História: O “mapa” das grandes decisões do rali de Portugal

Participar no Rali de Portugal, significava, sobretudo no tempo em que os ralis se assemelhavam àquilo que hoje designamos por maratonas de todo terreno, estar preparado para longas jornadas ao volante, poucas horas de sono e submeter as mecânicas a circunstâncias ímpares de dureza. As condições adversas a que as equipas eram sujeitas, tornavam cada edição imprevisível até ao último metro de competição e, ao longo dos anos, as nossas estradas foram palco e, ao mesmo tempo, intervenientes activas na definição do vencedor.

A modalidade terá hoje poucos traços comuns com o que nos reservou o passado, mas os trilhos portugueses continuam a “fazer moça” como poderá, por exemplo, Jari-Matti Latvala, testemunhar. Percorrendo o baú das memórias, o AutoSport esboçou um mapa de momentos-chave, compilando palcos determinantes na atribuição da vitória, de Ponte de Lima ao Estádio do Algarve, das agruras da Serra do Açor às românticas mas igualmente traiçoeiras curvas de Sintra. Apesar de actualmente confinado a norte do Douro, o Rali de Portugal criou raízes em todo o país mas não pertence a locais, antes às pessoas. A todas aquelas que o seguem, por dentro e por fora da competição.

1967
As sinuosas estradas da Serra de Sintra decidiram o vencedor da primeira edição internacional do TAP. A braços com problemas de caixa no Renault 8 Gordini, Jean-Pierre Nicolas viu a sua vantagem desaparecer. Tentando recuperar o tempo perdido, o francês conduziu nos limites, o que acarreta um nível acrescido de risco quando o palco se chama Sintra. Um dos muros que ladeava a estrada seria fatal para as suas aspirações e a vitória sorriria a Carpinteiro Albino.

1969
Tony Fall entrava triunfante nas arcadas do Estoril, mas a presença da namorada no interior do Lancia Fulvia ditaria a sua desclassificação e a vitória de Romãozinho. Acção premeditada para evitar a exclusão por motivos bem mais graves? A verdade é que quem estava na Lousã viu partir rumo a Lisboa um Fulvia bem diferente daquele que ali chegara…

1972
Gerindo uma vantagem confortável, Jean Pierre Nicolas tinha à vista a segunda vitória consecutiva mas, no Rallye TAP, nada estava assegurado até ao controlo final e o Alpine Renault ficaria na Serra da Cabreira, vítima de problemas na caixa de velocidades. Warmbold vinha logo atrás e não desperdiçou a oportunidade de triunfar. David vencia o Golias…

1978
Noite de 22 para 23 de Abril. A RTP mostrava os Gemini a representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção, mas tal não impediu milhares de espectadores de se deslocarem a Sintra, para vibrar com a luta ao segundo entre dois dos melhores pilotos da sua geração. Um duelo memorável animava a privilegiada plateia, dividida entre Alen e Mikkola. O piloto do Escort partiu na frente para a última passagem por Sintra, mas um toque numa pedra deitou tudo a perder e Alen celebrou o triunfo numa madrugada de antologia.

1980
Irritado pelo facto de o impulsivo Alen estar disposto a lutar pela vitória até ao fim, colocando em risco uma dobradinha quase certa da Fiat, o racional Röhrl partiu para a primeira passagem por Arganil disposto a dar uma lição ao finlandês. Horas antes, enquanto descansava, o alemão percorria mentalmente cada curva daquele troço. Perto das 11 da noite, a Serra do Açor, coberta por um manto de nevoeiro, assistiu a um dos mais extraordinários recitais de condução de que há memória. Em 43 km, Röhrl ganhou mais de 4 minutos a Alen, “matando” a discussão.

1981
Podia o acidente de Alen na Peninha ter decidido o rali de 1981, não fosse o finlandês vir ainda a vencer a contenda, depois de uma notável recuperação. Mas, apesar do ritmo ‘maximum attack’, o piloto do Fiat 131 pouco poderia fazer para destronar o Audi de Mikkola, que vinha liderando a prova a seu bel-prazer. No entanto, o troço do Marão seria fatal para o Quattro e Vatanen, que herdou o comando, desperdiçou a oportunidade na Classificativa seguinte, na sequência de uma saída de estrada. Contra todas as previsões, Alen viria mesmo a carimbar a quarta vitória em solo português.

1983
A Serra do Açor, simultaneamente temida e amada pelos pilotos, foi preponderante no desfecho do rali durante os anos em que os monstros do Grupo B assaltaram as nossas florestais. Em 1983, ano em que estreou a versão de 56,5 km de Arganil, Mikkola furou precisamente aí e Walter Röhrl viu caminho aberto para ascender à liderança. A meio do troço, e face ao tempo perdido pelo piloto do Audi, o alemão passou virtualmente para o comando mas também o seu Lancia 037 acabaria por furar e quem riu por último foi mesmo Hannu Mikkola.

1984
Quando Mikkola partiu para a primeira passagem por Arganil, poucos achariam que os 43 segundos que levava de vantagem sobre Alen não fossem suficientes para fazer uma gestão tranquila da última etapa. A verdade é que o piloto da Lancia lhe ganhou mais de meio minuto, reduzindo a diferença face ao homem da Audi para escassos 10 segundos. A expectativa sobre a capacidade de Alen repetir a façanha na segunda passagem era grande, mas Mikkola reagiu, impôs a superioridade do Quattro e ganhou 4 segundos ao seu compatriota, vindo ainda a dilatar a diferença até à chegada ao Estoril.

1985
Mais de 6 minutos separavam Walter Röhrl de Timo Salonen no arranque para o derradeiro dia. Na primeira passagem em Arganil, o Audi Quattro começa a sofrer sérios problemas na caixa de velocidades, obrigando Röhrl a completar o troço bastante devagar. Resultado: 3m43s perdidos para Timo Salonen, o mais rápido à chegada à povoação de Lomba. Mas a substituição da caixa de velocidades logo após o fim do troço, obrigou o alemão a penalizar mais 5 minutos, esfumando-se assim a vantagem amealhada ao longo de todo o rali. Salonen assumiu o comando da prova e manteve-o até ao Estoril.

1986
O destino daquela que era uma das mais aguardadas edições do rali, ficou definitivamente traçado na primeira passagem pelos 5km da Lagoa Azul. Em consequência do acidente de Joaquim Santos, os pilotos de fábrica reuniram-se no Hotel Estoril Sol, emitindo um comunicado, lido por Henri Toivonen, informando que não continuariam em prova. Joaquim Moutinho, que também participara na reunião decidiu prosseguir, fazendo um rali sem grande oposição.

1987
Apesar de assinalado nas encostas da Serra do Açor, a verdade é que o momento chave desta edição terá sido algures nas instalações da Fiat em Turim, ou mesmo durante o voo que trouxe para Portugal um stock extra de amortecedores destinados ao Lancia de Markku Alen, que assim pôde enfrentar a ronda de Arganil em “maximum attack”, distanciando-se de Ragnotti, que vinha fazendo magia com o Renault 11 Turbo e estava praticamente colado ao finlandês.

1995
Disposto a vender bem cara a derrota, Carlos Sainz partiu para a última etapa completamente ao ataque. A diferença face ao líder Kankkunen vinha diminuindo e, no final da Candosa, o espanhol passou mesmo para a frente. As últimas duas Classificativas foram percorridas completamente de “faca nos dentes” por ambos os pilotos. Com direito a transmissão televisiva, Sainz dilatou a curta vantagem em Lousã-Relvas e venceu igualmente o decisivo “combate” em Figueiró dos Vinhos, chegando à Figueira da Foz com uma vantagem de 12 segundos.

1996
Sem os ases do WRC, assistiu-se a uma luta entre Rui Madeira e Freddy Loix. Por ser prioritário A, o piloto português apenas podia transportar um pneu suplente enquanto o belga levava dois. Tal facto, terá sido determinante já que, com duas borrachas extra, Loix podia adoptar uma toada mais agressiva enquanto Madeira era obrigado a fazer uma condução mais cautelosa. Curiosamente, essa vantagem acabaria por jogar contra o belga, que furou em Vila Pouca e perdeu cerca de 3 minutos. A partir daí, e embora Loix nunca lhe tenha dado descanso, Madeira pode controlar a prova até ao final, obtendo uma brilhante vitória em casa.

1997
Depois dos problemas de motor que cedo afastaram Colin Mcrae, Keneth Eriksson era a única esperança da Subaru. O sueco terminou a primeira etapa na frente mas, no segundo dia, Tommi Mäkinen venceu todas as classificativas e saltou para o comando em Vieira-Cabeceiras. Esperava-se um duelo animado entre os dois nórdicos mas o motor do Impreza de Eriksson calou-se definitivamente a poucos quilómetros do final da Classificativa de Viseu. A partir daí, ao piloto da Mitsubishi, bastou gerir a sua confortável vantagem sobre Freddy Loix.

1998
Quem não se recorda das imagens de Luis Moya, navegador de Carlos Sainz, no final do troço de Amarante, levando as mãos à cabeça, ou melhor, ao capacete, depois de saber que os 4,7 segundos que haviam ganho a Colin McRae não haviam sido suficientes para vencer o rali? O piloto da Subaru ganhara por 2,1 segundos registando-se a diferença mais curta da história do WRC até então.

2000
Richard Burns e Marcus Grönholm dividiam, de forma alternada, a liderança. Burns recuperou o comando em Salgueiro-Góis 2, Grönholm respondeu na Aguieira mas, o britânico da Subaru, foi mais forte em Ponte de Lima, carimbando o triunfo nos metros finais em Ponte de Lima Sul, com uma escassa margem de 6,5 segundos sobre o piloto da Peugeot.

2001
Um final de cortar o fôlego assumia-se como uma espécie de consolação num rali que, ao longo de 3 dias, havia sido um calvário para pilotos e máquinas. Debaixo de condições meteorológicas diluvianas, a componente competitiva do evento durou até ao final (para alguns) e, tal como no ano anterior, Ponte de Lima teria o privilégio de ser o palco de todas as decisões. Na última Classificativa, Tommi Mäkinen destronou Carlos Sainz da liderança, triunfando com 8,6 segundos de vantagem.

2011
Aquela imagem de um Sébastien Loeb sereno e insensível à pressão, uma espécie de máquina concebida para vencer, esbatia-se no final do troço do Vascão. Obrigado a conduzir os quilómetros finais da Classificativa no pó de Hirvonen, que havia furado e regressara à pista mesmo à sua frente, o francês perdeu imenso tempo atrás do seu adversário, e com ele, toda a calma que o caracteriza. Na tomada de tempos, deu um encosto na traseira do Ford de Hirvonen e, furioso, saiu do carro para pedir explicações ao finlandês. Os segundos perdidos seriam irrecuperáveis e Ogier tinha via aberta para o segundo triunfo consecutivo no nosso país.


2012
Mais do que um final electrizante, as emoções da edição de 2012, no que ao vencedor diz respeito, viriam à flor da pele horas depois de Mikko Hirvonen abrir o champanhe junto ao Estádio do Algarve. As irregularidades detectadas na embraiagem do Citroën levariam à desclassificação do finlandês e a vitória cairia no colo de Mads Ostberg que registava, assim, a sua primeira e única vitória, até hoje, no WRC.

2015
O favoritismo era de Sébastien Ogier, que tinha ganho três das quatro provas anteriores, mas nestas contas faltavam Jari-Matti Latvala e… as regras da FIA para a ordem de partida. Ogier teve uma posição de partida para a estrada desvantajosa em 13 das 16 especiais da prova. Enquanto isso, Latvala aproveitava o facto de ser nono no Mundial antes do rali e encontrava os troços muito mais limpos do que os seus companheiros de equipa. No final da PE 11, Latvala, Kris Meeke, Ogier e Andreas Mikkelsen estavam separados por 16,6s, o que tornava esta edição das mais imprevisíveis dos últimos anos. O ataque de Ogier foi forte, e chegou ao final do penúltimo dia no segundo lugar, a 9,5s de Latvala. Ainda recuperou até aos 7,8s em Fafe, mas o finlandês respondeu em Vieira do Minho, e foi o mais rápido, colocando novamente a margem em 10,4s, antes da Power Stage. No final, a vitória foi para Latvala, com o pódio a ser todo VW.

Numero Ano
1 1967
2 1969
3 1972
4 1978
5 1980
6 1981
7 1983
8 1984
9 1985
10 1986
11 1987
12 1995
13 1996
14 1997
15 1998
16 2000
17 2001
18 2011
20 2012
21 2015

 

Nuno Branco