Fórmula 1: Por que é o GP do Mónaco tão importante?

O GP do Mónaco tem as suas raízes bem longe, nos anos 20 do século passado, quando Antony Noghès, um homem que tem no seu currículo a fundação do GP do Mónaco, a criação do Rali de Monte Carlo (em 1911) e sugeriu a adoção, internacional, da bandeira de xadrez como símbolo do final de uma corrida. Utilizando o seu cargo de Diretor Geral da Administração Pública com a gestão do monopólio, fabricação e venda de tabaco no Principado, erigiu a prova que se destinava a promover o turismo e a dinamização do pequeno enclave do Mónaco.

Para isso, utilizou a sua amizade com o Príncipe Louis II e o apoio do piloto monegasco, Louis Chiron e lançou um grande prémio automobilista nas ruas do Principado, aproveitando os desníveis e alguns pontos emblemáticos como as curvas do Gazómetro, da Tabacaria, Chicane do Porto, Mirabeau, Portier, enfim, pontos que formaram a reputação do GP do Mónaco.

A primeira corrida foi disputada no dia 14 de abril de 1929 e foi ganha por um inglês, de seu nome, William Grover-Williams que competiu debaixo do pseudónimo “Williams” ao volante de um Bugatti Type 35B. Foi uma corrida apenas para convidados e se a Maserati e a Alfa Romeo não marcaram presença, a Mercedes enviou Rudolf Caracciola e um SSK.

A Fórmula 1 só chegou ao Principado em 1950, ano de estreia do Campeonato do Mundo de Fórmula 1, depois da primeira tentativa feita em 1949 acabar anulada devido à morte do soberano Príncipe Louis II. O primeiro Grande Prémio do Mónaco de Fórmula 1 foi o palco perfeito para a primeira vitória de Juan Fangio na competição, com Louis Chiron, na época já com 51 anos, a conseguir o seu melhor resultado da era do Mundial e Fórmula 1, um terceiro lugar. A prova será para sempre recordada pelo vento forte que se fez sentir. Uma rajada de vento levantou uma onda enorme que galgou os muros na zona do Porto Marítimo e deixou um mar de água na pista. Fangio passou sem problemas, os restantes nem por isso pelo que o argentino venceu com mais de uma volta de avanço.

A pista foi sendo evoluída e Jackie Stewart foi um dos grandes responsáveis pela melhoria das condições de segurança do traçado monegasco. Em 1969 foram instalados os primeiros rails em pontos específicos, numa época em que a pista, exceção feita à remoção dos carros estacionados, era igual ao que os habitantes utilizavam ao longo do ano. Caso algum piloto se despistasse, o mais certo era bater num poste, num prédio, numa montra de alguma loja, na estação de comboios ou, pior, caia à água, tal como sucedeu a Alberto Ascari (1955) e a Paul Hawkins.

Isto porque na zona da marina, não havia rails ou qualquer proteção, pelo que uma saída de pista era passaporte para uma amaragem no Mediterrâneo.
Os acidentes mais ou menos graves que foram sucedendo, levou a que todo o circuito estivesse forrado com rails de proteção e, pela primeira vez desde 1929, as boxes mudaram de sítio para junto da frente marítima entre as piscinas e a Tabacaria, com a chicane a mudar de local ficando mais perto da Tabacaria. Com a construção do Rainier III Nautical Stadium, as novas piscinas, na zona onde era a reta, obrigou a criar uma dupla chicane que contornasse o novo complexo de piscinas. A pista voltou a ser alterada em 1976, com Saint Devote a ficar mais lenta e a nascer uma chicane antes da reta da meta.

Ao longo dos anos, a pista foi sendo alterada, as boxes mudaram de local, mas o glamour e as suas características de base não se alteraram e o GP do Mónaco continua a ser um dos mais desejáveis a cada época. Contas feitas, foram quatro as alterações promovidas com o circuito a manter-se entre 1929 e 1972, recebendo melhorias e mantendo-se entre 1973 e 1975, até voltar a conhecer alterações em 1976. EM 1986 o traçado do Mónaco voltou a ser alterado, o mesmo sucedendo em 1986. Daí para cá já foram várias as alterações.

“Competir no Mónaco é como tentar andar de bicicleta dentro de um apartamento, mas uma vitória aqui equivale a duas em qualquer outra pista!” Quem disse isto foi Nelson Piquet, com muitos outros pilotos a lembrarem que ter no palmarés uma vitória no Mónaco é mais importante que ganhar nas outras pistas todas.

A revista “LA Vie Automobile” do dia 25 de abril de 1929, dizia o seguinte “Pela primeira vez uma corrida de automóveis será realizada numa pista desenhada no coração da cidade. O circuito, inteiramente desenhado no Principado entre Monte Carlo, o Porto Marítimo e o Mónaco, propriamente dito, tem cerca de três quilómetros. Será um traçado feito de curvas, subidas íngremes e descidas alucinantes. Qualquer sistema de trânsito competente teria coberto a pista de sinais “DANGER”.”

O recorde da volta pertence a Kimi Raikkonen com 1m12,178s, obtida na qualificação do ano passado e que foi, também, a volta mais veloz jamais feita no traçado do Principado.
O Grande Prémio do Mónaco, juntamente com as 500 Milhas de Indianapolis e as 24 Horas de Le Mans, forma a “Triple Crown” das mais famosas e importantes provas de automobilismo internacional. Apenas um piloto conseguiu essa “Triple Crown”, foi Graham Hill, um feito que hoje é complicado de acontecer. Juan Pablo Montoya tem em falta as 24 Horas de Le Mans, pois é o único piloto em atividade que ganhou Indianapolis e no Mónaco.

Curiosamente, apenas quatro pilotos que chegaram à Fórmula 1 nasceram no Principado: Louis Chiron, André Testut, Olivier Beretta e Charles Leclerc. Porém, devido à fiscalidade do Mónaco, a maioria dos pilotos vive no rochedo, sendo proprietários de apartamentos e negócios (David Coulthard é sócio de um dos mais prestigiosos hotéis do Principado), não sendo raro alguns deles ao abandonar a corrida, saírem diretamente para casa. O episódio mais famoso disso foi em 1988, quando Ayrton Senna bateu na entrada do túnel quando seguia com uma enorme vantagem e foi a pé para casa.

Vencer no Principado não é fácil e ao talento há que juntar uma dose de sorte. Ou não fosse o Mónaco uma zona de jogo que começou, exatamente, na sua fundação. A meio do século 19, o Príncipe Carlos III apostou forte e ganhou com uma mão fraca. Obrigado a negociar a propriedade das vizinhas Menton e Roquebrune, as principais fontes de receitas do Principado, para se tornar independente de França, decidiu abrir um casino onde era possível jogar a roleta, jogo interdito em França, compensando a perda de rendimentos daquelas localidades. Começou ali a transformação do Mónaco, de uma zona balnear para o recreio dos ricos e poderosos.

Como se vê, sorte é um fator a ter em conta no Mónaco. Nigel Mansell liderava a corrida de 1992 com enorme vantagem até o seu monolugar sofrer um furo que o obrigou às boxes, deixando-o atrás de Ayrton Senna que se defendeu com unhas e dentes até final, estacionando o McLaren em cada curva para atrasar o britânico, perdendo assim uma corrida que parecia estar no bolso.

Olivier Panis venceu o GP do Mónaco de 1996 depois de sair da 14º posição da grelha de partida, devido a um problema elétrico. Ainda assim, Panis disse aos seus mecânicos que “ainda podemos terminar no pódio!” ao que um mecânico terá respondido em surdina “este rapaz é um tipo “porreiro”, mas é completamente maluco!” A chuva chegou, a corrida foi, naturalmente, caótica (tal como sucedeu em 1972 com Jean Pierre Beltoise) e no final, apenas três pilotos chegaram ao final. E uma combinação de paragens nas boxes desastrosas e ultrapassagens musculadas (entre elas uma ao Ferrari de Eddie Irvine), nervos de aço quando o combustível começou a faltar nas derradeiras voltas, obrigando-o a fazer “short shift” em todo o lado, e coragem para, olimpicamente, ignorar os pedidos lancinantes do seu engenheiro para parar nas boxes para um reabastecimento rápido, deu mesmo a vitória a Olivier Panis.

O brasileiro Ayrton Senna é o recordista de vitórias na pista desenhada nas ruas do Mónaco com seis sucessos (1987, 1989, 1990, 1991, 1992 e 1993), seguido de Graham Hill (cinco vitórias consecutivas entre 1963 e 1969), Michael Schumacher (1994, 1995, 1997, 1999 e 2001), Alain Prost (1984, 1985, 1986 e 1988) Stirling Moss (1956, 1960 e 1961), Jackie Stewart (1966, 1971 e 1973) e depois uma série de pilotos com duas vitórias (Juan Manuel Fangio, Maurice Trintignant, Niki lauda, Jody Scheckter, David Coulthard, Fernando Alonso, Mark Webber, Lewis Hamilton e Sebastian Vettel).

José Luís Abreu/Autosport

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