Pureza e a tradição europeia ou a festa americana para a Fórmula 1?

No passado fim-de-semana tivemos um espetáculo tipicamente americano antes do GP dos EUA. A Liberty Media avisou que queria fazer de cada GP uma espécie de SuperBowl e em Austin puxou da experiência americana para dar um extra à festa. Como estamos a falar da F1, um desporto que vive de constante evolução, mas que curiosamente se sente mal quando algo muda, obviamente que as opiniões dividiram-se.

Pilotos como Vettel ou Raikkonen, que são já por si mais reservados e pouco dados ao ‘show-off’, não apreciaram o espetáculo, outros como Alonso acharam que foi apenas uma imitação do que realmente se faz nos ‘States’ e claro, Hamilton, que nem gosta nada deste tipo de entradas, aprovou a ideia e disse que foi bom ver a F1 mudar um protocolo que tem mais de 10 anos.

Helmut Marko, um homem cujo sorriso é tão frequente quanto um eclipse solar mostrou-se recetivo à ideia e disse que há lições que se devem tirar do que se fez para melhorar o produto, opinião partilhada por Horner que embora não tenha gostado, admitiu que há pormenores que devem ser tidos em conta.

Como seria de esperar algumas vozes se insurgiram contra este tipo de festa e os receios da americanização da F1 voltaram a pairar sobre os adeptos e alguns responsáveis. Serão esses medos justificados? Para já não e a F1 precisa de evoluir para atrair novos públicos que inevitavelmente gostam de coisas diferentes do público que via a F1 há 10 ou 20 anos atrás. Os americanos sabem como fazer uma grande festa e sabem organizar campeonatos que atraem muito público e equipas. Basta ver o exemplo do IMSA que está cada vez mais forte enquanto o WEC está numa encruzilhada.

Há coisas que no automobilismo americano não são bem vistas por cá e com razão. Na última edição de Petit Le Mans ficámos com a clara sensação que tivemos um ou dois ‘Full Corse Yellow’ a mais, e um deles foi claramente excessivo. Mas já se sabe que isso junta o pelotão, que os recomeços são sempre muito intensos e a corrida pode levar uma cambalhota… aumenta-se o espetáculo, como os americanos gostam.

Por cá, preferimos lutas renhidas e “alguns toques se necessário”, admiramos pilotos que conseguem ‘cavar’ o fosse de 5 ou 7 segundos para o adversário direto e não gostamos de ver o seu esforço diluído porque não é bom para o espetáculo. As corridas são mesmo isso, umas vezes temos ‘procissões’ outras vezes lutas desenfreadas. Adulterar a verdade do que se passa no asfalto em prol das ‘audiências’ é algo que provavelmente qualquer adepto no continente europeu repudia.

Mas os americanos têm muito a ensinar. Um dia falávamos com um piloto nacional que tinha ido a Sebring ver ao vivo a prova e confessou que ficou maravilhado com o que viu lá. Um circuito sem grandes condições mas que atraí milhares de pessoas. Por um motivo muito simples… a facilidade de chegar aos carros e aos pilotos. Na Europa o automobilismo é muito fechado, os pilotos são quase colocados em redomas de vidro e falam apenas à comunicação social, muitas vezes com cara de enfado, nem sequer querendo perceber que são esses que os tornam verdadeiramente conhecidos.

Nos States podemos ver miúdos a passear pelo paddock maravilhados por poder ver de perto as máquinas e por se cruzarem com os pilotos. Os pilotos admitem que o ambiente num paddock americano é mais descontraído do que num europeu e que existe um sentimento de partilha e entreajuda que nem sempre se vê (aliás, quase nunca) no Velho Continente. O próprio Alonso quando fez a Indy500 teve contacto direto com este tipo de realidade e pareceu até gostar da ideia, ele que foge dos microfones como o diabo da Cruz.

Os adeptos são parte fundamental do desporto e é preciso dar-lhes motivos para ir às pistas. É preciso fazer-lhes sentir o que é um carro de competição de perto e ter contacto com os pilotos que tanto admiram.

Vila Real, por exemplo, é um traçado especial por permitir muito essa proximidade. Quem tiver a oportunidade de ver ao vivo deve aproveitar a experiência e ver a quantidade de pessoas que se junta ao final de tarde/noite na zona do paddock para ver os carros. Mais de metade não percebe nada de corridas mas vão ver os carros porque são máquinas imponentes. É esse o verdadeiro espírito do automobilismo e são estes pequenos momentos que podem trazer mais adeptos. As pessoas gostam, e as equipas também pois os patrocinadores têm assim uma exposição extra e não há um piloto que não goste de ir à capital transmontana. Um sinal claro que este tipo de interação é saudável e desejada.

A F1 tem a oportunidade de poder ter o melhor de dois mundos… a pureza e a tradição da competição europeia, e a festa americana com a maior proximidade dos fãs com os pilotos e máquinas. É uma oportunidade que provavelmente deve aproveitar.

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