Demasiada segurança retira a magia à Fórmula 1?

A F1 desde sempre despertou paixões fortes. A velocidade, a inovação, a competição, as equipas e acima de tudo… os pilotos. Os heróis de capacete que lutam em pista, numa procura incessante pela vitória. Não podemos fugir ao facto que a peça mais importante na engrenagem da fama da F1 são os pilotos. É ponto assente que na F1 apenas tem lugar os melhores (e alguns sortudos com os bolsos mais fundos é certo).

Até os anos 60, os pilotos eram admirados mas pouco protegidos. A F1 era perigosa na sua essência e não fazia sentido alterar nada. Os pilotos conheciam os riscos que corriam e o público aceitava que podia ver cenas pouco recomendáveis. Até que Jackie Stewart se fartou de ver colegas e amigos morrerem e iniciou um movimento pela segurança na F1, que ganhou ainda mais força com o acidente de Niki Lauda no Inferno Verde dos Nordschleife, que quase lhe custava a vida.

A caminhada em busca por uma F1 mais segura foi sendo feita progressivamente até 1994, ano da morte de um dos maiores nomes do desporto, e um dos mais carismáticos pilotos a passar pelas pistas. A perda de Ayrton Senna marcou uma geração e deu novo impulso para que a F1 desenvolvesse mecanismos de proteção dos pilotos. A inevitabilidade da morte em pista deixou de fazer qualquer sentido e o nível de segurança atingiu níveis de excelência.

Mas começa agora a surgir uma dúvida. Estará a F1 hoje em dia demasiado segura? Será que a procura pela segurança ótima está a tirar a magia à competição? Niki Lauda acha que sim, e defende que se a segurança for exagerada, poderá retirar o fascínio aos adeptos. O argumento é simples: se temos os melhores pilotos, eles sabem como evitar situações mais complicadas e conseguem andar no fio da navalha durante mais de 50 voltas. Se o campeonato existe para coroar o melhor piloto do ano, e se um campeonato de F1 é um dos mais importantes troféus que se pode conquistar, faz sentido para o ex-piloto austríaco que não se caminhe para uma F1 demasiado asséptica.

O caso do Halo é o exemplo mais concreto que se pode dar. A FIA quer implementar o sistema para assegurar que uma das partes mais sensíveis fique protegida… a cabeça do piloto. Mas o efeito estético não agrada à grande maioria, que considera o Halo uma aberração e que compromete o espírito dos monolugares. A isso poderemos juntar as enormes escapatórias que não ‘castigam’ tanto os pilotos que não respeitam os limites de pista.

Do outro lado da barricada está Stewart, acérrimo defensor da segurança e por conseguinte apreciador da ideia do Halo, tendo mesmo afirmado que as críticas que se ouvem sobre o dispositivo são exatamente as mesmas que se ouviram nos anos 60.

Dizem-nos que a história está condenada a repetir-se e o debate da F1 atual é por vezes assustadoramente semelhante ao que se viveu nos anos 60. No entanto a realidade é diferente e um piloto de F1 sabe que se tiver um acidente tem grandes probabilidades de sair pelo seu próprio pé. Que fazer neste caso? Tal como na questão dos motores para depois de 2020, a F1 terá de encontrar um equilíbrio difícil de conseguir, agradando os fãs e não prejudicando o espetáculo adorado por milhões, mas ao mesmo tempo não poderá nunca baixar a guarda em busca de novas soluções. E se dois dos nomes mais importantes da história da F1 e defensores intransigentes da segurança em pista não estão de acordo, que tipo de conclusão se pode retirar? Os adeptos terão também a sua palavra a dizer.

E o que pensa o caro leitor deste assunto? Não fazer concessões à segurança, ou sem o risco envolvido a F1 não é a mesma coisa?

Fábio Mendes