As chaves do domínio na história da Fórmula 1

A F1 é dos desportos de alta competição mais exigentes do mundo. Todos os pormenores têm de ser tidos em conta e uma fracção de segundo é a diferença entre ser primeiro ou segundo. Com um nível de exigência tão grande, poderá parecer improvável que existam domínios mas a realidade é que este fenómeno é frequente.

Todos se lembram da era da McLaren-Honda dos anos 80/90, ou da Williams-Renault logo de seguida, assim como a época da Ferrari, da Red Bull e mais recentemente da Mercedes. Os domínios na F1 têm sido algo cada vez mais comum e um dos motivos para que os mais saudosos puxem o lustro às recordações do passado, desvalorizado o desporto que temos na actualidade.

A grande verdade é que este tipo de domínio existiu desde sempre. O primeiro grande domínio da história foi da Ferrari, primeira construtora a vencer 3 campeonatos de seguida (75,76.77), uma série apenas interrompida pela Lotus (78). Os anos 80 foram caracterizados por bicampeonatos, com a Williams (80,81), Ferrari (82,83), McLaren (84,85) e novamente Williams (86,87), antes da parceria McLaren Honda arrasar a concorrência por completo com 4 campeonatos seguidos. De 92 a 97 foi a vez da Williams voltar ao topo com nova série de três campeonatos seguidos, contrariada em 95 pela Benetton. Seguiu-se o reinado do Barão Vermelho de 99 a 2004. A força maior seguinte no grande circo foi a Red Bull (de 2010 a 2013) e por fim a era turbo-híbrida onde a Mercedes tem sido a melhor.

Quais são os factores que proporcionam às equipas épocas de quase absoluta invencibilidade? São inúmeros, mas os mais importantes são certamente a capacidade financeira, o talento do departamento técnico e os pilotos.

A parte financeira teve um impacto tremendo na realidade da F1. Se até meados dos anos 60 o esforço para competir era feito essencialmente por abastados privados com sede de competição, o cenário mudou em 1968 quando as equipas puderam usar patrocínios nos seus carros em vez das cores representativas das suas nações. Os orçamentos começaram a crescer gradualmente até meados dos anos 80 altura em que os contractos televisivos começaram a render muito mais dinheiro. Seguiu-se um crescimento exponencial nos anos 90 quando as tabaqueiras investiram forte na publicidade. Foi de 2000 a 2010 que os orçamentos atingiram os picos, com algumas equipas a gastarem quase 600 milhões por ano, uma tendência que foi revertida devido a recessão de 2011. Como a economia está mais tranquila e os negócios correm de feição, as equipas já voltaram a gastar ao nível do que se verificava antes da crise.

E claro que as equipas com mais recursos, são as que mais ganham. O tempo de orçamentos baixos e de equipas pequenas a surpreenderem já pertence a um passado longínquo e quanto mais dinheiro a F1 movimentar mais as equipas grandes terão a última palavra a dizer. O caso mais recente de uma equipa a contrariar os orçamentos faraónicos das grandes equipas foi a Brawn, que venceu contra todas as expectativas. Mas é preciso relembrar que a Brawn foi o resultado da saída da Honda, que não gastou pouco durante os anos que competiu. A base estava criada e houve outro factor que entrou na equação na histórica vitória da Brawn… o génio dos engenheiros.

O famoso difusor duplo é um dos grandes exemplos do tipo de domínio que se consegue quando os regulamentos mudam. As mudanças nos regulamentos têm como principal função fazer avançar a F1 tecnologicamente, mas outro objectivo disfarçado é acabar com o domínio de uma equipa. Paradoxalmente as mudanças de regulamentos são das principais causas da criação de novos domínios. O domínio da McLaren Honda iniciado em 88 foi fruto de uma mudança no regulamento que baixou a pressão dos turbo de 4 bar para os 2.5 o que levou a uma perda de potência. A Honda e a McLaren trabalharam em conjunto para fazer um motor mais económico e um chassis com menos arrasto, para diminuir o atrito provocado pelo ar. O resultado foi o carro mais dominador da história. Em 89 os turbos foram banidos e a Honda introduziu o seu V10, um domínio que duraria mais 3 anos.

A Red Bull venceu o seu primeiro título em 2010 graças ao aproveitamento do famoso “Blown Difuser” que teve como base o difusor duplo introduzido em 2009 ano em que os regulamentos promoveram um abaixamento no apoio aerodinâmico. As equipas encontraram outras formas de “colar” os carros ao solo e se a Brawn iniciou o conceito a Red Bull aprimorou-o, usando uma ideia esquecida nos anos 80 usada pela primeira fez pela Renault.

O mais recente domínio da Mercedes deve-se aos novos motores híbridos, que foram trabalhados de forma exaustiva pelos germânicos.
Para aproveitar as oportunidades é preciso ter os homens certos. Os engenheiros responsáveis pelas máquinas são as estrelas escondidas da F1. John Barnard foi o responsável pela introdução da fibra de carbono na F1, com a McLaren e foi o engenheiro que desenhou o primeiro Ferrari para Schumacher, sendo depois substituído por Rory Byrne responsável pelo chassis vencedor da Benetton em 94 e Ross Brawn, sendo esta dupla a grande responsável pelo sucesso da Ferrari.

Adrian Newey é outro dos grandes génios da F1, considerado por muitos o maior de sempre. Foi responsável pelos sucessos da Williams, McLaren e Red Bull com 10 carros campeões feitos pela sua mão. O sucesso na Williams foi partilhado com Patrick Head, o homem que foi responsável pelo sucesso da Williams, depois de um período conturbado em que Frank Williams não conseguia colocar a equipa no rumo das vitórias. Foi o génio de Head que lançou as bases para o domínio da F1 e foi ele que lançou nomes como Ross Brawn, Neil Oatley (que desenhou os McLaren vencedores em 89,90,91), Paddy Lowe (McLaren e Mercedes) e o já referido Newey. A Ferrari tem até agora 16 campeonatos (é a equipa mais antiga da F1) a Williams tem 9 e a McLaren tem 8, seguindo-se a Lotus (7), Red Bull e Mercedes (4 cada). A todas elas é fácil de associar um génio do desenho automóvel.

Mas se para vencer de forma consecutiva é preciso dinheiro e um génio do design, é preciso também um génio do volante. O domínio dos anos 70 da Ferrari deveu-se muito a Lauda, assim como a dupla Senna / Prost foi preponderante nas vitórias da McLaren. Schumacher foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso da Scuderia dentro e fora de pista, Vettel foi o jovem prodígio que se adaptou na perfeição às ideias de Newey e levou a Red Bull à glória e a Mercedes conta ainda com o talento de Hamilton para levar as suas máquinas ao pódio.

Resta tentar perceber qual o factor mais preponderante? O dinheiro é capaz de atrair os maiores génios mas a Force India mostra que é possível fazer muito com pouco. Homens como Newey, Lowe e Head precisaram de grandes pilotos para tirar o máximo proveito das suas criações, mas não é menos verdade que grande parte do sucesso dos multi-campeões se deve às suas máquinas. Qual o factor diferenciador? A sua opinião pode ajudar a desenhar uma conclusão.

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