Mercedes-AMG Project One: Três milhões de euros podiam não chegar

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Ainda antes da abertura de portas do Salão de Frankfurt de 2017, o protagonismo estava já arrebatado por aquele que é um dos automóveis mais exclusivos do mundo. Revelado na noite de imprensa do Grupo Daimler, o Mercedes-AMG Project One surgiu em palco pelas mãos de Lewis Hamilton, então a caminho de vencer mais um título do Mundial de Fórmula 1. Nesse mesmo evento, juntamente com convidados VIP e jornalistas, estava também um português que viria a garantir para si o único exemplar deste hiperdesportivo para o nosso país. O preço a desembolsar foi de três milhões de euros. Mas só isso não chegava.

Para se aceder àquele que é um dos carros mais exclusivos do planeta, com 275 unidades previstas, foi preciso recorrer a uma seleção prévia de candidatos, histórico de fidelidade à marca e garantia de longevidade, além de reuniões secretas em que nem um telemóvel podia entrar. Percebe-se, então, que ser milionário não era a única condição para se dispor da mesma tecnologia que os monolugares de Fórmula 1 utilizam nas pistas.

Todo o processo, que durou seis meses, foi ultrapassado com sucesso por um português, que teve no concessionário Sociedade Comercial C. Santos a intermediação deste negócio ‘galáctico’.

A paixão pela marca

Antes da revelação deste AMG, desenvolvido para comemorar o 50º aniversário da divisão desportiva da Mercedes-Benz, o processo de aquisição do Project One pelo empresário português que mantém o anonimato iniciou-se em março de 2017, quando chegou a uma quinta privada nos arredores de Genebra para uma reunião promovida pela marca alemã. Sem margem para fugas de informação, a entrada estava limitada e altamente restringida: relógios e telemóveis ficavam do lado de fora, na medida em que o secretismo é a ‘alma do negócio’.

Nessa reunião, partilharam-se os primeiros pormenores sobre o novo hiperdesportivo da marca de Estugarda. A acompanhar o empresário comprador estava um vendedor do concessionário que mediava o processo, Rui Sampaio, da Sociedade Comercial C. Santos, com a marca germânica a valorizar, desde logo, o histórico de relação com marca e a sua coleção de automóveis. A garantia de longevidade do negócio também foi crucial, porque em assuntos de tamanha exclusividade, as revendas posteriores não são propriamente bem-vindas.

Rui Sampaio, com experiência profissional de vendas de 15 anos, nunca pensou um dia estar envolvido no negócio de um automóvel tão especial como o Project One com um valor de três milhões de euros, mas o cliente português que acabaria por “ganhar o concurso” do Project One nacional não podia imaginar, ao início, quão complexo era o acesso ao hipercarro. Entre a intenção de compra e a fase em que se tornou o único selecionado português para adquirir o veículo que já era de coleção, antes mesmo de nascer, viveu-se um jogo de paciência que durou cerca de seis meses.

Se para ter qualquer Mercedes-AMG basta abrir os cordões à bolsa, para aceder a este autêntico “avião sobre rodas” é necessário ter um perfil, também ele, muito especial, capaz de obedecer a critérios de seleção extremamente rigorosos. A Mercedes-AMG só entrega um automóvel deste calibre a alguém cuja compra não seja motivada pelo potencial de valorização a curto prazo do Project One, mas sim a quem já tenha uma relação sólida com a marca e disponha de um património automóvel dignificante. Para além disso, o potencial de aquisição de futuras viaturas Mercedes-AMG e a longevidade do próprio cliente foram também alvo de apurada análise e fatores seletivos na decisão final de venda.

Só em agosto do ano passado, o cliente português teve a certeza que seria o único proprietário do Project One em território nacional, cinco meses depois de ter sido convidado pela AMG Portugal (ainda com o estatuto de pré-selecionado) para uma cerimónia secreta numa propriedade privada em Genebra (Suíça). Foi então que os potenciais clientes (de diversas nacionalidades) ficaram a conhecer, pela primeira vez, a maior parte dos pormenores técnicos do então ainda protótipo, bem como as suas formas finais (mas ainda não o cockpit, que estava ainda em conceção pelos engenheiros da Mercedes-AMG) e quanto teriam, afinal, que desembolsar para o adquirir, caso fossem mesmo selecionados.

A caneta que fraquejou

Com o processo de seleção concluído, o cliente recebeu finalmente a notícia por que tanto esperava, assinando um compromisso de compra e venda do automóvel (que não ainda o contrato final de aquisição), onde transacionava o sinal de garantia. Um momento solene, mas ainda assim transformado em mais uma “estória”, como conta Rui Sampaio.

“A venda de um automóvel destes acaba por tornar-se muito especial, por tudo o que envolve. Nesse sentido, desde logo, colecionei todos os pequenos adereços que, mais tarde, me fizessem relembrar esta venda, como as pulseiras de acesso exclusivo aos eventos onde o cliente do Projeto One marcou presença. Fiz também questão que o cliente assinasse o documento com o compromisso de compra e venda, com uma caneta pessoal de luxo, de tinta permanente. Só que, como parece ser hábito sempre acontecer nas alturas mais preciosas, a dita caneta falhou e o cliente, praticamente sem se aperceber, acabou por assinar a aquisição de uma viatura de 3 milhões de euros com uma vulgar caneta de improviso, com publicidade nas costas, que, naturalmente, passou, ainda assim, a fazer parte do espólio de recordações que compõe o histórico negócio!”

Os compradores passaram então por Frankfurt para conhecerem todos os detalhes, contando a partir desse momento com acesso, através de um acesso digital exclusivo, a informações privilegiadas sobre o decurso da produção e desenvolvimento da unidade específica numerada que tinham adquirido. De acordo com a marca, esta é uma prova de ligação emocional à família exclusiva do Project One, que se reveste ainda de outros pequenos sinais, como prova a oferta de uma exclusiva peça de cristal numerada, cuja forma esconde o desenho do Project One ou de uma caixa, com “espuma”, onde foi pedido para que cada proprietário decalcasse a sua mão, num gesto cuja finalidade é para já desconhecida…

De forma algo irónica, apesar de ser um modelo ao qual só se acede após tão extensa lista de critérios e com três milhões de euros prestes a ‘saltar’ da carteira, a Mercedes-AMG não revelou ainda todos os pormenores aos proprietários sobre este automóvel, ou mesmo se, por exemplo, os clientes terão pouco mais opções de personalização dos respetivos automóveis do que a escolha da cor (e mesmo assim, dentro de um leque reduzido de opções). O que cada um já sabe é que terá de se deslocar à fábrica para moldar a sua bacquet (banco do condutor), tal como acontece num monolugar de Fórmula 1.

Como curiosidade, refira-se que o processo de faturação tem apenas a intervenção da Mercedes-AMG e, todo ele é também muito rigoroso (de forma a que fique salvaguardada qualquer potencial tipo de tentativa de fuga ao fisco), fazendo, de resto, jus a todo o resto do processo que, como se percebeu, está longe de seguir os trâmites normais de uma usual venda automóvel.

Vale a pena mencionar que todos os exemplares estarão numerados, mas com placas identificativas iguais, com a inscrição de “1/275”, na forma que a Mercedes-AMG encontrou para manter a igualdade entre todos os clientes que adquiriram este automóvel de sonho e evitar especulações de preços, um dia mais tarde, quando o Project One puder ser vendido. Resta agora esperar por 2019 ou 2020, altura em que a Mercedes-AMG entregará o único Project One “português”, no local escolhido pelo seu proprietário,

Tecnicamente, como já se percebeu, o Project One é um prodigioso tratado tecnológico, dispondo de tecnologias diretamente retiradas da Fórmula 1, embora desenvolvida para aprimorar a sua fiabilidade para uso mais quotidiano. Dispõe assim de um sistema híbrido com motor V6 de 1.6 litros associado a unidade elétrica para uma potência total de 1000 CV e velocidade máxima superior a 350 km/h.

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