Elétricos: ACEA alerta para metas irrealistas da Comissão Europeia

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

A ausência de uma rede sustentada de pontos de carregamento é apontada pela Associação Europeia de Construtores de Automóveis (ACEA) como uma das principais causas para a renitência de muitos potenciais compradores de veículos elétricos no continente europeu.

Tendo como base um novo estudo revelado por aquela que é a mais representativa associação de construtores automóveis na Europa, a ACEA alerta a Comissão Europeia (CE) de que as metas de emissões que possam vir a ser estabelecidas com base na aceitação crescente dos veículos elétricos por parte dos condutores podem vir a ser irrealistas devido à falta de uma rede eficaz de carregadores.

De acordo com os dados agora apresentados, existem hoje cerca de 100 mil pontos de carregamento para veículos elétricos na União Europeia, mas, tendo por base as estimativas da CE que a ACEA considera “conservadoras”, serão precisos “pelo menos, dois milhões em 2025”, ou seja, um crescimento exponencial nos próximos dez anos

Não encontrando já muito espaço de melhoria para os motores de combustão interna, a ACEA explica que as futuras reduções nas emissões de CO2 estão “fortemente dependentes das vendas de veículos de energias alternativas. Dada a baixa representatividade deste mercado, a ACEA está preocupada que a redução de 30% nas emissões de CO2 proposta pela Comissão Europeia seja demasiado desafiadora”.

Aquela associação recorre à posição da equipa do Comissário Europeu para as Ações para o Clima, Miguel Arias Cañete, de que uma redução agora proposta de 50% no CO2 teria de simbolizar a instalação de 700 mil novos pontos de carga para elétricos de forma anual. “Isso significaria um total de 8.4 milhões de novos pontos de carga ao longo dos próximos 12 anos, ou 84 vezes mais do que hoje – um objetivo que é claramente irrealista”, refere a ACEA em comunicado.

Discrepâncias enormes entre países

Lembrando que “pouco tem sido feito” desde que a meta de implementação de energias alternativas foi anunciada em 2014, a ACEA recorda ainda que, segundo os dados recentes, existe uma grande discrepância na instalação de pontos de carga nos países da União Europeia: 76% dos mesmos estão concentrados em apenas quatro países que cobrem apenas 27% da área total da UE (Países Baixos, Alemanha, França e Reino Unido). Inversamente, aponta o caso da Roménia, que tem apenas 114 pontos de carga.

Neste sentido, o secretário-geral da ACEA, Erik Jonnaert, advoga que é necessário um esforço concertado por parte dos 28 países da União Europeia para a criação de uma rede vasta europeia, “sem a qual os consumidores nunca serão convencidos a fazer a mudança para os carros elétricos em grande escala”.

Acrescenta, ainda, que “duas coisas são claras. O futuro da redução dos CO2 depende grandemente de maiores vendas de veículos elétricos e esse aumento depende de uma rede densa de carregamento. A legislação do CO2 deve, assim, fazer a ligação entre esses dois elementos”.

Já Portugal tem 1545 pontos de carregamento, contra 4974 da vizinha Espanha, por exemplo, embora supere em larga escala muitos dos países do Leste da Europa.

Países mais ricos na frente em aceitação

Os dados da ACEA fazem ainda uma correlação entre a aceitação dos veículos elétricos e o Rendimento Per Capita (GDP), observando que a quota de elétricos é próxima de 0% em países onde o GDP é inferior a 18.000€. Inversamente, os países com maior Rendimento Per Capita são os que apresentam maiores quotas de elétricos nos seus mercados.

Ligeiramente acima do limite mínimo, Portugal é apresentado com um GDP de 18.700€, a que corresponde uma quota de 1,8%, curiosamente aquele que é apontado como um valor apenas ao alcance dos países com um GDP acima dos 35.000€. Ainda de acordo com os mesmos dados, cerca de 85% das vendas de elétricos concentra-se em apenas seis países da Europa Ocidental com alguns dos maiores GDP.