sempre ao motor térmico. Porém, dispõe de solução tecnológica em que duas baterias coexistem para ajudar no propósito de reduzir consumos e emissões. A principal, de tração com 48 V, consegue recuperar energia decorrente das fases de desaceleração, armazenando a energia para utilização posterior, dando um pouco mais de binário (até 15 Nm) ao motor Diesel quando esse necessita de uma ‘injeção’ de vigor. A secundária, de apenas 12 V, alimenta as outras funcionalidades e sistemas do Grand Scénic, como é o caso da iluminação e do sistema de ABS. Uma forma de tornar mais eficiente uma disposição técnica elaborada.

Por outro lado, reduz as emissões poluentes e os consumos (de acordo com a marca num valor que pode chegar aos 10%), numa receita que nem aumenta em demasia o custo para o cliente. Terá sido por aí que a Renault também olhou quando tomou esta sua decisão para um primeiro ‘híbrido’.

Scénic contra os SUV

Abordemos, agora, a carroçaria escolhida, que também surpreende na medida em que a Renault não começou a sua aposta eletrificada pelos mais vendáveis Mégane ou Clio, mas sim pelo ‘anti-herói’ monovolume. Se os SUV são os ‘heróis’ do momento, surgindo como cogumelos no mercado e nos mais diversos segmentos, a Renault mantém uma ligação umbilical à catalogação monovolume, bastando recordar a importância que o Espace teve e que a própria gama Scénic já ocupou num passado muito recente.

Daí que queira manter os seus monovolume bem ‘vivos’ como alternativa aos SUV. No entanto, olhe-se para os Espace e para o Grand Scénic e percebe-se que houve também uma interessante aproximação ao visual SUV: a altura ao solo (16 cm), por exemplo, é disso um bom exemplo, já que esses dois modelos estão mais distantes do chão do que nas gerações anteriores. Contudo, se o Espace é apresentado como uma espécie de ‘SUVovolume’, já o Grand Scénic não.

O motor diesel tem um funcionamento bastante silencioso, sendo de destacar também o funcionamento do sistema start-stop

Mas aquilo que mantém é a sua enorme funcionalidade, surgindo este modelo com um habitáculo repleto de soluções inteligentes de arrumação e muito espaço, além da possibilidade de oferecer sete lugares. Os dois lugares da terceira fila estão escondidos no piso da bagageira, sendo, porém, fáceis de montar e de rebater, esta última vertente graças à utilização de sistema comandado a partir da bagageira (denominado “One Touch Folding”). Através de botões colocados na lateral da bagageira, é possível rebater os bancos da segunda e terceira fila de forma automática e sem esforço.

O espaço a bordo é, então, bastante generoso (tendo visto a sua largura aumentar em 20 mm e a distância entre eixos em 7 cm) e mostra-se apto para receber famílias mais numerosas, mas às custas da volumetria da bagageira, que na configuração de sete lugares (233 litros) perde muita da sua capacidade, como é comum nestas versões mais polivalentes em termos de missões familiares. Na configuração de cinco lugares (596 litros), os ocupantes não têm problemas de acomodamento, quer ao nível das pernas, quer em largura e altura interior, sendo aliás estes dois últimos capítulos bons indicadores da habitabilidade da Grand Scénic. Única chamada de atenção mais cautelosa para a forma como o piso elevado obriga à acomodação das pernas de forma mais dobrada para quem vai na segunda fila.

Nessa, os bancos dispõem de ajuste longitudinal, variando assim a distância para os bancos da frente e acaba por ser essa possibilidade aquela que valida o acesso à terceira fila escamoteável (bem como viagens nesses lugares). São, sobretudo, adequados para crianças (ou adultos até 1,60 m), uma vez que acima dessa medida o ocupantes terá de ir com as pernas muito dobradas (com os joelhos muito elevados), ao passo que a colocação dos pés depende também da forma como o banco da segunda fila é ajustado longitudinalmente.

Quanto aos já mencionados espaços de arrumação, nota para aqueles que estão situados na consola central graças à gaveta deslizável com um autêntico ‘baú’ entre os dois lugares dianteiros, gavetas nas portas e alçapões no piso dos lugares traseiros. O porta-luvas tem abertura elétrica por intermédio de um sensor, abrindo na horizontal, como uma gaveta literalmente. Em termos de infoentretenimento, a Renault volta a apostar no sistema R-Link 2 que tem por base um ecrã central de 8.7 polegadas em formato vertical tendo funcionamento simples e intuitivo na transição entre menus, embora alguns dos comandos, como os do ar condicionado possam causar distrações por não serem de fácil acesso no mesmo. Também os botões do volume no sistema são pouco práticos, estando do lado direito do ecrã, ou seja, do lado mais distante do condutor. E são táteis…

No que diz respeito à construção e materiais, elogios vários, estando a Grand Scénic dotada de ambiente de qualidade e boa qualidade de construção a todos os níveis, sendo um bom produto a nível geral da marca gaulesa.

Diesel com corrente

A solução técnica que a Renault considerou para este Grand Scénic é simples, como já se percebeu e evita dispêndios avultados em termos de manutenção e do próprio desenvolvimento do sistema, que aponta a marca, tem muita inspiração nos ensinamentos obtidos com a gama elétrica Zero Emissions (Z.E.).

De forma geral, o conjunto motriz em que o 1.5 dCi de 110 CV volta a estar em destaque corresponde de forma eficaz na grande maioria das situações, com respostas decididas em franja de rotações muito ampla (a partir das 150 rpm já tem ‘alma’) e em que a elasticidade deste bloco volta a dar boa conta de si ao permitir uma prestação despachada.

Essa sensação é reforçada pela assistência do binário oferecido pelo motor de 14 CV, que não chega para transfigurar o Grand Scénic, mas que traduzem uma maior competência nas prestações e na sua utilização, evitando, por exemplo, que se recorra em demasia à caixa manual de cinco velocidades, cujas últimas duas relações estão pensadas para suster os consumos. Com a benesse dos 15 Nm ‘elétricos’, o binário total aumenta para os 275 Nm). Ainda assim, em autoestrada, acaba por ficar à vista alguma dificuldade para recuperações eficazes, sendo mais prático reduzir uma velocidade de cada vez que se pretende ganhar ânimo ou enfrentar uma subida mais íngreme.

De forma geral, o sistema Hybrid Assist consegue ajudar a movimentar com ligeireza este monovolume, tornando as suas respostas mais decididas sem que os consumos sofram com essa maior vivacidade. Na verdade, este é um capitulo em que a Grand Scénic está em plano muito positivo, mercê dos seus 4,7 l/100 km no nosso ensaio (60% de cidade e 40% de vias rápidas e nacionais a velocidades constantes), que se aproximam dos 3,6 l/100 km de consumo médio anunciado. Chegar a este patamar parece impossível – recorde-se que se trata de um modelo com mais de 1500 kg – mas, ficar abaixo dos cinco litros de consumo é uma conquista importante. Refinamento de funcionamento com vibrações muito reduzidas também merecem destaque.

Fácil de levar

No que diz respeito à condução, estar ao volante deste monovolume poucas diferenças acarreta. Nota-se, sim, um maior efeito de desaceleração de cada vez que se tira o pé do acelerador por ação do motor-gerador, havendo um gráfico à esquerda no painel de instrumentos que revela quando é que se está a regenerar energia (e quando é que a mesma está a ser entregue para utilização na estrada em fases de aceleração). A unidade de controlo do sistema avalia quando é que a bateria necessita de ser recarregada pelo que nem sempre o efeito de desaceleração existe de forma evidente.

De resto, posição de condução elevada, excelente insonorização, boa visibilidade geral, bom manuseamento da caixa e dinâmica que está em muito bom nível, tirando partido da plataforma CMF C/D de elevada eficácia. Aliás, por vezes, é fácil esquecer os 4,6 m do comprimento total deste modelo, tal a facilidade de inserção em curva com respetiva noção de segurança e boas sensações de controlo ao condutor.

A direção precisa e direta ajuda nessa premissa. As jantes de 20″, opção única na gama Grand Scénic, também surpreendem ao não privar os ocupantes de conforto apreciável, mesmo que se note alguma firmeza no amortecimento quando o piso fica mais estragado ou com desníveis laterais. De acordo com a marca, os pneus de 20″ não acarretam, também, um aumento de despesa na sua substituição posterior, já que estabeleceu acordos com fabricantes de pneus para a produção de unidades em específico para este modelo sem custo acrescido em relação a umas mais comuns jantes de 17″. O que ajuda, garantidamente, é ao estilo.

O sistema Multi-Sense com comando eletrónico na consola central permite alternar entre modos distintos na atuação de parâmetros como a resposta do acelerador, direção ou iluminação do habitáculo, com o modo Sport a privilegiar o dinamismo e as respostas mais lestas e a ECO e a dar primazia à eficiência e ao baixo consumo. O modo Normal é aquele que permite um melhor equilíbrio, mas na maior parte do tempo poderá escolher o modo ECO, na medida em que não tolhe em demasia o lado das prestações.

Quanto ao equipamento, a versão Hybrid Assist surge no mercado catalogada como a “de preço mais acessível em toda a gama do Renault Grand Scénic”, o que é um bom ponto de argumentação, sobretudo porque se trata de um conjunto recheado de elementos, sobretudo no que diz respeito à segurança, como são os casos dos sistemas de alerta de colisão, de alerta de saída de faixa de rodagem, de travagem automática com reconhecimento de peões e do reconhecimento dos sinais de trânsito por intermédio de câmara dianteira. Além disso, dispõe de comodidades como os sensores de luminosidade e de chuva, travão de estacionamento elétrico, câmara traseira, sistema multimédia R-Link 2, Multi-Sense e jantes de 20 polegadas, entre outros elementos. Tudo isso por um preço de 35.390€, que se ajusta e que fica mais barato que a versão com o motor 1.6 dCi de 130 CV (37.300€). A exemplo das restantes versões, o Grand Scénic Hybrid Assist beneficia da garantia geral de 5 anos.

VEREDICTO

Esta variante com assistência elétrica da Grand Scénic assume-se como uma interessante aposta ao combinar uma das motorizações Diesel que mais longevidade tem no seio da Renault com uma pequena ‘faísca’ de eletrificação, logrando obter prestações melhoradas de uma forma subtil e quando necessário, ao mesmo tempo sem impacto negativo nos consumos e, muito importante, no custo do produto final.

A adoção do pequeno motor elétrico de 14 CV não transfigura este modelo – nem nada que se lhe pareça – mas dá-lhe, com efeito, uma maior competência dinâmica em aceleração e nas retomas. O espaço a bordo e a modularidade dos sete lugares podem ser pontos fundamentais, além de que o seu comportamento é muito interessante. Aliás, não seria desprimor considerar que também a condução é ponto forte do Grand Scénic.

Agora, note que se tiver por objetivo levar muita carga de forma frequente, os 110 CV podem ficar ‘curtos’. Mas, por este valor, pode ficar muito em conta para quem quer um grande familiar com estilo e funcionalidade.


Só Grand? E a ‘pequena’ Scénic?

A pergunta é válida, uma vez que nas anteriores gerações, a Scénic tinha variante mais compacta, denominada simplesmente Scénic. Porém, este é mais um caso de despropósito do sistema de classificação das portagens em Portugal, com o Scénic mais pequeno a ser classificado como veículo de Classe 2 nas portagens. Ou seja, disse adeus a um importante fator de argumentação comercial. Assim, à Renault não restou uma outra alternativa que não descartar a comercialização do modelo mais pequeno (4,4 m), focando as suas atenções apenas na versão Grand Scénic, que pode ser Classe 1 desde que equipado com o dispositivo Via Verde.

FICHA TÉCNICA

RENAULT GRAND SCÉNIC ENERGY 110 DCI HYBRID ASSIST
Motor térmico: Diesel, quatro cilindros em linha, injeção direta, turbo, intercooler
Cilindrada: 1481 cm3
Potência: 110 CV/4000 rpm
Binário máximo: 260 Nm/1750 rpm
Motor elétrico-gerador: 10 kW/14 CV
– Binário: 15 Nm
– Capacidade: 48 V
Potência combinada: 110 CV/4000 rpm
Binário combinado: 275 Nm/1750 rpm
Suspensão Dianteira: MacPherson, independente, barra estabilizadora
Suspensão Traseira: Eixo de torsão, barra estabilizadora
Tração: Dianteira
Caixa: Manual de seis velocidades
Aceleração (0-100 km/h): 12,4 segundos
Velocidade máxima: 184 km/h
Consumo médio (medido) em l/100 km: 3,6 (4,7)
Emissões de CO2: 94 g/km
Peso: 1615 kg
Bagageira: 189-596 litros
Comprimento/Largura/Altura (mm): 4634/1866/1655
Distância entre eixos (mm): 2804
Preço base (ensaiado): 35.390€ (36.766€*)

*Principais opcionais: Pintura metalizada ou nacarada bi-tom (610€); Pack Easy Parking (650€); Sistema de assistência na transposição involuntária de faixa (300€); Alerta de distância de segurança (300€).

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