Fábrica da PSA em Mangualde em risco

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

A fábrica da PSA em Mangualde tem o seu futuro em risco a longo prazo caso a questão da alteração da classificação dos veículos nas portagens não seja revista pelo Governo. De forma mais imediata, caso tal não aconteça, o emprego na fábrica poderá ter, desde logo, um impacto forte pela negativa.

Em conferência para a apresentação da nova estratégia de produto para o grupo PSA em Portugal, Alfredo Amaral, Diretor Geral da companhia no nosso país, indicou que a classificação nas portagens do novo veículo comercial, que será produzido na fábrica de Mangualde a partir do terceiro trimestre, poderá causar o final do terceiro turno de produção que se iniciou recentemente.

Explicando que “a indústria automóvel se alterou profundamente face a uma regulamentação que tem mais de 30 anos, sobretudo por questões de segurança dos peões”, Alfredo Amaral critica a posição das concessionárias de autoestradas por não terem flexibilidade para a revisão destes moldes de classificação de veículos nas portagens.

Assim, nestes mesmos moldes, do total de 100 mil veículos previstos de produção anual para Mangualde, e atendendo a que 20 mil serão destinados para Portugal, o primeiro impacto da falta de resposta positiva ao estudo que o grupo de trabalho liderado pela ACAP já entregou para apreciação do Governo, o primeiro impacto poderá ser a supressão do terceiro turno entretanto criado.

A longo prazo, adianta o mesmo responsável, a manutenção do atual esquema de portagens em que o elemento que define a classe tem por base a altura no eixo dianteiro poderá implicar a análise por parte da casa-mãe do investimento no nosso país, alertando mesmo que a fábrica de Mangualde está em risco quanto ao seu futuro.

“O mercado evoluiu, a arquitetura automóvel evoluiu e a própria tecnologia também. Hoje, os contratos de concessão têm por base ainda os moldes antigos de há 30 anos. Falta de adaptação da legislação regulamentar quanto a esta nova fase”, afirmou Alfredo Amaral, que defende que os “veículos ligeiros deveriam ter uma classe e os pesados, consoante o número de eixos, outras classes, ou seja, com base no peso e não na altura”.

Apontando que existe “uma atitude de algum oportunismo por parte das concessionárias das autoestradas para que possam existir benefícios para o seu lado”, critica também que as autoridades da concorrência não atuem neste âmbito na medida em que, por virtude das portagens que alguns modelos têm de pagar por terem uma altura superior a 1,10 m no eixo dianteiro, veem a sua comercialização prejudicada. Defende, portanto, que as condições atuais criam “condições de concorrência deturpadas”. No entanto, recorda que o atual contrato com as concessionárias se mantém em vigor e que é perfeitamente legal, mas entende que, “neste momento, deveriam ser tidas em conta também outras razões como as económicas para o país, há um interesse económico nacional”.

Estudo do lado do Governo

Tendo sido criado um grupo de trabalho entre alguns construtores e a Associação Automóvel de Portugal (ACAP), o primeiro resultado desse esforço foi a entrega no Governo de um estudo, em maio do ano passado, para que as classes de portagens sejam revistas, com o Diretor Geral da PSA Portugal a mencionar que é “necessária uma resposta até julho, no limite”.

Esse mesmo estudo aponta diversas condicionantes que apontam para uma maior predominância de veículos ligeiros com mais de 1,10 metros no eixo dianteiro, como as regulamentações de segurança que visam uma maior distância do capot ao topo do motor para defender os peões em caso de atropelamento.

Dos contactos já efetuados com o Governo – com o anterior e o atual -, Afredo Amaral refere que a “resposta foi sempre política, de que tudo se irá resolver, mas precisamos de uma resposta rápida, para que possamos agilizar toda a produção dos novos modelos”.

Será, então, na Classe 2 que os novos comerciais da Peugeot, Citroën e Opel irão cair ao abrigo dos moldes atuais, o que irá dessa forma criar condições prejudiciais para um modelo que, em Portugal deverá representar uma fatia de 20.000 unidades/ano de um bolo que prevê 100 mil unidades quando a fábrica estiver a laborar a 100%.

A longo prazo, aponta, o investimento da PSA em Mangualde poderá, assim, estar em risco, mesmo que aponte que esse processo de deslocalização não é algo de imediato, mas que a rede fabril da PSA na Península Ibérica (três unidades em Espanha) e a implementação de uma nova fábrica em Marrocos poderão jogar contra Portugal.

Recorde-se que a fábrica de Mangualde emprega, de forma direta, 950 trabalhadores, havendo depois milhares de outras indústrias que gravitam à sua volta, na ordem das quatro mil pessoas. A PSA aponta, ao mesmo tempo, que em 2017 fabricaram-se em Mangualde 53.600 veículos, representando 32% da produção automóvel nacional e 0,8% do PIB.

O novo modelo terá por base uma plataforma para as três marcas e tem como nome de código a denominação K9, estando prevista a sua revelação oficial no Salão de Genebra, no início de março