O carro português que transportou o Papa

O Sumo Pontífice está quase a chegar ao nosso país, e trazemos até si agora a história do famoso UMM que transportou João Paulo II quando ele se deslocou à Madeira.

Portugal está já a preparar-se para receber a visita do Papa Francisco, que se desloca ao nosso país na celebração dos 100 anos das aparições de 1917 da Virgem Maria aos três pastorinhos na Cova da Iria. Como habitualmente, o Sumo Pontífice irá deslocar-se entre as multidões de fiéis a bordo do famoso Papamóvel, que de momento é um veículo fornecido pela Mercedes mas que já anteriormente, quando em 1991 o Papa João Paulo II esteve em Portugal e foi à Madeira, permitiu ver o líder da Igreja Católica a bordo de uma viatura portuguesa. Descubra agora connosco o UMM que transportou Sua Santidade a 12 de maio de 1991 na visita à Pérola do Atlântico.

A ideia de transportar João Paulo II em solo madeirense a bordo de um carro português nasceu do Governo Regional, que para esse fim entrou em contacto com o representante do concessionário da UMM no território insular, o Sr. Abel Spínola. Assim teve origem este projeto que custou entre 10.000 e 12.000 contos (algo que na taxa de cambio significaria valores de 50.000 a 60.000€) e que demonstrou a mestria da produção automóvel portuguesa. A União Metalo-Mecânica (UMM) tinha já vasta experiência na criação de veículos especiais, como aqueles criados para as Forças Armadas, e assim teve total capacidade para levar a cabo com sucesso este projeto, para o qual requisitou algumas peças em metal à Transfortécnica, situada em Cabriz (Sintra). Após concluído o trabalho, este abençoado jipe foi transportado para território insular por um avião da Força Aérea.

Assim nasceu este modelo com pintura em branco Madre-Pérola metalizado com a matrícula UX-19-91 que teve a honrosa tarefa de transportar o Papa ao longo de um trajeto de 30km, que lhe permitiu realizar uma missa campal no Estádio dos Barreiros a que assistiram mais de 50.000 pessoas. As dimensões em comparação a um UMM de produção foram quase todas mantidas, caso do comprimento de 5600mm e a largura de 1580mm, embora a altura tenha crescido para os 2875mm de forma a acomodar o compartimento onde foi transportado este sucessor de São Pedro na liderança da Igreja Católica. Sob o capot a opção foi para o motor diesel atmosférico de 79CV e 2498cm3 de cilindrada, em detrimento do turbodiesel de 110 CV pois as deslocações seriam efetuadas a ritmo baixo. Da mecânica destaque ainda para a utilização dos diferenciais Dana 44 nos dois eixos, com 19 dentes, e ainda o facto do depósito de combustível blindado (como exigido pelas autoridades da Igreja) ter passado para o lado direito da viatura, enquanto o escape fez trajeto inverso e passou a surgir na esquerda do automóvel.

Mas se o tamanho teve poucas alterações, já na balança não se pode dizer o mesmo, pois o UMM Papamóvel viu o peso crescer para os 2500kg, algo derivado dos 900kg de materiais de proteção. Estes eram os vidros de Lexguard com 4cm de espessura, colocados sobre suportes de alumínio com varas antibalísticas, e ainda as duplas chapas de aço de carbono separadas por lã de rocha que se encontram nas laterais, traseira e piso. Todos estes sistemas foram testados em laboratórios credenciados que confirmaram que eles excediam por larga margem as exigências do Vaticano, sendo ainda de referir o facto de apenas ser possível abrir as janelas traseiras a partir do interior, quando o Sumo Pontifice desejasse saudar os fiéis.

No visual do modelo comprova-se que a frente manteve as linhas características dos modelos da União Metalo-Mecânica, com a tradicional estrutura tubular conhecida como “mata-vacas”. A dianteira ganhou, ainda assim, um avental mais baixo para acomodar o sistema de ar condicionado com seis ventoinhas. Outras mudanças que se vislumbram (além do grande compartimento para acomodar João Paulo II) são os suportes para que os seguranças pudessem acompanhar de perto Sua Santidade durante as viagens.

Após aceder pela traseira ao UMM, tarefa facilitada por uma porta do lado esquerdo que era 54cm mais alta e contava com um apoio tubular, o Papa poderia instalar-se na sua poltrona em madeira de castanheiro lacada a branco e debruada a ouro, que contava com estofos num material específico para artigos religiosos e com trabalhos em capitonet. Quando desejava levantar-se para saudar os fiéis, o polaco nascido como Karol Wojtyla que ascendeu à liderança da Igreja Católica podia utilizar uma outra estrutura tubular de suporte e onde estava integrado o microfone que via as suas santas palavras difundidas através dos dois altifalantes no tejadilho. Tanto para esta instalação sonora como para o ar condicionado existiam controlos a bordo que poderiam ser utilizados pelo Papa. Neste espaço seguro, forrado a alcatifa vermelha de veludo fabricada na Bélgica, existia ainda espaço para mais dois ocupantes.

O UMM criado para esta visita papal à Ilha da Madeira foi um sucesso imediato e um dos responsáveis pelo projeto chegou mesmo a afirmar aos meios de comunicação social que “Sua Santidade adorou o carro, de longe melhor do que aquele que possui e usa habitualmente”. Talvez por isso, e após uma passagem até 2 de junho de 1991 no Auto Show do Porto, tenham surgido dúvidas sobre se o modelo iria permanecer na Pérola do Atlântico ou ser enviado para o Vaticano. Acabou por ser a primeira hipótese, como indicado no artigo publicado por Gregório Teixeira no UMM Jornal do terceiro trimestre de 2007, onde é indicado que esta relíquia permanecia neste território insular. Guardada em local seguro, como refere essa mesma reportagem, o UMM Papal é sem dúvida um ex-lybris da produção automóvel nacional, que permite afirmar que o Sumo Pontífice já foi transportado por um carro fabricado em Portugal.

A Revista Turbo agradece ao Clube UMM pela cedência das fotos que ilustram este artigo, e agradecemos também o apoio com estes suportes para enriquecer ainda mais esta reportagem sobre o Papamóvel Português.

Fontes: UMM Jornal do terceiro trimestre de 2007 e diversos artigos publicados logo após a visita do Papa João Paulo II a Portugal em 1991.

Nuno Fatela/Turbo

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