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Marchionne: O obreiro do ressurgimento do império italiano da Fiat

Polémico, por vezes, mas com uma profunda visão global da indústria automóvel, Sergio Marchionne ficará para sempre ligado ao ressurgimento recente do Grupo Fiat. O italiano, de 66 anos, assumiu as rédeas da gigante marca italiana naquele que foi um dos momentos mais complicados da sua história, quando as nuvens negras da bancarrota pairavam sobre Turim. Hoje, o grupo Fiat Chrysler Automobiles, construído por Marchionne em pouco mais de uma década, é um dos mais fortes da Europa.

Era um cenário grave aquele que a Fiat vivia em 2004, quando Marchionne foi nomeado pela família Agnelli como Administrador-delegado da companhia a 1 de junho. Herdava uma marca automóvel com prejuízos superiores a 6 mil milhões de euros em 2003 e poucas perspetivas de crescimento sustentado. Um ano depois, assumia também o comando da Fiat Auto, lançando-se num caminho que viria a reconstruir um grande grupo automóvel, com ramificações nos Estados Unidos da América (após a aquisição da Chrysler) e com uma posição consolidada no mercado europeu.

Uma das suas ideias mais queridas foi sempre a das alianças, argumentando amiúde que apenas a partilha de componentes e de custos de desenvolvimento entre fabricantes poderiam fazer crescer de forma rentável o negócio numa época em que os constrangimentos financeiros se tornaram mais evidentes. Em 2009, com o mundo a sentir os efeitos da violenta crise económica e financeira, Marchionne alcançou um importante acordo para a aquisição da Chrysler, marca que em 2007 deixara de estar integrada no Grupo Daimler, levando a bom-porto as intensas negociações com os sindicatos americanos e com o governo local.

Com o acordo para se tornar acionista maioritária da Chrysler, nascia um novo gigante automóvel, o Grupo Fiat Chrysler Automobiles (FCA). As sinergias fizeram com que ambas as marcas crescessem nos anos subsequentes, mas Marchionne mantinha a sua convicção de que as sinergias e fusões eram fundamentais para o crescimento do grupo e das suas marcas. Já em 2015, Marchionne chegou a propor uma fusão com a General Motors, com Mary Barra, a CEO da companhia americana, a rejeitar liminarmente a proposta do italiano.

Ideias fortes para liderança forte

Apesar da ideia de grande grupo automóvel, a Fiat sempre se manteve no coração da estratégia global de Marchionne: uma reestruturação profunda nos primeiros anos da sua liderança e um plano de produto mais agressivo que teve o ‘retro’ Fiat 500 como ‘ponta de lança’ (surgiu no mercado em 2007), fizeram regressar a companhia aos lucros.

As vendas do 500 surpreenderam todos os observadores e recolocaram a companhia numa posição de força, o mesmo se aplicando com o Punto e com o Panda, todos modelos que granjearam enorme sucesso, não só no mercado interno, mas também por toda a Europa. Pelo caminho, recuperou a Alfa Romeo, marca de carisma indubitável que estava em posição delicada com uma gama limitada e sem grande poderio de mercado. O plano de produto foi global, com o Giulia a ser o primeiro de uma nova ‘fornada’ para chegar a outros mercados globais, como os EUA e a Ásia, graças a uma nova plataforma e a uma série de modelos que serão lançados ao longo dos próximos meses.

O ressurgimento da Alfa teve algo de fratricida, porém. Outra marca histórica do grupo, a Lancia, perdeu-se quase por inteiro, mantendo-se ‘viva’ apenas em Itália com um modelo único, o Ypsilon. Outro ‘peso pesado’ do mundo automóvel, a Ferrari, tornou-se marca independente da FCA, após um ‘spin off’ que colocou a marca de Maranello em bolsa, sendo também ele o seu presidente (o seu sucessor é Louis Camilleri, antigo CEO da tabaqueira Philip Morris International). Das outras marcas do grupo, a Maserati tem também contado com um percurso de sucesso recente, fruto do lançamento do Levante e do Ghibli, mas Marchionne não descartava outro ‘spin off’ para a companhia do ‘Tridente’.

O agravamento do seu estado de saúde obrigou o Conselho de Administração a uma substituição rápida: para o seu lugar foi nomeado Michael Manley, que recebe como ‘herança’ de Marchionne uma companhia sólida, com défice praticamente nulo e previsões de lucro para 2018. Sobretudo, em todas as marcas, um plano de crescimento e evolução sustentada até ao ano de 2022. O legado de um homem de ideias fortes e de liderança arrojada.

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