De moto entre o Grand Canyon e Death Valley como num filme de cowboys

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Deixei Las Vegas a caminho do Grand Canyon, visita obrigatória a cerca de 400 Km da capital do jogo. Decidi ir pela estrada principal que segue pelo Sul e voltar pelo Norte. A estrada através do deserto é linda com planícies gigantescas e enormes escarpas ao fundo com cores alaranjadas. Tinha reservado Hotel em Flagstaff, a Sul do Grand Canyon.

No dia, seguinte antes de visitar aquele impressionante vale, fui até Sedona, um menos espetacular a 50 Km de Flagstaff, mas que tem a vantagem de ter uma estrada a passar no fundo do vale e é diferente porque tem vegetação. Aqui estamos na parte do Arizona que é junto a território Índio e alguns deles vêm vender o seu artesanato num dos pontos de vista no alto do vale. À conversa com um deles quis confirmar.

-You’re Indian aren’t you?

– I’m Navajo. We are not Indians. Indians are the people from India. We’re Native Americans.

E ele tem razão. Não faz muito sentido chamá-los Indios que foi o que Colombo lhes chamou quando chegou ao território e pensou que tinha chegado à India.

Almocei num simpático restaurante com vista espetacular sobre aquelas escarpas que nos lembram os filmes de cowboys dos anos sessenta e setenta.

Quando estava à mesa um homem veio apresentar-se:

– Olá. Eu sou o dono daquela Ducati.

Ficámos à conversa. Ele tinha uma coleção de Ducatis de entre as quais a original de TT que se classificou em segundo lugar no Dakar de 92, que acabou em Kape Town.

Participei nesse Dakar, contei-lhe. Com um carro de fabrico português.

-Really???

Da parte da tarde fui até ao Grand Canyon. Era mais longe do que estava à espera e cheguei já perto das cinco da tarde. Aliás aqui nos Estados Unidos tudo é mais longe do que estamos à espera. Olhamos para o mapa e vemos as distâncias em milhas e tudo parece perto mas quando nos pomos à estrada nunca mais chegamos aos destinos.

Fiquei verdadeiramente impressionado com o Grand Canyon. Aquele vale, de dimensões gigantescas, foi cavado na rocha pelo leito de um rio durante séculos, abrindo uma enorme racha no planalto. A vista cá de cima é absolutamente deslumbrante.

Nesse dia acabei por ficar a dormir num Hotel lá junto porque era tarde para seguir viagem. De manhã voltei aos mesmos pontos de vista, porque queria vê-los com outra luz e depois segui pela estrada 64, que dá a volta ao Grand Canyon pelo Norte, voltando depois ao deserto profundo do Arizona. Rodei até ao fim da tarde e, quando dei por mim, tinha percorrido 600 Km, primeiro através do deserto, depois por uma parte montanhosa com árvores e os últimos 50 Km numa via rápida que me levou a Cedar City, no Utah.

No dia seguinte de manhã voltei a arrancar cerca das 11 horas, sempre com bom tempo nesta parte do país, felizmente. As temperaturas têm andado entre os 20 e os 30º e só nas partes mais altas apanhei por vezes 14 ou 15º. Estou nos Estados Unidos já há vinte dias e ainda não apanhei um dia de chuva. Mas agora estou a caminho do Norte e certamente será diferente.

Tinha rodado cerca de duas horas na movimentada via rápida que desce para Las Vegas quando entrei numa bomba de gasolina e conheci dois franceses muito simpáticos que estavam a atravessar os Estados Unidos de bicicleta, a partir de Nova Iorque, já há dois meses. Ficámos mais de uma hora à conversa, trocámos contactos, tirámos umas fotografias e continuei viagem para sul.

Uns 50 Km depois passei junto ao Speedway de Las Vegas e não resisti parar. Não havia corridas no fim de semana mas estavam várias dezenas de camiões estacionados no padock e fui até lá tirar umas fotografias e perguntar porque estavam ali. Eram transportes de equipas de Dragsters e tinham vindo de uma corrida no Texas. Estavam ali para a corrida que haveria no fim de semana seguinte. “Por enquanto só cá estamos cerca de metade” disse-me um dos condutores dos camiões.

Passei depois junto a Las Vegas e desviei para NW a caminho do Death Valley. Passados uns 20 ou 30 Km entrei numa zona de deserto mais isolado. Tinha passado por um placard que anunciava que não haveria gasolina durante duas horas e meia, mas não liguei muito ao assunto até porque ainda tinha bastante. Só que aquele deserto começou a ficar verdadeiramente isolado, com muito poucos carros a circularem em qualquer dos sentidos. Andei quase 200 Km e a única construção que vi foi uma prisão com um placard junto à estrada que anunciava ser proibido pedir boleia naquela zona. Será que a ideia era não darem boleia a algum preso que se evadisse?

Quando nessa manhã tinha procurado um hotel na zona através da internet não tinha encontrado nada mas achei que no local, iria encontrar algum sítio onde ficar. Pelas cinco da tarde comecei a ficar um pouco preocupado, até porque tinha pouca água comigo e nada que comer. Pensei que, em último caso, teria que parar antes de anoitecer para poder montar a tenda na borda da estrada. Entretanto a estrada deixava a grande planície e entrava por uma zona de serra deserta mas sempre sem se ver vivalma, qualquer construção e só um ou outro carro a passarem de longe em longe.

Eram seis e meia da tarde quando, já com 430 Km feitos nesse dia vi o que pareceu ser uma bomba de gasolina ao longe. Era mesmo. Foi como se tivesse encontrado um oásis a meio de uma travessia do Sahara. Havia também um pequeno mercado onde me pude abastecer de água e comer um gelado. Pertencia a uma família de indianos que para ali se tinham mudado há duas semanas. Felizmente.

O indiano era simpático e tratou de ligar para um Hotel 30 Km à frente, o único na zona, que felizmente tinha vagas. Depois, quis ir ver a moto. Contei-lhe que tinha estado na Índia e que de cada vez que estacionava juntava-se uma multidão à volta da moto. E que por todo o lado a pergunta que me faziam era não a potência ou cilindrada da moto mas quanto custava.

-Ai, sim? E quanto custa?

Vivia há 25 anos nos Estados Unidos mas ainda era sangue indiano que lhe corria nas veias.

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