Ciclistas querem que Aveiro dê mais importância à mobilidade ativa

30/04/2023

Outrora “capital nacional” das bicicletas, Aveiro perdeu utilizadores de bicicletas e três quartos dos aveirenses deslocam-se de carro, mais do que há dez anos e mais que no resto do país. Como reverter o paradigma?

Aveiro foi sempre um dos distritos do país com maior utilização de bicicletas. Porém, os Censos 2021 indicam que perto de três em cada quatro aveirenses (73%) usam o automóvel como principal modo de transporte nos movimentos pendulares, o que é mais do que há dez anos e é mais que no resto do país, com a taxa de motorização automóvel é superior em 10% à média do país. A MUBi Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta refere que, em sentido inverso, na última década, Aveiro perdeu cerca de um sexto dos utilizadores de bicicleta, e o número de pessoas que usam o autocarro diminuiu em 35%.

Mediante isto, a MUBi considera que a autarquia de Aveiro “tem de alterar radicalmente as suas políticas de mobilidade”, com esta associação a propor um conjunto de investimentos prioritários a candidatar ao quadro de apoios Portugal 2030, contribuindo para promover a mobilidade ativa e sustentável, reduzindo a dependência do uso do automóvel.

“O aumento da capacidade viária e da oferta de estacionamento, quase sempre à custa do conforto e segurança dos utilizadores vulneráveis, não poderia conduzir a outro resultado”, refere a MUBi.

Na visão da MUBi, os investimentos financiados no âmbito do anterior quadro de apoios comunitários (Portugal 2020), “que deveriam ter constituído uma alavanca para um sistema de mobilidade menos dependente do automóvel, foram também um fiasco”. A associação dá como exemplos disso, o parque de estacionamento automóvel no Rossio, a rotunda do ISCA, ou o trajeto ciclável entre a Estação e a Universidade, “em que o propósito de não incomodar o tráfego automóvel se sobrepôs à segurança e comodidade dos utilizadores de bicicleta”.

“Aveiro é hoje uma cidade mais congestionada e poluída, um município sem uma oferta digna de transportes públicos e onde, em numerosos locais, é cada vez mais perigoso andar a pé ou de bicicleta”, acusa a MUBi.

Para cumprir as metas para 2030 do Plano Intermunicipal de Mobilidade e Transportes da Região de Aveiro (PIMTRA) e da Estratégia Nacional para a Mobilidade Ativa Ciclável (ENMAC) 2020-2030, o município terá de alterar radicalmente as suas políticas de mobilidade.

Aveiro tem de criar as condições para que, a cada ano, mais de 500 pessoas troquem o uso do carro pela bicicleta nos movimentos pendulares. Até ao final da década, a quota modal do automóvel deverá ter baixado dos 73% para 53% (PIMTRA) e pelo menos 10% das viagens deverão ser feitas em bicicleta (ENMAC e PIMTRA).

A MUBi recorda que, tal como as restantes autarquias, Aveiro está legalmente obrigada a desenvolver um Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS) e a aprovar, até janeiro de 2024, um Plano Municipal de Ação Climática, conforme estipula a Lei de Bases do Clima.

A MUBi apresentou à Câmara de Aveiro várias propostas para a definição de candidaturas ao quadro de apoios Portugal 2030, entre as quais se inclui a implementação de medidas de acalmia de tráfego, zonas 30 e de coexistência, alargamento e melhoria generalizados dos passeios e percursos pedonais, a criação de redes de infraestrutura para bicicleta e a expansão do sistema de bicicletas partilhadas.

Implementação de zonas de emissões reduzidas nos centros urbanos e de bairros e envolventes escolares protegidos de tráfego de atravessamento e velocidades elevadas é também defendido, bem como a promoção da multimodalidade e complementaridade dos modos ativos com os transportes públicos, como parqueamento seguro e protegido para bicicletas nos interfaces de transporte público, em especial nas estações de comboio.

Rui Igreja, coordenador da secção de Aveiro da MUBi, disse que “o Portugal 2030 está longe de poder resolver tudo, mas constitui uma oportunidade imperdível para Aveiro iniciar uma mudança de paradigma nas políticas urbanísticas e de mobilidade. Espera-se que o executivo camarário não faça como a avestruz, ignorando as evidências e continuando a fazer mais do mesmo.”