Tetsuya Tada: “Quero manter a imagem muito forte no novo Toyota Supra”

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

A possibilidade de entrevistar em Genebra o ‘pai’ do Toyota GT86 e do vindouro Supra era algo de imperdível. Com uma pequena benesse: antes de se ficar a conhecer oficialmente o desenho do GR Supra Racing Concept – que seria apresentado cerca de uma hora depois – uma miniatura em cima da mesa deste engenheiro japonês denunciava tudo.

Separando jornalista e entrevistado, o pequeno modelo à escala 1:64 ‘puxava’ os olhares dos dois intervenientes (muito menos os da tradutora que se dedicava a cumprir eximiamente a sua função com o auxílio de um bloco de notas), acabando por ser o tema central de uma conversa em que se falou do passado do Supra, da sua herança de competição e do que poderá a vir a ser o seu futuro, mesmo que muitos segredos continuem escondidos.

Bem mais do que a sua forma, que pouco deverá fugir ao que o concept apresentado no Salão de Genebra, importa também ficar a conhecer a sua vertente técnica e o processo de pesquisa e desenvolvimento que está por detrás daquele que será o retorno de um filho ‘pródigo’ à marca nipónica.

Tem a palavra Tetsuya Tada, engenheiro-chefe do novo Supra.

Motor24: Com o Supra, a Toyota está de regresso a um segmento do qual tem estado ausente durante muito tempo? Como é que este projeto chegou à luz do dia?

Tetsuya Tada: O processo de desenvolvimento deste modelo começou em maio de 2012 e foi no mesmo momento da conferência de imprensa da apresentação internacional do GT86.

M24: Foi difícil convencer os responsáveis de topo da Toyota sobre a necessidade de ter um carro deste género?

TT: Na verdade, foi completamente o oposto. Foi mesmo no meio do evento do GT86 em Espanha que recebi a chamada do Senhor [Takeshi] Uchiyama, o presidente de então, dizendo-me para secretamente deixar o local da apresentação sem dizer a ninguém e ir à BMW em visita. Foi por isso que saí por um dia, sem dizer nada a ninguém e foi dessa forma que todo este projeto começou.

Ou seja, o engenheiro-chefe [do GT86] desapareceu por um dia inteiro e, soube depois, que isso foi um grande problema, um escândalo. Mas foi assim que tudo começou.
Obviamente, naquele momento, não sabíamos nada de concreto sobre o desenvolvimento de um carro em conjunto, fosse ele BMW ou o Supra. A única missão que me foi dada pelo Sr. Uchiyama foi tentar perceber o potencial de colaboração com a BMW. Tendo visitado a BMW, disse-lhe que achava possível [uma colaboração]. A minha resposta foi um pouco ambígua. E, de seguida, ele disse-me: ‘nesse caso, porque não o fazes?…’. Foi assim que tudo começou. No entanto, antes de o projeto começar, mesmo houve muitas dificuldades e barreiras a ultrapassar.

M24: Como é que funciona a colaboração com a BMW? Tem sido simples ou há margem para caminhos divergentes?

TT: A ideia com que fiquei dos dois primeiros anos é que existiram muitas dificuldades, em especial porque a maneira como trabalhamos e a nossa metodologia são diferentes, bem como a nossa maneira de pensar. Houve muitas dificuldades, mas começou, como disse, em 2012, e já se passaram seis anos e agora a nossa colaboração funciona muto bem. A comunicação entre as duas companhias é bastante boa e tem sido [um relacionamento] muito suave.

M24: A Toyota está presente em diversas competições como o Mundial de Ralis (WRC) ou o Mundial de Endurance (WEC). Como é que têm sido aplicados os conhecimentos e tecnologias do mundo do desporto neste carro?

TT: A Toyota tem competido em diversos eventos desportivos, como o WRC e o WEC. Para dar um exemplo do mundo dos ralis, nós recolhemos os ‘Big Data’ dos testes e também da participação nesses ralis. Recolhemos todos os dados necessários em termos da forma como o piloto consegue pilotar tão depressa e bem, para conseguir altas performances, como é que consegue controlar o carro e como é que a tecnologia do carro pode torná-lo ainda mais rápido. O que ouvimos falar atualmente em relação a esta área é nos ‘e-sports’ [NDR: desportos virtuais] e, nesse sentido, o Supra tem muitas funcionalidades que poderão ser desfrutadas nesse mundo virtual.

M24: O carro terá uma versão híbrida ou será apenas movido com motores de combustão interna?

TT: Bem… Fazem-me essa pergunta muitas vezes, vinda de muita gente, mas pessoalmente, penso que fazer uma versão híbrida do carro não é o assunto mais importante. O mais importante é chegar ao tipo de proposta que queremos oferecer aos nossos clientes. Mas percebo que a pergunta vem da noção se conseguimos combinar a tecnologia ambiental com o lado do desporto, certo?

Sei que muitos fabricantes têm diferentes problemas e diferentes abordagens em relação ao assunto do ambiente e da performance desportiva, mas no que diz respeito ao Supra a nossa proposta é bastante diferente.

M24: Sei que o presidente Akio Toyoda também já pôde conduzir o carro e participar no desenvolvimento dos protótipos. Qual é que foi a sua opinião?

TT: [Risos] Recebemos um comentário bastante severo dele… Estávamos bastante confiantes naquela altura e foi em junho do ano passado que convidámos o senhor Toyoda para testar o carro. Pensávamos que tínhamos atingido um nível bastante elevado, mas recebemos muitas críticas. Assim que o salão automóvel terminar, voltaremos para o Japão e teremos outra oportunidade para que o senhor Toyoda experimente o carro. Agora, estou um pouco preocupado…

M24: Qual foi o seu objetivo ao desenvolver este carro? Foi obter performance pura?

TT: Como sabe, o Supra é um carro desportivo lendário dentre os modelos da Toyota e também entre os adeptos da Toyota, que estão com expectativas muitos elevadas em relação ao que vem a seguir. Por isso, quis garantir que conseguia responder a esse facto e manter uma imagem muito forte do Supra. Foi por isso que procurei ouvir a opinião de muitos dos adeptos do Supra em todo o mundo. Entrevistei muitos deles antes de começar este projeto.

M24: Neste momento, a Toyota participa no SuperGT com a Lexus. Será possível que este carro, com este visual, possa suceder ao Lexus, tendo um nome tão forte na competição?

TT: Bem, tivemos diversas vitórias nesse campeonato com o Supra no passado e é por isso que a expectativa é muito elevada. Estamos no meio de discussões para saber o que vem a seguir no futuro, porque neste momento temos a Lexus a participar.

M24: Em relação ao futuro e virando um pouco o tema para o GT86, este é um carro que está no mercado já há algum tempo. Já se abordou qual o caminho a seguir para esse modelo?

TT: A minha resposta honesta é que ainda não tenho a certeza, mas o futuro, neste momento, tem como preocupação principal o Supra.

M24: Ainda em relação aos híbridos e tecnologia, duas questões: é possível fazer um desportivo híbrido acessível e divertido e, por outro lado, com as tecnologias de assistência à condução, como é que essas podem ajudar o condutor, mas sem lhe tirar a diversão ao volante?

TT: Neste momento, existem tantas opções em relação aos motores disponíveis, sejam híbridos, elétricos ou a pilha de combustível, pelo que estamos a estudar todas as propostas e ainda não tomámos uma decisão quanto ao rumo a seguir.

Quanto à segunda questão, é algo semelhante à questão de que talvez na era da inteligência artificial e da condução autónoma, não existam mais carros desportivos. Sei que é uma questão que preocupa muita gente, mas não creio que seja uma preocupação fundamentada. Na verdade, pelo contrário, no exemplo do Supra, nós somos ajudados por estas novas tecnologias avançadas relacionadas com a condução autónoma e a IA para aumentar a diversão de condução.

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Posso dar ainda vários exemplos para consolidar este ponto de vista, como é o caso dos dados [‘Big Data’] recolhidos nos ralis e na condução desportiva, os quais analisamos através da Inteligência Artificial para aprofundar o conhecimento sobre o que é a diversão de condução para o condutor. Na verdade, estamos a utilizar os conhecimentos obtidos nessa área neste novo modelo.

M24: Quanto do design do concept é que irá transitar para a versão de produção?

TT: Quanto ao desenho, deixo-o imaginar…

M24: Sei que tem imenso prazer em participar numa equipa que tem um foco tão vincado no desenvolvimento desta gama de carros desportivos. É um desafio contínuo o facto de terem de se superar?

TT: Sim, penso que a maioria dos engenheiros que trabalham em marcas automóveis desejam participar no desenvolvimento de modelos desportivos um dia nessas vidas. Neste sentido, pessoalmente, tive a oportunidade de participar no desenvolvimento do ‘hachi-roku’, o GT86, e neste modelo, pelo que tive duas oportunidades e sinto-me um felizardo. Claro, a minha equipa é composta por diferentes engenheiros que conceberam outros carros e que estão agora envolvidos no desenvolvimento dos desportivos e posso falar por todos na minha equipa quando digo que os seus olhos brilharam de excitação quando se juntaram à equipa. Obviamente, como disse antes houve muitas barreiras e dificuldades no início do projeto, mas todos na equipa dizem que desejavam não voltar às suas posições anteriores… [risos].

M24: Vamos ver este carro a participar nas 24 Horas de Nürburgring?

TT: Nós já o ensaiamos muitas vezes nessa pista. O que quer dizer que tem o potencial para participar na corrida quando e assim que o quisermos. Mas a questão se vamos participar ou não é completamente diferente e vamos ver o que o futuro reserva. [risos]


Encerrada a entrevista, a amabilidade típica japonesa e a garantia de que o novo Supra será bastante diferente da versão produzida pela BMW, mesmo tendo a mesma plataforma. Uma certeza com a intenção de ir ao encontro dos desejos e ambições dos adeptos da marca nipónica.

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