Entrevista a Armindo Araújo: “Quero muito vencer este desafio proposto pela Hyundai”

Já não falta muito para fazer dois anos quando o AutoSport contribuiu para que Armindo Araújo colocasse termo a um longo silêncio, onde abriu o livro sobre tudo o que se tinha passado em 2012. Já nessa altura sentimos que a sua postura não era um adeus, mas sim um até já. Precisava de tempo para curar as feridas, mas também percebemos que o ‘bichinho’ da paixão pelos ralis continuava bem forte. Mas também sabíamos que a regressar, só com um projeto que fizesse sentido e lhe permitisse lutar pelos lugares da frente. E aí está ‘ele’! O regresso de Armindo Araújo CPR.

A seu lado estará Luís Ramalho, irmão de Miguel Ramalho, navegador de ‘sempre’ do tetracampeão Nacional de Ralis e bicampeão do Mundo de Produção. A equipa Team Hyundai Portugal/Armindo Araújo terá o apoio técnico da RMC Motorsport e o piloto de Santo Tirso não esconde as ambições: “Criámos um projeto ambicioso e vamos trabalhar no sentido de lutar pelas vitórias e pela conquista do título absoluto no CPR. Temos muito trabalho pela frente, mas tanto eu como o Luís Ramalho estamos muito focados nos nossos objetivos. Esta é uma grande pedrada no charco do desporto português que lança um desafio ao mundo dos ralis e nos como pilotos acho que posso falar por mim e pelo Carlos, agradecemos o envolvimento da marca e vamos dar o nosso melhor para dignificar esta marca. O Carlos (Vieira) atingiu o sucesso máximos nos ralis em Portugal em pouco tempo, é o campeão nacional em título e um adversário de peso que vou ter este ano. Nós estamos aqui a defender a Hyundai e espero ganhar, ele em segundo era ótimo…”

Depois de ter ganho tudo cá dentro e lá fora, como está a tua motivação?
“Fui quatro vezes Campeão Nacional duas Campeão do Mundo e se tudo correr de forma excelente não ganho nada que já não tivesse ganho, mas esta é uma questão de motivação, este é um novo desafio, e o desafio da Hyundai foi mais forte do que estar numa zona de conforto que era não vir à luta. Portanto, eu decidi abraçar este desafio com o espírito de vencer como estava antes de vencer o meu primeiro título, quero muito vencer este campeonato, quero muito vencer este desafio posto pela Hyundai, e o meu empenho, a minha vontade, e a minha energia é exatamente a mesma que eu tinha antes de ter sido tetracampeão Nacional ou Campeão Nacional pela primeira vez ou Campeão do Mundo pela primeira vez. A minha motivação está no topo, a minha vontade está no topo, e só estou à espera do primeiro rali.Estou muito orgulhoso de poder contar com o apoio da Hyundai Portugal que possibilitou o meu regresso à competição. O agradecimento, estende-se aos meus fiéis patrocinadores, Galp, Câmara Municipal de Santo Tirso e ACP, assim como a todos os que me acompanharam durante a minha carreira e depositam confiança neste novo projeto”.

Ainda há pouco tempo foste considerado o melhor piloto de ralis da história dos 40 anos do AutoSport. As pessoas estão muito longe de esquecer o Armindo Araújo. O que sentes relativamente a isso?
É uma honra muito grande para mim receber este reconhecimento. É um bocadinho lato demais ser-me atribuído este ‘título’ quando corremos em épocas diferentes. Muitas considerações ou análises poderiam ser feitas no que a este resultado diz respeito, contudo, quero dar, antes de mais, os parabéns a todos os pilotos votados e reconhecidos nessa lista. Um abraço a todos eles. Da minha parte, isto é um sinal que o trabalho que tenho feito na minha carreira é reconhecido e as pessoas acreditaram naquilo que foi feito e está a ser feito, sendo portanto, para mim, um grande orgulho.

Como nasceu este projeto da Hyundai Portugal, esta hipótese?
Como sabem, estava afastado das competições há alguns anos, embora sempre tenha estado atento ao que se ia passando, no mercado e nas corridas. Eu soube que a Hyundai estava a equacionar envolver-se nos ralis, e depois tive um almoço com o Dr. Sérgio Ribeiro, que é o CEO da Hyundai Portugal, em que nós discutimos um pouco qual seria a envolvência da Hyundai nos ralis, quais seriam os objetivos da Hyundai. Também ele me perguntou como estava a minha posição quanto à competição, e a partir daí nós começámos a estudar a possibilidade de montarmos algo em conjunto. O nosso entendimento foi bastante rápido, eu acho que durante esse almoço ficou clara a vontade de podermos trabalhar juntos, as coisas foram acontecendo, alguns dos objetivos que eram necessários para podermos começar a trabalhar foram ultrapassados relativamente rápido e chegámos facilmente a um entendimento.
E cada um de nós começou a trabalhar para podermos montar este projeto. E já em dezembro, fechámos o nosso acordo e vamos participar no Campeonato de Portugal de Ralis 2018 com um Hyundai i20 R5, a defender as cores da Hyundai.

Depois de tudo o que se passou em 2012, quando começaste a voltar a ter vontade de voltar?
Tal como disse quando dei a entrevista ao vosso jornal, eu apenas achava que o mercado não estava com condições, nestes anos. Nem eu estava muito disposto, primeira parte, nem o mercado, nem as marcas estavam muito dispostas a investir no desporto automóvel da forma que eu achava. Para se fazer um projeto, uma marca devia estar envolvida. Por coincidência ou não, a Hyundai foi a marca que me convenceu, com a sua postura de ir para os ralis, com a sua vontade, com a sua ambição, e isso fez-me novamente reativar a chama, que ficou viva, isto é, vontades claras de vir para obter bons resultados, tentar dentro do possível obter umas condições razoáveis, para que o projeto seja bom e portanto eu comecei a sentir algum interesse, interesse esse que obviamente, na parte desportiva, foi aumentado este ano com a minha presença no Rali de Portugal como carro zero, e no RallySpirit Altronix, já a participar.
Comecei a olhar de forma um bocadinho mais séria para algumas possibilidades e quando surgiu a Hyundai com a sua vontade para concretizar esta entrada nos ralis, acho que se juntaram as condições que eu achava importantes para se montar um projeto desportivo. Depois de alguma análise, decidi dar o passo de montar um projeto, falei com os meus parceiros, reunimos as condições necessárias e aí está, vamos avançar para o projeto.

O que já viste e sabes do Hyundai, o que achas do carro?
Eu não tenho experiência dos R5, nunca guiei nenhum carro da categoria R5, mas o que tenho lido e falado com engenheiros e com pessoas envolvidas no meio, o Hyundai teve alguns problemas ao início, que têm sido resolvidos, durante esta fase inicial da sua existência, e agora crê-se que o Hyundai esteja um pouco mais fiável e competitivo. Nós sabemos que este projeto não está ganho por natureza, vai requerer muito trabalho da nossa parte, muito desenvolvimento, vamos ter que nos preparar muito bem para atingirmos os nossos objetivos, e eu vou tentar ter as pessoas certas a trabalhar comigo para
me ajudarem não só a fazer as melhores afinações possíveis, como a trabalhar e a fazer tudo o que for possível para que as coisas corram bem.

De certeza que ao longo deste tempo falaste muito com pilotos que guiaram R5. O que pensas dessa categoria que nasceu depois de teres saído?
É uma categoria ótima para os ralis, especialmente para os campeonatos nacionais, com carros que permitem já um bom espetáculo, carros já verdadeiramente de corridas, e provou-se que se podem fazer ralis com carros a sério, e com algum controlo nos custos. Obviamente que esse controlo nos custos é relativo, continuam a ser projetos muito caros, de qualquer das formas, penso que é uma fórmula de sucesso para os campeonatos nacionais como é o caso do português.

Viste ao vivo vários Ralis de Portugal, os pilotos do mundial devem ter-te dado uma ideia do que os R5 são capazes…
Tenho uma boa ideia do que são os R5, são carros que já são construídos para corridas, têm um enorme potencial. Claro que não estamos a falar de um WRC, mas na sua proporção é um carro que nasce para fazer corridas, que nasce para a competição e, portanto, eu já tenho bastante experiência dos anos que passei no Mundial, a guiar WRC e outro tipo de carros. Portanto vamos tentar que a minha readaptação seja rápida, que eu entre no ritmo rapidamente para poder o mais depressa possível estar a lutar pelas posições que desejo.

Para quem não está tão por dentro dos ralis, queres explicar a diferença que faz cinco anos fora dos ralis e o que tens que fazer para chegares ao ritmo que queres?
É evidente que eu vou ter que me preparar bem, mesmo antes de começar a afinar o carro, vou ter que fazer quilómetros para ganhar ritmo de condução, vou ter que novamente sentir o carro de corridas, vou ter que sentir novamente algumas sensações que só ao volante de um carro de corridas é possível ter, e que readquirir o ritmo depois de ter estado parado tantos anos. É evidente que não é uma situação fácil, não é uma situação rápida, mas nós sabemos isso desde o início, e assumimos esse risco, vamos tentar que essa readaptação seja a mais rápida possível, a partir daí, quando houver um ritmo, afinar o carro para o meu estilo de pilotagem e para as especiais que Portugal tem, e chegar a Fafe com um ritmo razoável. Não será certamente o ritmo ideal, o nosso ritmo padrão de 2018, de qualquer das formas é importante chegarmos a Fafe, terminarmos o rali e acumularmos o maior ritmo possível, e o mais à frente possível.
Não sei se estaremos na luta pela vitória, possivelmente não estaremos, em Fafe, de qualquer das formas será muito bom acumular esses quilómetros, e ganhar essa experiência nesse rali completo, porque isso irá ajudar-me muito nas provas seguintes. Ter esses quilómetros de competição amealhados será muito importante.

Quando é que tu pensas que em condições normais podes estar no ritmo que queres?
Estou convencido que ao fim do segundo rali, em termos de ritmo e em termos de conhecimento do carro já poderei estar muito mais confortável com o ritmo de competição. Penso que será mais ou menos por aí. Eu ainda não andei nenhuma vez no carro, ainda estamos à espera que chegue. De qualquer das formas, eu, como meta pessoal, tenho esses dois ralis que é para tentar fazer quilómetros, e obviamente tentar não descolar muito dos pilotos da frente, para não perder muitos pontos nas duas primeiras provas. A partir da segunda prova, penso que já terei algum conhecimento importante sobre o carro e que o meu ritmo já estará a aparecer para poder dar mais luta aos meus adversários…

Quais são as tuas expectativas para a época?
Quando eu decido regressar ao cabo destes anos, e quando o faço com uma equipa oficial, é para ganhar, eu venho para o campeonato de 2018 com a Hyundai clara mente para tentar ser Campeão Nacional, não sabemos se vai acontecer ou não, temos muito respeito pelos nossos adversários porque sabemos que são fortes e também se vão preparar muito bem, mas cada um de nós que se vai sentar nos carros, e que vai lutar pelos seus objetivos, tem que os traçar, e os meus estão traçados desde o início, eu venho para ganhar, irei fazer tudo para ganhar, agora, se ganhamos ou não, só Deus saberá…

Vais ter apoio de algum engenheiro da Hyundai MotorSport?
Sim, a Hyundai vai fazer um acompanhamento especial ao campeonato português, há carros de diversas marcas, há envolvimento direto de algumas marcas no campeonato e por consequência disso, a Hyundai também tem interesse no campeonato português. Com esta situação toda, o campeonato português apresenta-se com quatro Hyundai, o meu, o do Carlos Vieira e dois do Manuel Castro, não sabemos se permanentemente a correr, mas o CPR vai ter quatro Hyundai, conhecidos até agora, e portanto a Hyundai irá acompanhar este campeonato, e contamos com algum apoio da parte deles no aspeto de nos facilitarem a vida nas afinações, e mesmo ter algumas afinações da casa mãe.
De resto é normal um engenheiro acompanhar sempre as provas, pois é basicamente a única pessoa que as equipas precisam para poder trabalhar no software dos carros, tirando o resto, as equipas têm todo o staff que já consegue trabalhar bem no carro. Uma equipa contratada por uma marca tem palmarés e um status acima da média, para serem contratadas e para terem a confiança dessa marca, são equipas que têm um know how muito grande, assim sendo já estão preparadas com técnicos para trabalhar nesses carros ao mais alto nível.

Este é para já um projeto para quanto tempo?
Este projeto está idealizado a dois anos, pelo que eu percebi da parte da marca, mas no meu caso, da minha parte, tenho um contrato anual, depois iremos decidir em conjunto a continuação, ou não, para um segundo ano.

O que pensas da realidade atual dos ralis em Portugal?
Acho que de uma forma geral os ralis são cíclicos, na sua quantidade e qualidade de equipas. Eu acho que neste momento estamos a atravessar uma fase boa, existe uma grande moral, alta, para termos bons carros e bons pilotos. Assim, contas por alto que se vão fazendo, existe a possibilidade de haver muitos R5 a apresentarem-se na primeira prova do campeonato. Eu acho que já houve anos que o nosso campeonato esteve muito pobre e eu acho que esta fase é uma fase boa, que temos de aproveitar e acarinhar e temos que fazer tudo para que marcas como a Hyundai apostem neste desporto e continuem a apostar neste desporto, para sentirem e reconhecerem que o investimento feito neste desporto valeu a pena e nós profissionais temos que ajudar as marcas a rentabilizar ao máximo esse investimento para cativar novas a fazerem também esse investimento.

Tens consciência que este teu projeto inspira outros pilotos que podiam estar na ‘corda bamba’, porque têm consciência que tu trazes muito mediatismo ao campeonato e as pessoas podem querer também vir?
Eu acho que isto tem que ser um ‘win to win’, isto é, o campeonato ganha com a minha chegada eu ganho com um campeonato forte, eu ganho com quantos mais e melhores pilotos o campeonato tiver, melhor será o meu regresso, e assim sendo eu gosto que o meu regresso incentive bons pilotos a virem mas
eu compreendo perfeitamente que para arranjar as condições mínimas para virem não é fácil, eu sei isso muito bem, de qualquer das formas é sempre de louvar quem faz esse esforço de voltar a um nível bom porque quando não se têm condições para fazer resultados mínimos mais vale não ir a jogo.

De qualquer das formas, pode ser que outros pilotos pensem no seu regresso e trabalhem para conseguir esse regresso. E já agora, como vês o WRC atualmente, as novas regras parecem ter sido acertadas…
Acho que foi um agitar das águas que correu muito bem, os carros são mais espetaculares, são mais bonitos, mais largos, mais agressivos, têm mais apêndices aerodinâmicos, mais performance, agradam à vista. Com a mudança nas regras o plantel reequilibrou-se, passámos a ter lutas durante todo o rali, pelas vitórias nos ralis, tivemos luta pelo campeonato, entre várias marcas, tivemos marcas dominantes no passado a terem péssimos resultados, tivemos marcas sem resultados no passado com excelentes resultados, e quem ganha com isto tudo é o público, a animação à volta da modalidade, e tudo isto faz com que a chama à volta dos ralis tenha ficado maior do que esteve nos últimos anos.

Tens alguma explicação para a paixão que o público português tem pelos ralis?
Eu acho que é cultural. Eu já andei por todos os ralis do Campeonato do Mundo, há países com muita cultura de ralis, e outros com pouca. Num país como a Austrália ou a Nova Zelândia, há zonas onde os ralis decorrem que as pessoas não gostam que nós lá vamos, querem que o rali esteja longe, temos outras zonas como a Finlândia em que as pessoas acarinham muito o rali, o país pára para ver o rali. Portugal faz parte desta classe em que toda a gente, mais novos, menos novos, se lembram quando eram pequenos, a acompanhar os ralis, antes era com os pais agora é com os amigos, e há muita gente que já leva
os filhos, passa de geração em geração, esta paixão. Temos, culturalmente, isto muito enraizado. Penso que a seguir ao futebol, os ralis são um desporto de elite em Portugal.
E por vezes não são tão acarinhados como deviam ser, mas outras vezes conseguem mover milhões de pessoas, como é o caso do Rali de Portugal, e consegue-se perceber que os ralis atingem pessoas doutros quadrantes da nossa sociedade. Vamos aproveitar isso enquanto essa chama existe, para capitalizar isso a favor dos ralis…

José Luís Abreu

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