Secretário-geral da ACEA aponta meta “agressiva” de emissões para 2030

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Com a indústria automóvel a atravessar uma fase de grandes transformações, desde logo pela abertura cada vez mais forte às tendências da eletrificação e da conectividade, Erik Jonnaert, secretário-geral da Associação Europeia de Construtores Automóveis (ACEA), destacou os “grandes desafios” que os fabricantes terão pela frente para cumprirem as novas metas de emissões estabelecidas pela União Europeia (UE), mas também alertou para consequências nefastas, como o avanço desigual e a ‘duas velocidades’ do mercado automóvel

Na conferência que inaugurou oficialmente o Salão Automóvel de Lisboa, promovida pela Associação de Comércio Automóvel de Portugal (ACAP), Jonnaert destacou as três tendências que atualmente podem ser encontradas pelos fabricantes e que irão traçar o rumo a seguir nos próximos anos.

A primeira está ligada com a questão demográfica e com a alteração das expectativas dos clientes em relação à mobilidade, a segunda está relacionada com a rentabilidade e com a globalização de métodos e princípios de produção para reduzir custos, enquanto a derradeira abarca todas as questões ambientais e relacionadas com a redução das emissões poluentes.

Em relação a esta última questão, abordando as novas metas da Comissão Europeia para os anos de 2025 (menos 15% face às metas de 2021) e de 2030 (menos 30% também em relação a 2021), Jonnaert destacou que a meta para o ano de 2030 é agressiva e levanta algumas reservas quanto ao realismo da mesma.

“Em primeiro lugar, damos as boas-vindas a este pacote de medidas de mobilidade, porque a proposta de redução do CO2 faz parte de um pacote e nesse pacote valorizamos também a proposta da Comissão para incentivar os estados-membros a investirem na rede de carregamento de elétricos. Em segundo lugar, também há uma proposta para incentivar à procura pública de veículos verdes, o que vai ser um instrumento importante para nos movermos para um caminho mais verde. Dito isto, gostamos que haja uma meta para 2030, que está alinhada com os outros acordos internacionais. A redução de 30% que nos é proposta é, na nossa opinião, muito agressiva e irá levar mais tempo a atingi-la, pelo que temos algumas questões quanto ao realismo desta proposta de 30%”, referiu Jonnaert à margem da sua apresentação que reuniu jornalistas e responsáveis do setor automóvel em Portugal.

“O prazo de 2025 parece-nos muito cedo, em especial enquanto ainda precisamos de cumprir o de 2021, pelo que ter já outro alvo poucos anos depois do de 2021, que ainda temos de cumprir parece ser muito cedo. Dizemos ‘sim’ a uma meta de 2030 e sim à descarbonização, mas precisamos de ter uma meta que seja realista e que tenha em conta onde estamos hoje em toda a Europa”, considerou, lembrando que nem todos os países estão em pé de igualdade em matéria de emissões e de regulamentações.

Sobre esta aspeto, Erik Jonnaert recordou que existe uma ligação estreita entre o “nível de penetração dos veículos elétricos e o valor do PIB de cada país, sendo nas economias mais avançadas que existem mais carros elétricos. Por isso é que nós, enquanto indústria, precisamos de ter isto em conta quando surgimos com planos europeus e dar mais incentivos e apoios aos países que não estão tão avançados nessas áreas como noutras”.

Naturalmente, explicou, “este movimento para motorizações alternativas terão um custo para a indústria, que terá de investir nesta nova tecnologia, e previsivelmente para o consumidor. Temos de ver como é que a tecnologia irá evoluir em especial na eletrificação e como é que o custo das baterias elétricas se irá reduzir. Se isso acontecer, então a mobilidade será mais acessível para os consumidores”.

Elétricos em crescimento

Atendendo a este cenário, Jonnaert salienta dois pontos: o primeiro, de que o foco nos carros com meios de propulsão alternativos terá de crescer para acompanhar as metas estabelecidas na União Europeia, apontando que a otimização do motor de combustão interna não será suficiente. No entanto, neste momento, o valor de mercado ocupado pelos modelos Plug-in ou elétricos é ainda muito reduzido, conforme explicou, ainda que a indústria esteja a investir fortemente nestas tecnologias. Ou seja, as pessoas continuam a preferir os motores convencionais.

De forma a tornar a situação menos evidente, são apontadas algumas medidas que os fabricantes e fornecedores tecnológicos terão de cumprir, como a melhoria da autonomia das baterias e redução dos tempos de carregamento, bem como a redução dos seus custos e estabelecimento de uma rede de carregamento realista e capaz de lidar com o expectável aumento de veículos elétricos nas estradas, como a Diretiva para a Infraestrutura de Combustíveis Alternativos (DAFI) já deixou claro. Outro ponto indicado reside na otimização de dimensões atendendo ao tamanho das baterias e desenho dos veículos.

Estas medidas, que Jonnaert indica estarem já a ser abordadas pelos fabricantes, terão coincidentemente de beneficiar do aumento de benefícios e incentivos para a aquisição de veículos elétricos, algo em que o valor monetário difere de forma significativa na Europa. Por outro lado, a possibilidade de maior disseminação de veículos elétricos poderá acarretar, de acordo com aquele responsável, a perda de um emprego em cada três, atendendo a questões como a redução de pessoal necessário para a montagem de componentes mecânicos, redução da necessidade de manutenção automóvel e, também, perdas indiretas de postos de trabalho relacionados com tecnologias de motor a combustão.

Além disso, a produção de energia também terá de corresponder a um padrão 100% ecológico para que se possa considerar o veículo elétrico como uma alternativa de mobilidade limpa.

Fim do MCI? Não tão depressa…

Com estes avanços em termos de eletrificação, o rumo dos motores de combustão interna parece traçado rumo à extinção, mas Jonnaert indica que os mesmos terão ainda um peso muito importante nos próximos anos, sobretudo com os Diesel Euro 6 altamente eficientes que existem no mercado europeu com níveis de poluição mais baixos. Além de serem vistos como uma ‘ponte’ entre tecnologias, os motores de combustão interna poderão ainda subsistir com a criação e desenvolvimento de biocombustíveis neutros em termos de emissões, o que teria como benefício aproveitar a rede de abastecimento existente.

Mudança de paradigma na utilização do automóvel

Ao longo da conferência, Jonnaert destacou ainda as mudanças estruturais no setor, com três noções essenciais: mobilidade inteligente, novos serviços de mobilidade e energias limpas. Sobre a primeira vertente, o secretário-geral da ACEA indicou que existe uma diferença entre veículos conectados e autónomos, embora seja na combinação das duas áreas que a utilização de um veículo se torne mais eficiente, por exemplo, nos esquemas de camiões em pelotão, cujos ensaios já se iniciarem na União Europeia. Em termos de benefícios sociais, os autónomos conectados trarão consigo menos acidentes e maior produtividade, além da redução de engarrafamentos e possibilidade de maior abrangência de transportes a faixas da população até aqui sem acesso à mobilidade.

Neste ponto, foram enumerados alguns desafios a cumprir, sendo que nem todos dependem da indústria automóvel, como a criação de um quadro legal na União Europeia que possibilite ensaios e utilização transfronteiriça e a progressão tecnológica de uma rede de telecomunicações (em que o 5G será chave) que não tenha falhas ou intermitências. Relevo, então, para a criação da European Automotive Telecom Alliance (EATA), um conglomerado europeu das principais companhias de telecomunicações e fornecedores de equipamentos que conta neste momento com 38 membros e que pretende acelerar o desenvolvimento de uma rede europeia de conectividade para a condução autónoma.

Na área dos serviços, Jonnaert aponta para “uma diversificação dos consumidores que irá levar a uma maior diversificação de portefólio dos veículos e desenvolvimento de soluções de mobilidade à medida de cada um”, havendo assim uma nova onda de novos serviços de utilização como o Free2Move, Car2Go, DriveNow e muitos outros que preparam essa alteração de mentalidades. Em virtude disso, é destacada a transição operada em que muitos “construtores começam a evoluir de serem ‘apenas’ produtores de veículos para fornecedores de soluções integradas de mobilidade”.