Ministro Pedro Marques: Revolução na mobilidade traz benefícios mas também riscos

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Atravessado o ponto de não retorno, os padrões da mobilidade estão a caminhar rapidamente para novos sentidos, prevendo-se para os próximos anos uma revolução completa da forma como nos movimentamos nas grandes cidades. Foi para discutir estes mesmo tema, incontornável e de extrema importância, que governantes, entidades privadas e fabricantes automóveis se reuniram no primeiro Lisbon Mobi Summit, que se realizou na sede da EDP, em Lisboa.

Sabendo-se que os padrões de mobilidade estão em constante mutação, este assume-se como um dos principais desafios para todos os operadores de transportes, autarquias e fabricantes, além da consciencialização da sociedade para uma grande alteração de paradigma que visa apostar muito mais nos transportes públicos e formas de mobilidade suave em detrimento do transporte particular, embora este não vá ser totalmente descartado. Uma das razões – se não a principal – apontada por muito dos oradores do primeiro Lisbon Mobi Summit prende-se com a necessidade de atuar ao nível da redução das alterações climáticas e das emissões de gases de estufa.

Neste sentido, o Governo está a dar passos firmes no sentido de reduzir dramaticamente as emissões de CO2 em Portugal, apostando na digitalização e na descarbonização da economia e dos transportes, uma ideia que o ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, defendeu na sua intervenção, olhando para os desafios da mobilidade como um todo em que a digitalização também terá um papel fundamental.

“As transformações da mobilidade serão um aspeto fundamental para a mudança da economia num futuro próximo. Na tendência da mobilidade, a descarbonização ou a digitalização irão revolucionar, não só evoluir, mas revolucionar, a nossa forma de funcionar em sociedade”, começou por referir Pedro Marques, para quem a indústria 4.0 não é uma visão de um futuro longínquo, mas com fatores que estão já a ser implementados.

Lembrando que existe, assim, “muito potencial, mas com muitos desafios também”, o ministro do Planeamento e das Infraestruturas é da opinião que a indústria 4.0 vai “redesenhar a estrutura laboral e obrigar a novas competências dos trabalhadores. Interessa, por isso, a todos e, obviamente, ao Governo que a discussão da transformação digital vá no sentido do bem de todos. Há que repensar os transportes e a mobilidade com novas soluções tecnologias e novos hábitos de funcionamento em sociedade”.

No sentido da mobilidade, Pedro Marques explicou que é necessário olhar para todos os aspetos de forma atenta para que se consigam também abordar os detalhes potencialmente menos bons atempadamente. A este respeito, deu o exemplo da condução autónoma, “que é uma fonte de eficiência na mobilidade, pode trazer benefícios na segurança e redução de tempos, além de ser um fator de inclusão. Mas pode trazer também desafios, como deslocações em vazio, perda de postos de trabalho ou mais carros na cidade. Por outro lado, a partilha pode ser útil na mobilidade, mas pode por em risco os transportes públicos, por exemplo”. Ainda assim, apesar dos riscos latentes, considera que o Governo “não vai contrariar esses desafios. Vamos compreender esses riscos e mitigá-los, impulsionando o progresso rumo à mobilidade sustentável”.

Flexibilidade como aposta governamental

Para este membro do Governo socialista, não será fácil apontar tempos e dar validade às previsões com exatidão. Aponta mesmo que existem incertezas no ‘timing’ de adoção de tecnologias e que as previsões hoje apontadas irão provavelmente falhar: “Há uma incerteza no tempo e nas soluções a adotar, em especial neste clima de grandes mudanças. Muitas previsões do passado, mesmo na área da mobilidade falharam, pelo que devemos planear com abertura e ter soluções alternativas. Poderá não existir uma solução única capaz de resolver todos os problemas da sociedade, por isso temos de desenvolver soluções complementares, que se adaptem à necessidade de cada um. Flexibilidade é, por isso, a palavra-chave”.

Vê, por isso, com atenção a coexistência de meios e de opções: “Os modos suaves ou partilhados devem representar um meio cada vez maior, mas não vão substituir os meios mais pesados. Há uma diversidade de gostos, de sensibilidades, de tecnologias e de soluções. O desafio é planear, com soluções integrada, importando pensar em termos de intermodalidade. Os desafios levam-nos a pensar na multiplicidade de modalidades de transportes por exemplo, ao nível dos transportes de mercadorias, com soluções combinadas que exigem integração a vários níveis e, desta forma, voltamos à revolução digital. Os clientes não vão querer saber se compram um bilhete de autocarro ou comboio, mas sim um serviço que os leve do ponto A ao B de forma eficiente”.

Desafios elétricos

Mais concretamente em termos da mobilidade elétrica, Pedro Marques reiterou o empenho governativo nesta tecnologia, mas também apresenta aquilo que chama de paradoxos. “A atração elétrica poderá trazer uma redução nos custos de mobilidade e isso pode trazer mais trânsito e menores espaços de estacionamento. Continuará, por isso, em qualquer caso, ser necessário apostar numa política de favorecimento no transporte coletivo em integração com as soluções de mobilidade individual que as novas tecnologias permitem.

Determinando apostas num cluster elétrico que coloque Portugal na vanguarda da mobilidade elétrica, Pedro Marques avança com o rumo a seguir pelo Governo: “Estímulo à inovação e investimento na formação dos recursos humanos. Portugal está a mudar. Estamos a trilhar novos caminhos de inovação e estamos à altura para agarrar as novas oportunidades que se nos apresentam, trabalhando a mobilidade e a inclusão, mas também a competitividade das empresas”, garantiu.

Proença de Carvalho aponta mudanças profundas

Neste mesmo sentido, também Daniel Proença de Carvalho, presidente da Global Media Group, grupo multimédia que organiza a primeira edição do Lisbon Mobi Summit e que mais tarde, em setembro, também organizará a primeira conferência internacional sobre este mesmo tema da mobilidade, considerou vão existir “mudanças profundas na mobilidade, com novos paradigmas em termos de veículos elétricos, prevendo-se que em 2030 existam já 25% de elétricos nas estradas. Da mesma forma, a regulamentação tenderá a mudar nos próximos anos e os carros autónomos aprestam-se a chegar. Também já nos começa a ser habitual a utilização de veículos partilhados”.