Tesla Model S: um elétrico chamado desejo

Reis Pinto
Reis Pinto
Jornalista

O Tesla S é o automóvel de luxo do momento e assinalou, recentemente, um marco histórico. Pela primeira vez na Europa um carro elétrico vendeu mais que as berlinas tradicionais de motor a combustão. Bateu os Mercedes Classe S, BMW série 7 ou Audi A8.

É obra para uma “pequena” marca, sem tradição na indústria automóvel e cuja gama se compõe apenas de três modelos (S, X e 3). E o que vale o Model S, berlina que ensaiámos na versão 100D, com uma autonomia anunciada de 632 quilómetros? Muito, agora que o fator autonomia se está a tornar menos stressante e que os pontos de carregamento começaram a “multiplicar-se”.

Por já termos conduzido um “insano” P85D, que rendia perto de 700 cavalos, o downsize para uma berlina com cerca de 422 cavalos (mesmo assim…) e 2 196 quilos de peso poderia fazer com que se perdesse o lado absolutamente louco da versão mais potente.

Que nada!

Estes quase cinco metros de automóvel – onde cinco adultos (e mais duas crianças se optarmos pela versão de sete lugares) viajam num conforto absolutamente fora do normal, com espaço incomum em todas cotas -, aceleram mais forte do que a esmagadora maioria da produção automóvel com motores de combustão interna.

Faz dos 0 aos 100 km/h em 4,3 segundos, cola-nos ao banco e dá a sensação de que o carro foi catapultado por um elástico gigante. Tudo num silêncio de catedral, sem pneus a desaparecerem em fumo e sem perdas de tração (fruto das quatro rodas motrizes e do controle de tração).

Verdade que o S vai perdendo ímpeto à medida que se aproxima da sua velocidade máxima (autolimitada a 250 km/h), mas até lá quase tudo o que rola ainda nos aparece nos retrovisores.

E, apesar da ausência de caixa de velocidades (a alavanca no volante, oriunda da Mercedes, apenas seleciona uma velocidade para a frente e outra para trás) obstar a um comportamento mais desportivo e de ser um carro grande e pesado, ainda é possível alguma diversão ao volante jogando com o acelerador.

Explicando-nos: por se tratar de um carro elétrico, o S começa a “travar” mal aliviamos o acelerador (na cidade quase nem usamos os travões), o que nos permite antecipar a entrada em curva. Mal avistamos a saída da curva, aceleramos e o Tesla parece um míssil na direção da reta. É viciante. Pelo menos até as baterias aquecerem e entrarem em modo de segurança. Mas uns minutos depois está de novo pronto para a estrada.

Em condução “normal” conduzir o S é uma brincadeira de crianças, mas convém ir explorando com calma o carro, pois as acelerações são verdadeiramente brutais e podem assustar se o conduzirmos como um potente familiar e/ou desportivo a gasolina. No Tesla a potência surge toda de uma vez, sem perdas provocadas por atritos mecânicos, passagens de caixa, escape, etc. Verdade que não oferece um comportamento tão rigoroso como o dos seus rivais alemães, mas nunca nos deixa em apuros, a não ser que tentemos desafiar as leis da Física.

Uma vez assimilado o modo de funcionamento, não queremos outra coisa e mesmo a autonomia já não nos pareceu um “bicho papão”…

A unidade ensaiada foi-nos entregue com uma autonomia de 610 quilómetros e conseguimos fazer 520 quilómetros, grande parte deles em cidade e pouco mais de uma centena em autoestrada, com alguns momentos de intenso consumo…

Muito tato

O que exige alguma habituação é mesmo o enorme tablet tátil de 17 polegadas, situado ao alto no meio da consola, onde tudo se comanda e configura. Mesmo tudo. O S permite, por exemplo, que memorizemos no GPS a nossa residência e o carro encarrega-se de abrir o portão da garagem e subir a suspensão.

Por via da ligação permanente e gratuita à internet conseguimos selecionar a música que queremos ouvir através do Spotify ou navegar na internet.

Até o GPS funciona através do Google Earth, o que vale por dizer que visualizamos o nosso trajeto no modo Satélite, por exemplo, e podemos saber onde está o mais próximo “supercarregador” ou um simples posto de carregamento.

Contrastando com o pragmatismo dos construtores Premium, Elon Musk brinda-nos com algumas pérolas de humor. Quando “brincávamos” com as configurações do GPS fomos surpreendidos com uma nave especial no lugar da seta ou pequeno automóvel usual nos sistemas de navegação. Mais um toque no tablet e aterramos no planeta Marte… Isso mesmo. O enorme monitor passou a mostrar a superfície do Planeta Vermelho, enquanto um pequeno veículo de rodas vermelhas seguia uma estrada imaginária. Percebemos depois a alusão ao projeto SpaceX e ao desejo de Elon Musk instalar uma base em Marte.

E é por via desta ligação permanente à internet que o carro é atualizado. Ou seja, deixamos o carro à noite a carregar e podemos sair de manhã com mais potência, mais autonomia ou mais velocidades na ventilação.

Por outro lado, através do smartphone é possível localizar o carro, saber a carga disponível nas baterias, ligar o aquecimento ou retirar o carro de um lugar de estacionamento mais apertado (ou estacioná-lo).

Este S dispõe, ainda, de um evoluído sistema de Auto Pilot, que exige alguns quilómetros de habituação para vencermos algumas barreiras psicológicas. O carro mantém-se na faixa de rodagem, trava e desvia-se de obstáculos, mas sentimo-nos mais à vontade ao usá-lo no lento trânsito diário.

Entre muito equipamento, mais ou menos usual em automóveis de topo, este S inclui um sistema de filtragem de ar HEPA de qualidade médica, que a Tesla garante remover eficazmente, pelo menos, 99,97% da poluição proveniente de partículas de escape e todos os alergénios, bactérias e outros contaminantes do ar do habitáculo. O modo de defesa contra armas biológicas cria uma pressão positiva no interior do habitáculo para proteger os ocupantes.

Onde este S também dá cartas, e não são tecnológicas, é no espaço para bagagens. Atrás podemos levar até 745 litros e, à frente, devido à inexistência de grupo propulsor, mais 150 litros. Ninguém faz melhor que isto numa berlina convencional.

Com tanto espaço, estranha-se tão poucos locais de arrumação a bordo (e os que existem são pequenos) e, no interior, a inexistência de pegas para os passageiros. A qualidade dos materiais e dos acabamentos está abaixo do que é normal neste segmento, o que não tem impedido o sucesso comercial do modelo.

O S custa a partir dos 78.650 euros (versão 75D, com 490 quilómetros de autonomia), o 100D custa 112.100 euros e o P100D, que acelera dos 0 aos 100 Km/h em 2,3 segundos, tem um valor de 152.750 euros.

FICHA TÉCNICA

Tesla S 100D

Motor: Elétrico
Potência: 100 kWh/422 CV
Binário máximo: 660 Nm
Suspensão: Pneumática inteligente
Tração:Total
Caixa: Automática
Aceleração (0-100 km/h): 4,3 segundos
Velocidade máxima: 250 km/h
Emissões de CO2: 0 g/km
Peso: 2196 kg
Bagageira: 895 litros
Comprimento/Largura/Altura (mm): 4970/2187/1435
A unidade ensaiada estava equipada com:

Exterior
Pintura metalizada prateada Midnight
Tejadilho panorâmico totalmente em vidro
Jantes Cyclone prateadas de 19″

Interior

Forro do tejadilho preto/claro
Black Tesla Seats
Decoração em fibra de carbono
Forro do tejadilho em Alcântara claro

Carga
Upgrade para carregador de alta potência

Opções
Autopilot melhorado
Pacote de upgrades premium
Suspensão pneumática inteligente

Preço: 112.100 euros

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